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Superação da Violência através da construção de laços comunitários: o caso de Sapucaia do Sul

Atualizado: 8 de ago.

Louisa Yazdani

(Acadêmica de Psicologia - Universidade do Vale do Rio dos Sinos)

Marcos Alan Ferreira

(Professor de Relações Internacionais e Estudos de Paz - Universidade Federal da Paraíba)


Quando expressamos que desejamos a paz, geralmente a primeira coisa que pode estar em nossas mentes é o fim das guerras. No entanto, nem sempre são as guerras a principal fonte de sofrimento e morte. Como já é consenso no campo acadêmico denominado Estudos de Paz e Conflitos, para que se possa alcançar a paz em um determinado local, é necessária que seja superada a violência e o conflito - e a guerra é tão somente um tipo de conflito. Entre outros tipos de conflito e violência temos a criminalidade organizada, o terrorismo, conflitos interétnicos, violência de gênero, entre outros.

No caso do Brasil, infelizmente não podemos falar que este é um país plenamente pacífico. É verdade que somos uma nação com um histórico limitado de conflitos com países vizinhos. Porém, por outro lado, vivenciamos um contexto de 47.503 homicídios somente em 2021. Metade destas vítimas são jovens entre 12 e 29 anos, dos quais aproximadamente 77,9% eram negros e 91,3% homens. Em apenas 11 anos (2011-2021), o país registrou a triste cifra 604.390 homicídios (1). Não se pode esquecer aqui o aumento da violência contra a mulher, que diariamente se vê insegura em um simples caminhar na rua. Estes tristes dados demonstram que estamos longe da paz quando consideramos nossos conflitos sociais. Entre os fatores que fomentam este fenômeno estão os mercados ilícitos como drogas e armas, produzidos por uma profunda desigualdade social. Além disso, há elementos histórico-sociais importantes, como a banalização da violência contra determinados grupos (especialmente jovens negros e mulheres) e resquícios de uma violenta escravidão que durou mais de três séculos.

Neste contexto, que respostas dá a Fé Bahá’í para superar esta violência? Que laços comunitários podem ser construídos para enfraquecer a violência comunitária, seja ela contra jovens, mulheres ou qualquer outro indivíduo? A perspectiva bahá'í é caracterizada pelo reconhecimento de nossas capacidades duais de egoísmo e altruísmo, competição e cooperação. Considera-se que uma das principais fontes de conflito e guerra é a concepção materialista embutida nas normas e instituições sociais contemporâneas (2). Para responder a um pensamento de materialismo que gera guerra e conflito, devemos fortalecer outro mais forte pautado na paz. Para isto, nesta Fé a paz é alcançável quando se fortalece a realidade espiritual da natureza humana.

Dessa maneira, o desenvolvimento do pensamento e serviço altruísta para a melhoria da sociedade é fundamental na perspectiva bahá'í sobre a paz (3). Para isso são necessários processos educativos que superem a violência através de atividades educacionais fundamentadas em valores como generosidade, bondade, amor, justiça e unidade. Estes atributos são capazes de transformar não só indivíduos, mas comunidades inteiras.

Um exemplo promissor que demonstra a capacidade desta construção da paz através da educação, é o que se vê em Sapucaia do Sul-RS. Em um pequeno bairro localizado na periferia da cidade, a maioria de sua população vive em condições de moradia informal e baixa renda. O alto índice de violência na localidade é em boa parte conectado ao tráfico de drogas. Crianças e adolescentes são diariamente expostos injustamente a este meio, sendo inclusive usados para fazer o transporte das mercadorias ilícitas. Desta forma, a violência associada às drogas acabou se tornando algo naturalizado, aprendido e perpetuado no bairro, gerando a crença entre os jovens da comunidade de que isto inevitavelmente faria parte de seu futuro.

Contudo, a interação dessa população com um programa educativo promovido pela comunidade baha’i iniciou um processo profundo de mudança. Certos pressupostos embasam tal programa: todo ser humano é essencialmente nobre e repleto de capacidades, a educação tão somente pode desenvolver essas capacidades latentes; o desenvolvimento das habilidades morais e do intelecto promove uma profunda mudança espiritual e material; o avanço individual do ser humano está intimamente ligado ao avanço da comunidade em sua volta.

Tais atividades educacionais ofereceram às crianças e aos jovens uma nova perspectiva de protagonismo na sua história. Encontrando-se semanalmente, eles reforçam seus laços de amizade e camaradagem, e passam a se enxergar como um só grupo. Juntos, eles refletem sobre seu verdadeiro propósito e pensam sobre como podem desenvolver a si e a sua comunidade simultaneamente. Ao mesmo tempo, mulheres e mães estão se reunindo com regularidade, estudam Palavras Sagradas e refletem sobre o bem estar de seus filhos. Cada vez mais, elas se preocupam com as crianças de todo o bairro e fazem-se presentes para apoiar uma a outra nos cuidados dos mais novos da população.

Compreendendo a oração como um instrumento capaz de evocar sentimentos nobres, promover a reflexão individual e coletiva, e impulsionar a ação, reuniões de oração são realizadas diariamente na vizinhança. Todos são chamados para participar: adultos, jovens e crianças, mulheres e homens, independentemente de sua religião. Isso tem gerado um ambiente de atenção e preocupação genuína com as necessidades uns dos outros. Por exemplo, visitas são realizadas para aqueles que estão doentes ou passando por alguma dificuldade, com o intuito de compartilhar orações e oferecer ajuda.

A experiência tem demonstrado que a intensidade das atividades educacionais e o fortalecimento do caráter devocional nesse bairro enfraquecem as verdadeiras raízes da violência. Por exemplo, professoras do Ensino Fundamental da escola do bairro têm relatado que os pré-jovens diminuíram as brigas em sala de aula e têm apoiado uns aos outros nas tarefas, o que fortalece seus laços de amizade e cria um ambiente mais amistoso. Motoristas de aplicativos compartilharam que sentiram a diminuição da violência na comunidade e que agora aceitam trajetos de ou até o bairro, diferente de dois anos atrás. E dentro das famílias a comunicação está sendo mais estimulada e menos violenta. Apesar de ainda haver muito a se aprender, as transformações já geradas nesta localidade trazem esperança e força para seguir neste caminho, cujos resultados têm sido promissores e nos leva a continuar a aprender com sua iniciativa.


  1. Cerqueira, Daniel. (coord.) Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2022. FBSP: São Paulo, 2022.

  2. Ferreira, M. and Karlberg, M. 2017. “Bahá’í Faith”. In: Paul Joseph, 2017. The SAGE Encyclopedia of War: Social Science Perspectives, Thousand Oaks,, CA: SAGE. pp. 131-133.

  3. Farhoumand-Sims, C.A. and Lerche, Charles. 2004. “Perspectives on Peacebuilding: An Overview and Some Insights from the Bahá’í Writings”. In: Lerche, C. Healing the Body Politic. Oxford: George Ronald, p. 22.


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