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'Abdu'l-Bahá: Educação para superação de preconceitos


Abdu'l-Bahá com um grupo de amigos no Brooklyn, Nova York, junho de 1912

Em homenagem ao Centenário do falecimento de 'Abdu'l-Bahá


Por Conceição de Maria Moreira Batista -


“Na estimação de Deus, todos os homens são iguais. Não há distinção ou preferência para qualquer alma no reino de Sua Justiça e equidade. Deus não fez essas divisões. Essas divisões tiveram sua origem no próprio homem. Portanto, sendo contra o plano e propósito de Deus, são falsas e imaginárias”[1]


Desconhecer essa verdade fundamental não permite que a sociedade se liberte do mito arquetípico da escravidão que por séculos está arraigado no inconsciente coletivo das pessoas. As causas dessa permanente condição têm suas raízes em fatores econômicos, socioculturais, históricos, políticos e ideológicos.


Não se considerar como membros da mesma e única família humana levou o homem a pensar que a sociedade é formada por diferentes raças.


Um exemplo, é que, em meados do século XIX, Charles Darwim hierarquizou as diferenças de ordem física das pessoas, e transformou as desigualdades em marca de superioridade para brancos europeus e de inferioridade para os negros africanos. Logo, fica claro que as etnias foram ordenadas de acordo com um sistema de valores discriminatório. Para isso, foram usados mecanismos controladores históricos, intencionalmente montados para conservar tal estado de coisas.


Silvio Almeida apresenta no seu livro “Racismo Estrutural”, no capítulo A Raça na História, que “Raça não é um termo fixo, estático. Seu sentido está inevitavelmente atrelado às circunstancias históricas em que é utilizado. Por trás da palavra “raça” sempre há contingência, conflito, e decisão, de tal sorte que se trata de um conceito relacional e histórico”. No imaginário coletivo foi construído, segundo o mesmo autor, que “A expansão econômica mercantilista e a descoberta do novo mundo forjaram a base material a partir da qual a cultura renascentista iria refletir sobre a unidade e multiplicidade da existência humana. Se antes desse período ser humano relacionava-se ao pertencimento a uma comunidade política ou religiosa, o contexto da expansão comercial burguesa abriu portas para a construção do moderno ideário filosófico que mais tarde transformaria o europeu no homem universal e todos os povos e culturas não condizente com os sistemas culturais europeus em variações menos evoluídas” Tal fato confirma que “essas divisões tiveram suas origens no próprio homem[2]”.


No Brasil, houve o enraizamento dessas ideias racistas formuladas por teses de médicos, juristas, escritores, sociólogos e historiadores. O fato de as religiões não terem proibido a escravatura em seus textos sagrados permitiu que os profissionais que poderiam ser a voz de autoridades contra o que se pode considerar a maior injustiça e opressão, foram os que reforçaram a posição de inferioridade dos escravizados e de seus descendentes.


Sem dúvida, para superar o preconceito racial é necessário descontruir o que por séculos e séculos foi consolidado no imaginário coletivo e por isso, constitui um desafio grandioso. O processo educacional para solucionar o problema depende do esforço tanto de quem pratica quanto da vítima do preconceito.

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‘Abdu’l-Bahá descreve que "...as várias raças da humanidade contribuem ao todo, harmonia em seu conjunto e beleza de cor", e exorta: "Que todos se associem, pois neste grande jardim humano, assim como as flores crescem e se harmonizam, lado a lado, sem discórdia ou dissenção entre elas[3]”.


Dessa forma, muitas almas de corações puros, neste último século, têm sido guiadas pelos eflúvios das palavras de ‘Abdu’l-Bahá: “A diversidade na família humana deveria ser a causa de amor e harmonia, assim como é na música, onde muitas notas diferentes se harmonizam a fim de produzirem um acorde.[4]


Construir no imaginário coletivo a crença de que somos membros de uma única raça, a raça humana requer muito trabalho e paciência. É preciso ensinar gerações e gerações de crianças para ter uma geração de adultos pensando assim.


As palavras de ‘Abdu’l-Bahá dirigida aos brancos, deixa muito claro o que deve ser ensinado às crianças: “É minha esperança que façais com que aquela raça espezinhada se torne gloriosa e seja unida com a raça branca, servindo ao mundo humano com a máxima sinceridade, fidelidade, amor e pureza.[5]


Esse desejo genuíno de Seu coração era demonstrado em diferentes oportunidades. Um fato significativo, ao longo da história da Fé, que serviu e serve até hoje como exemplo do caminho que deve ser seguido para superar o preconceito racial, foi o apoio de ‘Abdu’l-Bahá a Louis Gregory, um afro – americano que abraçou a Fé Baháí. Durante a visita de 'Abdu'l-Bahá a Washington, em 1912, Ele deliberadamente posicionou Gregory ao Seu lado, num almoço formal, em clara objeção às impostas convenções sociais. E foi mais além, abençoou o casamento de Louis Gregory com Louisa Mathew, uma inglesa ariana, sendo o primeiro casamento entre negro e branco da comunidade baháí americana.


No entanto, há muito ainda por fazer. Felizmente da mesma forma que muitos casos de manifestação de preconceito estão sendo expostos, mais possibilidades são apresentadas para falar sobre o assunto, levantar questões, esgotar argumentos e dessa forma ir descontruindo este ideário perverso.


O que ‘Abdu’l-Bahá propõe para superar o preconceito racial é a educação, que permite não somente ver os homens como iguais, fazendo uma analogia com a beleza da harmonia das diferentes flores de um jardim e das diferentes notas musicais da melodia de uma canção, mas e principalmente, também oferece possibilidade de curar a enfermidade da alma de todos os envolvidos na questão.


Este é um esforço que negros e brancos precisam fazer de forma profunda. Shoghi Effendi, Guardião da Fé Bahá'í, reforçou as admoestações de 'Abdu'l-Bahá ao escrever: “Urge um esforço tremendo por ambas as partes”; “Que os brancos façam um esforço supremo, em sua resolução de contribuir com sua parte na solução do problema, para abandonarem, uma vez por todas, seu senso de superioridade…”[6]; “Que os pretos, com um esforço incomensurável da sua parte, mostrem (…) sua disposição para esquecer o passado e apagarem todo traço de suspeita…”[7]


Que dessa forma todos possam se ver como membros de uma única raça: A raça humana.

[1] - ‘Abdu’l-Bahá, citado em O Advento da Justiça Divina (Rio de Janeiro, Editora Bahá’í do Brasil, 1977), p. 58. [2] - ‘Abdu’l-Bahá, citado em O Advento da Justiça Divina (Rio de Janeiro, Editora Bahá’í do Brasil, 1977), p. 58. [3] - IBID. [4] - ‘Abdu’l-Bahá, citado em O Advento da Justiça Divina (Rio de Janeiro, Editora Bahá’í do Brasil, 1977), p. 60. [5] - IBID, P. 61 [6] - Shoghi Effendi, O Advento da Justiça Divina (Rio de Janeiro, Editora Bahá’í do Brasil, 1977), p. 62. [7] - Shoghi Effendi, O Advento da Justiça Divina (Rio de Janeiro, Editora Bahá’í do Brasil, 1977), p. 63.

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