A vitória que desejo na Copa

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A vitória que desejo na Copa

Sam Cyrous*

Desde pequeno as pessoas perguntam para que time irei torcer. Nascido no Uruguai, filho de pais persas, com infância no Brasil e juventude em Portugal e apaixonado por Espanha onde completei a minha formação acadêmica, tenho, no mínimo cinco opções. E ainda hoje essa pergunta constrange-me. Não é porque não seja apreciador do fenômeno futebolístico ou porque todos os times sejam bons ou ruins, mas pelo desconcerto da escolha. É como se perguntassem a uma criança de quem ela mais gosta, se do pai ou da mãe — como é perigosa uma escolha dessas!

Leonardo Boff comparou certa vez o futebol à religião instituída com seus 11 santos que comungam juntos uma bola e a sua casta sacerdotal de coordenadores nacionais, juízes, bandeirinhas, treinadores e, é claro, a presidência da FIFA. É interessante como o espetáculo da bola se confunde com a liturgia e a santidade na natureza superior do ser humano, e isso leva-nos a uma reflexão profunda sobre a nossa verdadeira natureza: torcedores esperançosos em vermos o nosso time vencer.

O Papa Francisco pronunciou-se sobre a Copa do Mundo dizendo que o futebol é uma metáfora para a própria vida, na qual precisamos muito treinar para atingirmos os nossos ideais. Ele ainda diz que “o futebol pode ser uma escola para a construção da cultura do encontro, que permita a paz e a harmonia para os povos”, já que, como diria o Arcebisbo da Cantuária “compartilhamos uma paixão apesar das diferenças”. E que diferenças são estas que superam as fronteiras da língua, cultura e nação?

Em resposta à iniciativa presidencial de convidar os líderes religiosos do mundo a se declararem, neste período de Copa, sobre a promoção da paz e harmonia entre os povos, o Centro Mundial Bahá’í declarou que “nada é tão impactante nesse espetáculo extraordinário do futebol quanto a capacidade de refletir a cultura global que emergiu em nossa época. Ao reunir as nações em espírito de amizade, a Copa indica, de maneira marcante, que a cooperação e a união de esforços são possíveis em todas as áreas.”

Unidos numa civilização global, o mundo tem os olhos postos no Brasil e nas imensas qualidades de nosso povo — um povo que ao longo de cinco séculos demonstra corações abertos, paixão pelo progresso, energia criativa sem limites, grande resiliência, uma força que surge da diversidade e uma paixão pela justiça. “Os povos do mundo são como flores diversificadas em um esplêndido jardim” — diz o Centro Mundial Bahá’í — “Há nação mais capaz do que o Brasil de demonstrar essa simples e essencial verdade? Nas cores vibrantes e mestiças dessa terra, o mundo pode imaginar suas próprias fantásticas possibilidades futuras.”

Sabemos de poucos eventos a escala mundial que consigam celebrar a destreza esportiva ao mesmo tempo unem povos de várias etnias, religiões e culturas. Sabemos também que o caminho para paz exige que não esqueçamos os desafios que confrontam a humanidade. Sabemos como a política e o futebol se misturam; como a economia e a arte da bola no pé estão ligados. Mas temos também visto, nas últimas semanas, espectadores em todos os lugares – em particular os nossos jovens – tentando ver nos jogadores os seus mais elevados exemplos: trabalho em equipe, jogo limpo, coragem e firme empenho, já que, como disse o Rabinato de Israel, “o esporte em equipe tem o poder de inculcar os valores humanos da cooperação e da responsabilidade e nos fazer aceitar êxitos e fracassos com dignidade”.

Para quem torci na Copa? Torci na verdade para que os jovens de todo o mundo aspirem mostrar essas qualidades em suas vidas, no serviço às suas comunidades, e na promoção da paz. Seja para eliminar qualquer traço de racismo e discriminação, seja para defender a igualdade de mulheres e homens, seja, ainda, para promover a justiça. A Federação Espírita disse que a prudência nos pode conduzir com equilíbrio aos necessários processos de mudança necessária, e a Comunidade Bahá’í complementa dizendo que essa “mudança construtiva é possível em qualquer lugar”, já que “homens, mulheres, jovens e crianças – todos têm uma contribuição essencial a dar”.

Assim, a Copa do Mundo de Futebol pode ficar em nossas memórias como a Copa pela paz e contra o racismo, pela integração, diversidade e diálogo. O Arcebispo Grego e Patriarca Ecumênico diz que “há certas manifestações da civilização humana que superam as limitações dos homens. Sempre foram vistas como sinais que transcendem a ordem terrena e se aproximam da esfera divina (…), demonstrando o empenho dos seres humanos de superar sua própria natureza. Nessa perspectiva, o esporte e a competição modernos têm a capacidade de sobrepor-se à discriminação racial e cultural, bem como diferenças econômicas e políticas, ao mesmo tempo em que contribuem para a estabilidade social e a paz global. Em última instância, o esporte genuíno promove a tolerância, o diálogo e a reconciliação entre comunidades e países.”

O que nos distingue uns dos outros são apenas as nossas boas ações e a nossa capacidade de nos compreendermos, como nos recorda o Xeque de Al-Azhar. “A Copa do Mundo no Brasil é uma oportunidade para que os povos de todo o mundo se encontrem, reconhecendo nossas diferenças, e, ao mesmo tempo, celebrando a multiplicidade da criação de Deus” (afirma a Aliança Evangélica Mundial), “lutando contra qualquer tipo de discriminação e preconceito, seja nos esportes, nas escolas ou em quaisquer outras esferas da sociedade” (diz a representante do Candomblé).

Além da beleza dos gols em campo, qualquer que seja o time, torço que a partida tenha “como meta o gol que toda a humanidade anseia — a paz mundial”, como sonha a Soka Gakkai Internacional.

Acho que podemos dizer que todos torcemos por uma era na qual a rivalidade entre as nações se limitará ao domínio do esporte, enquanto “as interações globais serão caracterizadas por cooperação, reciprocidade e apoio mútuo” (Centro Mundial Bahá’í).

E então, quando alguém me perguntar para que time eu gritei e bradei e para que time o farei novamente no futuro… quando me perguntarem irei recordar, com um sorriso vitorioso, as palavras de Bahá’u’lláh, o fundador da Fé Bahá’í: “Bem-aventurado e feliz é aquele que se levanta para promover os melhores interesses dos povos e raças da terra. (…) Que não se vanglorie quem ama seu próprio país, mas sim, quem ama o mundo inteiro. A terra é apenas um país, e o gênero humano, seus cidadãos.”

Para quem sempre torcerei? Por que não para a beleza do esporte que une todas as religiões e povos do mundo, já que “A terra é apenas um país, e o gênero humano, seus cidadãos”?


 

Psicólogo, Docente de Ensino Superior e membro do Conselho Estadual de Direitos Humanos de Goiás

 

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