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'Abdu'l-Bahá: Uma figura única na história da humanidade

Atualizado: 24 de nov. de 2021



Em homenagem ao Centenário do falecimento de 'Abdu'l-Bahá


Por Tálita Barão e Gabriel Marques -


Uma figura majestosa e única na história humana e religiosa da humanidade, assim podemos nos referir a ‘Abdu’l-Bahá (literalmente o Servo de Deus), nascido Abbás Effendi em 23 de maio de 1844 na antiga Pérsia. Sua vida é a tal ponto marcada por distinções especiais que Ele é considerado o Exemplo Perfeito em palavras e ações de todos os ensinamentos bahá´ís. Se, por um lado, ao longo de 40 anos foi um prisioneiro do Império Otomano na cidade-fortaleza de Akka, e tendo acompanhado todo o exílio de Seu Pai, Bahá’u’lláh, por outro, empreendeu uma memorável viagem ao Ocidente, indo ao Egito, Europa e América, e marcando de modo profundo, milhares de vidas tanto de pessoas comuns como de personalidades que com Ele se encontraram.


Um coração luminoso, pleno de bondade e amor, caracterizava Sua Pessoa. Falava com grande sabedoria e ternura, mansidão e honradez, nobreza e humildade. Transmitia em Suas palavras uma profunda consciência da realidade social, e estava na vanguarda de Seu tempo. Em Suas ações demonstrava a firmeza de Seu propósito ao tratar a todos, sem exceção, de acordo com os princípios contidos nos ensinamentos de Bahá’u’lláh; fossem eles eruditos ou incultos, de quaisquer nacionalidades e credos, do Oriente ou do Ocidente. E entre seus ouvintes estavam teosofistas, agnósticos, materialistas, espiritualistas, cientistas cristãos, reformadores sociais, hindus, súfís, muçulmanos, budistas, zoroastrianos e muitos outros. Cada um e todos receberam a simpatia de Sua atenção e bênçãos especiais.


“Os relatos das viagens de ‘Abdu’l-Baha e os efeitos sobre aqueles com Ele se encontrou são inúmeros. Alguns viajaram distâncias extraordinárias para entrar em Sua presença – indo de barco, à pé, e mesmo sob vagões ferroviários – e, devido à urgência de seu desejo de vê-Lo, marcou suas consciências sobre futuras gerações de adultos e crianças. Os testemunhos daqueles que foram transformados por um breve encontro - às vezes quase sem palavras, com seu amado Mestre permanecem profundamente comoventes. Na grande variedade de visitantes que recebeu - ricos e pobres, negros e brancos, indígenas e emigrantes - o abraço universal da Fé de Seu Pai estava inequivocamente em evidência.”[1]


Em 1901 um daqueles atraídos à sua presença foi um jovem de apenas 30 anos, Thomas Breakwell, um inglês que havia imigrado para a região Sul dos Estados Unidos com sua família e lá, embora jovem, assumido cargo de responsabilidade num engenho de algodão, o que lhe proporcionava um bom salário e lhe permitia viajar com frequência à Europa. Thomas Breakwell conheceu a aderiu de imediato à Causa Bahá’í em Paris. Ele foi em peregrinação em 1901, numa curta estadia de poucos dias. Ele explicou ao Seu Mestre que “apreciava a remuneração substancial de seu trabalho nos Estados Unidos, mas também expressou uma repentina convicção de pecado quando relatou que os engenhos eram dependentes de trabalho infantil.” ‘Abdu’l-Bahá o olhou, grave e silenciosamente, e disse: “Telegrafe vossa resignação.”[2] Ele obedeceu de imediato, cortando todas as ligações com sua vida antiga, sendo assim aliviado de sua carga esmagadora e foi transformado pelas energias criativas desta nova Revelação. Não tendo retornado aos Estados Unidos, muitos são os relatos de sua vida simples em Paris, onde permaneceu como uma fonte de difusão do amor e fervor, promovendo ações dignas de uma vida de serviço ao próximo e difundindo palavras de encorajamento e conforto aos demais.


Em 1911, em Paris, a atenção de muitos artistas e escritores modernistas, dentre outras personalidades se volveram à figura magnética de ‘Abdu’l-Bahá, dentre eles os influentes críticos e poetas simbolistas Remy de Gourmont e Guillaume Apollinaire. Outro foi o escritor modernista George Bernard Shaw, mais tarde Prêmio Nobel de literatura. Ainda outro foi o influente escritor japonês Yone Noguchi, o qual escreveu: “Tenho escutado muito sobre 'Abdu'l-Bahá, a quem as pessoas chamam de idealista, mas gostaria de chamá-lo de realista, porque nenhum idealismo, quando é forte e verdadeiro, existe sem o endosso do realismo. Não há nada mais real do que Suas palavras sobre a verdade. Suas palavras são tão simples quanto à luz do sol; novamente como a luz do sol, eles são universais. ... Nenhum Mestre, eu creio, é mais importante hoje do que ‘Abdu’l-Bahá.”[3] Noguchi soube inicialmente sobre ‘Abdu’l-Bahá através da Sra. Agnes Alexander, uma bahá’í nascida no Havaí que havia sido enviada por Ele para compartilhar os Ensinamentos Bahá’ís no Japão.[4]


Em outubro daquele mesmo ano, 'Abdu'l-Bahá estava na casa de alguns amigos bahá'ís em Paris e Ele lhes disse: “Ontem à noite, quando voltei para casa, não dormi. Fiquei acordado pensando e disse a mim mesmo: ”Estou aqui em Paris. Oh meu Deus! O que é Paris e quem sou eu? Nunca pensei desde a escuridão da minha prisão que eu viria aqui e estaria entre vocês, pois fui condenado à prisão perpétua. Quando li o documento que me falava da minha sentença, disse aos oficiais: ‘É impossível!’ E eles ficaram surpresos. Então eu disse a eles: ‘Se Abdul-Hamid [Sultão do Império Otomano] fosse imortal e eu fosse imortal, então seria possível que ele me condenasse à prisão para sempre, mas nós não somos imortais, então é impossível. Meu espírito está livre e nenhum homem pode aprisioná-lo.’”[5]


Quando chegou à Inglaterra, 'Abdu'l-Bahá enfrentou uma condição que O perturbou muito, porque estava além de Seu poder aliviar a miséria que via constantemente a seu redor. Alojado luxuosamente em Cadogan Gardens, Londres, Ele sabia que a poucos passos dali estavam pessoas que nunca tinham se alimentado o suficiente - e em Nova Iorque havia encontrado exatamente a mesma situação. Essas coisas O entristeceram muito, e Ele disse: “O tempo virá em um futuro próximo quando a humanidade se tornará muito mais sensível do que atualmente se encontra e um homem de grande riqueza não desfrutará de seu luxo, em comparação com a deplorável pobreza ao seu redor. Ele será forçado, para sua própria felicidade, a gastar sua riqueza para obter melhores condições para a comunidade em que vive.”[6]


A viagem e estadia de ‘Abdu’l-Bahá na América do Norte foi de nove meses, onde foi calorosamente recebido e discursou em Templos, igrejas de todas as denominações, sinagogas, sociedades pacifistas, instituições religiosas e educacionais, faculdades, clubes femininos, grupos metafísicos e centros de novos pensamentos, onde apresentou as ideias de Bahá’u’lláh, recebendo a pronta aceitação à Sua mensagem. Dentre a audiência diversificada encontram-se filósofos e cientistas, agnósticos e materialistas, professores, diplomatas e oficiais, todos ouvindo atentamente e examinando de modo aberto e sem reservas os princípios e ideais da Revelação bahá’í em relação à educação, paz, elevação e unificação da humanidade. Jornais e revistas noticiaram amplamente Sua visita, enquanto milhares foram atraídos sob a tenda do amor por Ele estendida tão amplamente. Muitas Suas palestras e elocuções encontram-se reunidas no livro “A Promulgação da Paz Universal”.


Em julho de 1914, a Áustria-Hungria declarou guerra à Sérvia e a Grande Guerra teve seu início. Quando o Império Otomano se juntou às Potencias Centrais da Alemanha e da Áustria-Hungria, as Potencias Aliadas – incluindo a França, Grã-Bretanha e, por fim, Estados Unidos, formaram um bloqueio estrito em torno de Haifa. Diante do quadro sinistro, ‘Abdu’l-Bahá tomou ações para a proteção dos bahá’ís residentes em Haifa e Akka – na Terra Santa –, removendo-os para uma aldeia drusa próxima, chamada Abu-Sinan, onde instruiu os bahá’ís a estabelecerem um dispensário e uma pequena escola para as crianças da região, enquanto Ele mesmo e apenas um outro bahá’í permaneceram em Akka. E para a proteção das populações vizinhas, instruiu os fazendeiros bahá’ís no vale do rio Jordão a aumentar a produtividade da colheita e armazenar grãos extras em antecipação a uma escassez futura. Com a guerra os suprimentos tornaram-se escassos e Ele garantiu que o trigo fosse distribuído em toda a região. Em julho de 1917, por exemplo, Ele visitou uma fazenda em Adasiyyih, na atual Jordânia, por 15 dias durante a colheita do trigo e da cevada. Ele carregou o excedente em camelos para a área de Akka-Haifa, assolada pela fome. Por seus serviços ao povo da Palestina durante a Primeira Guerra, após a libertação de Haifa do domínio turco pelo general Allenby, no verão de 1918, ‘Abdu’l-Bahá aceitou e foi condecorado com a distinção de cavaleiro do Império Britânico.


Milhares foram as almas tocadas e transformadas por Seu Espírito, pelo encanto de Sua Presença, pela doçura e clarividência de Suas elocuções, por Seu amor todo-abrangente, por Seu olhar ocultador de falhas e pecados humanos. Como uma nova criação muitos se lançaram imediatamente em Seu caminho de serviço à humanidade. Dentre essas muitas almas, em relação à chegada da Causa em nosso país, cabe-nos destacar a jovem Leonora S. Holsapple, que com apenas 21 anos de idade, sem parentes e sem conhecer o idioma, apenas respondendo ao chamado lançado por Abdu’l-Bahá, desembarcou na cidade do Rio de Janeiro, em 1º de fevereiro de 1921, vindo a se tornar a “Mãe espiritual do Brasil e da América do Sul”.


O escritor e artista sírio libanês-americano Kahlil Gibran, esteve na presença de ‘Abdu’l-Bahá em 1919 e esboçou um retrato de sua face, mantendo indelével aquela experiência única, da qual sempre se recordava com simpatia e amor, conforme registrado por sua amiga Juliet Thompson.[7] Embora não haja uma confirmação conclusiva, a obra O Profeta, de Gibran, bem pode ter sido inspirada na Figura de ‘Abdu’l-Bahá, também conhecido como O Mestre. A Sra. Thompson se recorda de Gibran tê-la dito “que quando estava escrevendo O Filho do Homem, ”ele pensou em ‘Abdu’l-Bahá do começo ao fim,”[8]


O passamento de ‘Abdu’l-Bahá em novembro de 1921 foi a maior demonstração de unidade espiritual das religiões que a Terra Santa jamais havia presenciado: “O Alto Comissariado, Sir Herbert Samuel, o governador de Jerusalém, o governador da Fenícia, os altos funcionários do governo, os cônsules de vários países residentes em Haifa, os dirigentes das várias comunidades religiosas, as notabilidades da Palestina, judeus, cristãos, muçulmanos, drusos, egípcios, gregos, turcos, curdos, e uma multidão de Seus amigos americanos, europeus e nativos, homens, mulheres e crianças, de toda as classes sociais... cerca de dez mil pessoas, lamentavam a perda do seu Bem-Amado....”[9].


É impossível descrever em poucas palavras a genial personalidade de Abdul-Bahá. Os poucos exemplos aqui citados apenas nos dão uma ideia de que Sua vida merece a atenção de todo aquele que deseje investigar os mistérios de Sua influência penetrante e permanente.

[1] 5 Dezembro 2013, mensagem da Casa Universal de Justiça [2] Lakshman-Lepain, Rajwantee. A vida de Thomas Breakwell. Mogi Mirim: Bahá’í do Brasil, 2007, p. 13. [3] Yone Noguchi, cited in The Bahá’í World Vol. VIII 1938-1940. Wilmette, Ill.: Bahá’í Publishing Trust, 1981, p.624. [4] Agnes Baldwin Alexander, History of the Bahá’í Faith in Japan 1914-1938. Tokyo: Bahá’í Publishing Trust, 1977, p.41. [5] ‘Abdu’l-Bahá in Their Midst, by Earl Redman, p. 47 [6] Vignettes from the Life of ‘Abdu’l-Bahá, por Annamarie Honnold, pp. 67-68. [7] Marzieh Gail, “Juliet Remembers Gibran”, Other People, Other Places. Oxford: George Ronald Publisher, p.230. [8] Gail, Other People, Other Places, p.228 [9] Esslemont, John E., Bahá’u’lláh e a Nova Era. Rio de Janeiro: Bahá’í do Brasil, 1984, pp. 66-67.

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