Perguntem aos Iranianos sobre seus Cidadãos Bahá’ís

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Perguntem aos Iranianos sobre seus Cidadãos Bahá’ís

por Marziar Bahari*

O governo iraniano tem uma escolha a fazer quando o Presidente Hassan Rouhani visitar Nova Iorque este mês: ele pode permanecer num regime retrógrado conduzido por clérigos fundamentalistas ou pode se tornar um membro legítimo da comunidade mundial. Minha previsão é que o Presidente Rouhani tentará apresentar uma imagem mais racional de seu governo em seu discurso de 28 de setembro, quando se dirigirá aos 193 países da Assembleia Geral das Nações Unidas e nas reuniões individuais com lideranças mundiais. Ele destacará a assinatura do acordo nuclear com os Estados Unidos e outras potências mundiais como prova de que o governo iraniano é moderno e pacífico. Mas ele e seus diplomatas também vão mentir sobreas atrocidades que cometem contra o seu próprio povo.

A melhor maneira de testar a disposição do governo iraniano de iniciar um novo capítulo em sua relação com o resto do mundo é questioná-los acerca do tratamento dispensado aos 300.000 bahá’ís iranianos, a maior minoria religiosa do país. Os bahá’ís são o grupo de iranianos mais perseguido desde a Revolução Islâmica de 1979. Como tal, eles devem ser vistos como um barômetro das políticas domésticas e internacionais do governo. Cada vez que uma facção mais liberal chegou ao poder  — como quando Mohammad Khatami, um clérigo moderado, foi eleito presidente em 1997 — e tentou dar mais liberdade aos iranianos e reparar suas relações internacionais, os bahá’ís gozaram de um relativo alívio da perseguição. Mas nos momentos em que o governo cerceou liberdades civis e tornou-se hostil a outros países, como o que ocorreu após a eleição manipulada em 2009, as primeiras vítimas da subsequente repressão foram os bahá’ís.

A Fé Bahá’í teve início no século 19 e suas crenças fundamentais são a não violência, a educação universal e a igualdade. Os bahá’ís acreditam que seu profeta, Bahá’u’lláh, é o mais recente profeta de Deus. Desde a fundação da religião no Irã, os bahá’ís tem sido perseguidos por alguns muçulmanos xiitas que os chamam de hereges e corruptores na terra  — crimes que no Islã são puníveis com a morte. Os clérigos se opõem a duas crenças bahá’ís em especial: a igualdade entre homens e mulheres e a ideia de que o clero não é necessário para a obtenção de guia espiritual. Essas crenças ameaçam o sistema patriarcal do clero e a sua subsistência. No século 19, os bahá’ís eram acorrentados e exibidos nas ruas de cidades iranianas, e suas casas eram incendiadas.

O governo do Irã tem perseguido os bahá’ís de maneira mais sistemática desde que os clérigos chegaram ao poder após a revolução de 1979. Centenas foram sequestrados ou assassinados no início da década de 1980. Os bahá’ís são impedidos de ensinar e estudar nas universidades. Eles não podem ser legalmente empregados, e seus negócios, cemitérios e locais de adoração são regularmente saqueados pela milícia apoiada pelos agentes do governo.

Após um clamor internacional, liderado principalmente pelos Estados Unidos, contra os assassinatos dos anos de 1980, o Líder Supremo do Irã, Aiatolá Ali Khamenei, ordenou que os bahá’ís fossem “tolerados” como cidadãos, mas que tivessem seus direitos básicos negados. Em 2012, ele divulgou um fatwa contra os bahá’ís, chamando-os de “infiéis” e “impuros”. Ele insistiu que os muçulmanos “não deveriam tocar a comida ou outros itens pertencentes a bahá’ís que poderiam contaminar os muçulmanos.”

Centenas de prisioneiros de consciência  (incluindo dezenas de bahá’ís)  estão presos injustamente na abominável Prisão de Evin, em Teerã. Ninguém espera que os bahá’ís ganhem direitos iguais do dia para a noite ( durante a visita do Presidente Rouhani às Nações Unidas)  mas o primeiro passo do governo iraniano a fim de demonstrar sinais reais de mudança é começar a falar sobre a continuada perseguição dos 300.000 bahá’ís. Quando as autoridades iranianas são questionadas acerca dos motivos ad perseguição contra os bahá’ís, eles simplesmente não dizem a verdade. Eles alegam que os bahá’ís não sofrem discriminação, e que aqueles bahá’ís que foram mortos ou aprisionados no Irã foram sujeitos a punições severas por terem cometido outros crimes, principalmente espionagem, e não por causa de sua fé. O governo iraniano nunca produziu qualquer evidência que provasse que os bahá’ís seriam espiões de qualquer país. Você pode ter certeza de que, se o regime islâmico tivesse a menor prova contra os bahá’ís, teria disseminado isso por todo o seu aparato de mídia.

Em conversas recentes, como a que tive antes de escrever esse artigo, autoridades iranianas pró- Rouhani alegaram que não concordam com o tratamento dispensado aos bahá’ís. “Que Deus seja minha testemunha, se o Sr. Rouhani tivesse poder, ele teria acabado com toda a discriminação contra os bahá’ís”, disse-me um amigo servidor do ministério de relações exteriores do Irã em uma conversa por Skype. “Mas não é o momento certo para se levantar a questão bahá’í. Estamos tentando convencer nossos próprios radicais de que esse acordo nuclear é uma oportunidade para melhorar as relações com outros países, ter uma economia melhor e prover o básico para nosso povo. Temos outras prioridades mais importantes que os bahá’ís neste momento. Precisamos falar sobre eles e sobre outros problemas quando a situação estiver mais calma no Irã e na região”.

Então eu interrompi o meu amigo antes que ele continuasse. “Você quer dizer, então, não nesta vida?”, perguntei.Meu amigo desligou na minha cara. Mas os reformistas iranianos tem repetido essa afirmação há vinte anos. Eles têm tentado fazer do Irã um país mais inclusive, mas não conseguem encontrar coragem para enfrentar o fanatismo religioso  — a principal razão por detrás dos problemas que afligem o Irã desde a revolução de 1979.

O Presidente Rouhani tem agora a chance, numa plataforma global, de melhorar a relação com o resto do mundo e com seu próprio povo. Já é hora de ele e seu governo começarem a explicar por que eles tem perseguido os bahá’ís sistematicamente há quase quarenta anos. Esperar uma mudança essencial de parte das autoridades iranianas não é realista – mas se eles dissessem a verdade sobre o sofrimento dos 300.000 bahá’ís iranianos, isso levaria a um diálogo construtivo que poderia apontar o caminho para uma verdadeira mudança.

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* “Ask the Iranians about their Baha’i Citizens”, livre tradução.

 

* Maziar Bahari é o fundador da campanha notacrime.me/Iran pela liberdade de expressão e igualdade na educação no Irã. O Arcebispo Desmond Tutu e a Dra. Shirin Ebadi — ambos agraciados com o Prêmio Nobel da Paz  — são dois dos principais apoiadores da campanha. Este ano, a campanha está criando murais de grafite por todo o mundo (começando pela cidade de Nova Iorque em preparação à Assembleia Geral das Nações Unidas) para chamar atenção à crise de direitos humanos do Irã. No Brasil, os artistas Carão Fernandes (PR), Marcelo Melo e Gustavo Amaral (RJ) produziram obras para a campanha em Londrina e Rio de Janeiro, respectivamente.

 

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