Uma Revolução Espiritual

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Uma Revolução Espiritual

O mítico “Imagine” de John Lennon, da sua discografia a solo de outubro de 1971, propõe-nos a todos um desafio: imaginarmos um mundo perfeito sem países ou religiões, sem motivos para matar ou morrer, sem ganância ou fome, numa fraternidade de pessoas compartilhando um mundo. E se no mesmo mês de outubro, mas século e meio antes, alguém já tivesse estabelecido as condições para conseguirmos algo melhor que isso?

A 20 de outubro de 1819 nascia, na cidade persa de Shiráz, Siyyid ‘Ali-Muhammad, posteriormente intitulado de O Báb (“A Porta”), um Ser que permitia o cruzar dos mundos do Oriente das filosofias transcendentais ao Ocidente da tecnologia, que unia o passado ao futuro, o que a Terra era até então e o que ela poderia vir a ser.

A música de Lennon convida-nos a imaginar um mundo sem religiões, mas, e se, ao invés, compreendêssemos a Religião como uma só Verdade una e universal, que se manifesta em eras diferentes trazendo ensinamentos que permitam a evolução humana de um estágio para o seguinte, sem romper com o princípio básico de Amor? E se imaginarmos que a Religião é Divina em sua essência e que nós humanos criamos conflitos por querermos impor nossos entendimentos sobre os outros?

Esse era o mundo concebido pel’O Báb, o precursor e arauto da Fé Bahá’í.

O Báb manifestou-Se numa época na qual muçulmanos esperavam o Imám Oculto, uma Figura que prepararia o mundo para o regresso de Jesus, o Espírito puro de Deus, enquanto cristãos calculavam e previam o regresso de Cristo (Swedenborg, Miller ou Smith são alguns dos exemplos).

Assim como a luz do sol que passa pelas nuvens físicas que o obscurecem, O Báb fez brilhar significados ocultos entesourados por entre o sentido literal da Bíblia. Concebeu, por exemplo, um mundo sem paraíso e sem inferno, porque o céu é a perfeição e a harmonia com a vontade de Deus e com os demais, enquanto inferno seria a ausência de tudo isso. Em meio a uma sociedade fanática, ensinava que o céu é o resultado das alegrias espirituais que sentimos em vida, e o inferno a privação dessas bençãos.

Como Cristo, o Báb teve seus primeiros seguidores, os bábís, inicialmente 18 em número, que espalharam a Sua palavra. “Uma das mais interessantes conquistas do Babismo [a religião fundada pel’O Báb] é a elevação da condição da mulher… O próprio Báb tinha uma mulher como discípulo, que tendo compartilhado todos os perigos das primeiras missões apostólicas, desafiou e morreu com coragem viril, como uma mártir.”, afirmou Sir Chirol, um dos editores da The Time, escrevendo ainda que a “nova dispensação deve ser lembrada como a continuação e o cumprimento das prévias dispensações Mosaica, Cristã e Muçulmana. Os judeus não esperam ainda o Prometido Messias, os cristãos a segunda vinda de Cristo e os muçulmanos pelo aparecimento do Mihdí? O Babismo é a manifestação que todos eles estão esperando…” Por isso que é apenas natural que E. G. Brown, proeminente orientólogo da época, dissesse que um babí era sempre reconhecido por sua conversação significativa: sempre que a oportunidade surgisse demonstraria de alguma forma “a sua crença na evolução da raça humana”.

A unidade das religiões, a existência de um só Deus, a igualdade entre homens e mulheres, o respeito e o amor ao próximo, e a emblemática frase “a Terra é um só país, e os seres humanos seus cidadãos” são o resultado de Seu pensamento. Não é esse o imaginário do sonhadores que cantam aquela Imagine da década de 1970?

Quem sabe mais que sonhadores, necessitemos de revolucionários capazes de se fazerem agentes de transformação social. Mas não revolucionários de armas ou espada, mas aqueles santos e nobres revolucionários que deram a sua vida em sacrifício para defenderem a Verdade que Deus é um pai bondoso, nos três primeiros séculos da Era Cristã.

Da mesma forma que os discípulos de Cristo, degolados publicamente por leões, os bábís converteram-se em “um dos mais magnificentes exemplos de coragem que a humanidade tem testemunhado e é também uma admirável prova do amor nutrido por nosso herói por seus semelhantes. Ele [O Báb] sacrificou-se pela humanidade, deu seu corpo e sua alma, sofreu provações, insultos, indignidades, tortura e martírio. Ele selou com seu sangue o pacto da fraternidade universal e como Jesus, deu sua vida como o arauto do reino da concórdia, justiça e amor por seu próximo”, afirmou o diplomata A. L. M. Nicolas.

Mais do que um revolucionário de guerras, O Báb foi o revolucionário espiritual da paz, e, talvez por isso ficou o autor português Eça de Queiróz tão encantado com Ele: “Calado, invadido pelo pensamento do Báb revolvia comigo o confuso desejo de me aventurar nessa campanha espiritual… Por que não? Tinha a mocidade, tinha o entusiasmo… Via-me discípulo do Báb… E partia logo a pregar, a espalhar o verbo babista (…) certamente, levando de preferência a salvação às almas que me eram mais caras”.

E para o seguidor do Báb, assim como para os bahá’ís, a salvação não é pessoal, mas universal. Não se trata de individualmente salvarmos nossas almas e reservarmos um espaço no ‘Outro Mundo!’ Queiróz percebeu que a salvação é com todas as almas.

Por isso, cabe a nós usarmos o momento no qual vivemos, o momento de mocidade da raça humana, para que possa emergir a plenitude da nossa espécie ao serviço da sociedade. No tempo de Jesus as promessas foram estabelecidas e por dois milênios trabalhamos para que “venha a nós o Vosso Reino”, hoje, no tempo d’O Báb somos chamados a cumprir o prometido — é a era da realização.

Nesse contexto, a Fé Bahá’í convida toda alma ansiosa por melhorar as condições materiais e espirituais à sua volta a iniciar o processo de transformação coletiva. As atividades que impulsionam o processo são reuniões que fortalecem o caráter devocional da comunidade, aulas que nutrem as mentes e corações das crianças, grupos que – com material transcultural – canalizam a energia vibrante dos pré-jovens e círculos de estudos que permitem pessoas das mais diversas origens avançarem em pé de igualdade e explorarem juntas a aplicação de ensinamentos éticos e espirituais em suas vidas individuais e coletivas.

Mais do que cantarolarmos em inglês o nosso imagine de um mundo melhor, com a visão instaurada pel’O Báb podemos realmente trazer à existência o último verso da música: “um mundo que será como um”.

*Sam Cyrous é psicólogo, terapeuta e consultor de direitos humanos, cultura de paz e igualdade racial.

 

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