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Otimismo e firmeza frente a tempos de crise

Por Paloma Eghrari e Larissa Gandolfo -

A pandemia que nossa geração presenciou nos últimos anos nos trouxe enormes questionamentos em todas as áreas da vida humana. Não há nenhuma questão universal que não tenha sofrido sua influência e certamente os acontecimentos que vivemos e que ainda viveremos até encontrarmos um ponto de equilíbrio seguro nos transformarão profundamente. Esse fenômeno de mudança radical é algo inerente ao que, de forma mais comum, chamamos de períodos de crise: sejam esses períodos vividos na nossa esfera pessoal ou ainda na esfera social e coletiva como temos presenciado com a pandemia. O fato é que o mundo não será mais o mesmo e cabe à humanidade agora se esforçar para, de cima dos escombros do seu velho mundo, ver a aurora que se lança no horizonte trazendo as boas novas de um mundo que está para nascer.

Existem forças que operam na sociedade que são integrativas/construtivas e outras que são desintegrativas/destrutivas. Quando avaliamos a realidade apenas pela ótica das forças destrutivas, podemos ter a visão distorcida de que a humanidade se encontra em uma crise sem precedentes e sem solução, o que pode nos trazer um sentimento de desesperança. No entanto, em um período de crise, é esperado que enquanto alguns elementos irão ruir naturalmente, outros elementos positivos e construtivos irão simultaneamente emergir. Se nos apegarmos aos elementos que estão em processo de ruína, podemos involuntariamente estender esse período de crise, pois essa atitude apenas reforça o que já enfrentamos de desafiador. É preciso desprendimento e confiança para avançar, dar o passo seguinte e perceber que, a cada passo, a paisagem se transforma e nos dá uma nova perspectiva que não tínhamos antes, uma nova capacidade que podemos desenvolver, um novo olhar para antigos problemas.

Nossa educação muitas vezes se apoia em narrativas que nos fazem entender as coisas de uma forma maniqueísta: ou uma situação é boa ou é má. A maturidade do indivíduo - e também dos grupos sociais - está em compreender que as forças de integração e desintegração são dialéticas e sempre podem nos impulsionar à evolução se aprendermos a compreender as crises como oportunidade de nos perguntarmos: “em que mundo queremos viver?”, “qual parte na construção desse mundo cabe a nós?”, “como podemos ver nossas crises como oportunidades?”.

Em momentos desse tipo precisamos recordar quem nós de fato somos. O mundo do individualismo sofreu um duro golpe com a pandemia, uma vez que a natureza nos mostrou claramente que não haverá cura isolada ou desconectada do todo. Não é rara a percepção de que em momentos de crises, o ser humano demonstra atitudes nobres, embora por vezes essa nobreza inerente ao ser humano possa parecer ocultada por vários fatore s que turvam nossa percepção correta da realidade.

A consciência crescente de nossa interdependência e da nossa necessidade de agir de forma coordenada vai dando forma ao sonho de um mundo de fato globalizado e próspero, sem fronteiras para o conhecimento e enchendo cada coração com a ideia de que a Terra é um só país e a humanidade é seu povo. O aparente otimismo dessa leitura, que para muitos parecia apenas ingenuidade na crença de uma bondade inata, vem se desenhando cada vez mais claramente como uma tomada de responsabilidade na transformação do mundo e no desenvolvimento das pessoas, das comunidades e das instituições que possam orientar e promover o bem estar e cuidado, a solidariedade e o amor. Em períodos de crise, podemos perceber que agimos de maneira solidária: no corpo humano, quando um órgão não está exercendo suas funções como esperado, o impacto é sentido em todo o organismo. Paralelamente, quando uma parcela da humanidade atravessa momentos de crise, toda a humanidade sofre os efeitos desse desequilíbrio. Assim, quando avançamos nossa compreensão no princípio de unicidade da raça humana, podemos enxergar na crise uma oportunidade de fomentar nossas próprias qualidades em prol de outros indivíduos.

Além disso, uma atitude que pode auxiliar em períodos de crise é termos claro o nosso propósito: quando se tem como objetivo de vida o serviço à comunidade ao nosso redor, a crise pode ajudar no desenvolvimento de qualidades como resiliência, empatia, altruísmo, fé e esperança. Diante das dificuldades, lembrar que nosso propósito está entesourado no nosso coração, ter fé e confiança não são otimismo ingênuo e sim raízes profundas que nos sustenta diante das tempestades. Nas palavras de ‘Abdu’l-Bahá:

As árvores devem estar firmes no chão para dar frutos. As fundações de uma construção devem ser muito sólidas para apoiar o prédio. Se houver a menor dúvida num crente ele não terá resultados. Quantas vezes Cristo advertiu Pedro a ser firme! Portanto, considere o quão difícil é permanecer firme, especialmente em momentos de provação. Se um homem suportar e vencer as provações, mais firme e inabalável se tornará. Quando uma árvore está firmemente enraizada, quanto mais o vento sopra, mais ela se beneficia; quanto mais intenso o vento, maior o benefício, mas se as raízes são fracas, ela cairá imediatamente.” (Thompson, 2021)¹

Cabe a nós encontrarmos nossos lugar nessa construção da nova ordem e cuidar de nossas raízes para que as circunstâncias não abalem nossas certezas, para que pessimismos nos ajudem a ver a realidade mais não feriam nossas esperanças e para que sigamos certos e certas na nobreza humana e do amparo divino em todos os tempos e sob todas as circunstâncias.


¹ O Diário de Juliet Thompson/ Juliet Thompson: tradução de Coordenação Nacional Bahá'í de Tradução e Revisão do Brasil. - 1ª ed. - Mogi Mirim, São Paulo: Bahá'í do Brasil, 2021. 344p.

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