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'Abdu'l-Bahá, um legado em prol da unicidade e da justiça

Atualizado: 16 de nov. de 2021

Em homenagem ao Centenário do falecimento de 'Abdu'l-Bahá


‘Abdu’l-Bahá caminhando na Rua Haparsim 7 em Haifa, c. 1919

Por Elena Martín Vahdat e Marcos Alan Ferreira -


O próximo 27 de novembro marcará o centenário do falecimento de uma figura histórica ímpar. Naquela data em 1921 falecera ‘Abdu’l-Bahá, filho do Profeta-Fundador da Fé Bahá’í, Bahá’u’lláh, e considerado uma das três Figuras Centrais desta jovem religião fundada em 1863. Além do seu papel dentro da estrutura administrativa da Fé Bahá’í, este destacado persa teve durante sua vida um forte engajamento na promoção da unicidade e justiça social que até hoje muito nos ensina sobre a promoção do bem comum.


Sua vida pautou-se pela ideia de que “o Oriente e o Ocidente são iluminados pelo mesmo sol”, na qual devemos considerar a “terra um só lar”¹. Neste sentido, a unicidade da humanidade é considerado o princípio fundamental dos ensinamentos da Fé Bahá’í. A visão de que todos os seres humanos pertencem a uma mesma família humana foi o eixo central da vida de ‘Abdu’l-Bahá, considerado o Exemplo Perfeito dos Ensinamentos do Seu Pai. Bahá’u’lláh compara o funcionamento da humanidade ao do corpo humano. Nesta poderosa imagem, pode-se observar como cada órgão, desde o seu nascimento, funciona em cooperação com os outros órgãos para conseguir viver de maneira saudável desde o seu nascimento e ao longo da sua vida. Assim, a troca e apoio mútuo entre todos os membros do corpo humano se torna em um elemento fundamental para que cresça e viva de maneira saudável.


Para atingir este objetivo, a humanidade deve deixar de lado qualquer preconceito existente, seja ele racial, religioso ou de qualquer outra índole. E ‘Abdu’l‑Bahá adiciona: “Há uma fraternidade perfeita subjacente à humanidade, pois todos são servos de um só Deus e pertencem a uma única família protegida pela divina providência.”² O Seu Exemplo de vida inspira qualquer observador a tentar estabelecer uma sociedade mais interdependente e justa, focada no bem-estar comum.


Isto se conecta com outro conceito central defendido nos escritos de ‘Abdu’l-Bahá que é a justiça, colocada por Bahá’u’lláh como “a mais amada de todas as coisas”. Os princípios da justiça são capazes de transformar a consciência emergente da unicidade do gênero humano em vontade coletiva para transformação social. Em outras palavras, a defesa de princípios de justiça social é capaz de superar contradições, desigualdades e unir elementos díspares em sociedades divididas. Mais que nunca, na sociedade atual, exemplos de promoção da justiça se mostram centrais para um reconhecimento maior da unicidade e da importância da transformação social.


‘Abdu’l‑Bahá também nos leva a refletir sobre o papel da mulher na sociedade. Ele afirma que “o mundo humano tem duas asas, por assim dizer: uma é a mulher; a outra o homem. Enquanto estas duas asas não tiverem forças equiparadas, o pássaro não voará.”³ Esta significativa imagem nos ajuda a ponderar novamente sobre a questão da unicidade. Como pode, neste caso o pássaro, atingir o voo se ele não alcançou o desenvolvimento de ambas as asas? Quando mulheres e homens tiverem acesso àqueles direitos e oportunidades fundamentais de forma justa e equitativa, a humanidade poderá desenvolver o seu verdadeiro potencial e contribuir assim para a melhora do mundo.


Foi através de palavras e ações sobre estes conceitos de unicidade e justiça que ‘Abdu’l-Bahá inspirou milhares de pessoas no Oriente Médio, Europa e América do Norte. Um exemplo de seu engajamento direto na promoção da justiça social foi durante a I Guerra Mundial. Ele utilizou terras pertencentes à Comunidade Bahá’í próximo ao Mar da Galiléia e Vale do Jordão para produzir alimentos para a população impactada pelo conflito armado, fornecendo porções de trigo que eram muitas vezes a única saída frente a fome. Anos depois, seu profundo engajamento com a população menos favorecida o levou a ser alçado a Cavaleiro do Império Britânico em 1920, reconhecimento ao seu trabalho humanitário para atenuar a guerra e a fome durante a Primeira Guerra Mundial, particularmente na região onde hoje se localiza Israel e Palestina.


Tal reconhecimento de seu legado naquela região se exemplificou no seu funeral, acompanhado por cerca de 10.000 pessoas de diferentes origens, entre elas autoridades britânicas, turcas, gregas e europeias, além de altas personalidades entre judeus, cristãos e muçulmanos.


Nos dias atuais, em especial no centenário de Seu falecimento, é central retomar o exemplo de ‘Abdu’l-Bahá como fonte de inspiração em um mundo polarizado. Seu exemplo em palavras e ações em prol da unicidade e justiça nos permitem ver para além das limitações impostas por um mundo pautado pelo materialismo e aparências. “Cuidai zelosamente das necessidades da era em que viveis”, aconselhou o Seu Pai, “e concentrai vossas deliberações em suas exigências e seus requisitos.”4 Neste contexto, que busquemos nossa maneira de produzir e dividir o trigo, de inspirar e promover a justiça, não deixando espaço para a desesperança.


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¹ABDU’L-BAHÁ. Palestras de ‘Abdu’l-Bahá em Londres. Mogi Mirim : Editora Bahá’í do Brasil, 2005.

²ABDU’L-BAHÁ. Promulgação da Paz Universal. Mogi Mirim : Editora Bahá’í do Brasil, 2009.

³Ibidem

4BAHÁ’U’LLÁH. Seleção dos Escritos de Bahá’u’lláh. Mogi Mirim : Editora Bahá´í do Brasil, 1999.



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