UM TRIBUTO À MEMÓRIA DE
AMATU'L-BAHÁ
RÚHÍYYIH KHANUM


 

Amor pelos povos indígenas


 

Em uma linguagem clara,  Amatu’l-Bahá Ruhíyyih Khanum, escreveu uma carta em 16 de março de 1969, da qual transcrevemos os seguintes excertos:
 
Meus irmãos e irmãs a quem amo de maneira especial,

            Durante estes dias... meus pensamentos se dirigem com especiais intensidade a todos vocês. Eu me lembro da minha visita, há alguns anos atrás, aos Navajos e aos Hopies, nos Estados Unidos, e aos índios Blackfoot, no Canadá, os quais me deram o lindo nome indígena Natu-Okcist, que significa Mãe Abençoada e, no ano passado, ao Chaco, aos amigos Guamis e Kunas no Panamá, aos povos Aymara e Quechua na Bolívia, Peru e Equador, aos irmãos e irmãs Mapuche no Chile, aos povos amigos Mataco na Argentina, ao grupo de crentes Macá no Paraguai, aos inúmeros irmãos e irmãs  entre os Guajiras, na Venezuela e Colômbia e aos meus queridos amigos Motelones nas montanhas perto de Valedupar, Colômbia, e não posso descrever o quanto desejo estar de novo com vocês, tão vivo o sentimento de que somos verdadeiros irmãos e irmãs.
            Meus amigos, como lhes fazer conhecer as generosidades de Deus, o Todo-Poderoso, que estão sendo derramadas sobre seu povo neste dia? E vocês me perguntam: que povo? Nós, os Mapuches ou nós, os Kunas? A resposta é uma resposta maravilhosa: o mundo está dividido em duas partes,  duas metades; em uma destas metades que se estende entre dois mares viveram povos indígenas e esquimós por milhares de anos sem fim - esta metade era sua terra natal.
            Esta terra natal compreende uma distância tão vasta que um homem levaria pelo menos dois anos para caminhar de um extremo a outro, se  ele pudesse caminhar todos os dias sem interrupção - mas já que há tantas montanhas, rios e desertos no meio, isto levaria  mais de dez anos! Todas as suas tribos e muitas centenas mais, não mencionei aqui porque  não tive ainda a felicidade de visitá-los, são um grande povo, o povo indígena do continente americano; o povo esquimó do extremo norte é um povo-primo diferente, porém também pertence ao que o homem branco chama de o Novo Mundo, isto porque centenas de anos atrás, quando ele chegou de sua pátria e atravessou os mares até a terra natal de vocês, era para ele um Novo Mundo mas para vocês,  naturalmente, era um velho mundo, a sua própria terra. Como vocês bem sabem, nós homem não somos sempre bondosos uns para com os outros, nós não nos amamos como irmãos bahá’ís, lutamos uns contra os outros e nos apossamos da terra, lares, zonas de caça uns do outros, desde tempos imemo-riais.
            Quando o homem branco pisou na metade do mundo indígena há centenas de anos atrás, ele lutou e venceu o índio. Isto vocês todos sabem. Mas não foi uma boa o que ele fez pis agiu como agiram os homens no passado, tirando tudo o que queriam dos povos que eram diferentes  porque ele era o mais forte.
            A razão pela qual ele era mais forte, não foi porque seu caráter era mais nobre ou melhor, mas sim porque suas  armas eram mais novas e melhores e ele possuía a pólvora, que era desconhecida do índio. Isto é uma história muito comprida e nós não podemos nos alongar aqui...
Quero lhes dizer que estou certa de que virá o dia quando o índio estudará e conhecerá a história de seu próprio povo; o homem branco já vem estudando há mais de quatrocentos anos a história dos índios e quanto mais estuda mais admira vocês.
            Vocês são uma raça grandiosa; seu povo no Novo Mundo, antes da chegada do homens branco, levantou grandes cidades e templos lindos. Vocês fizeram com suas próprias mãos estátuas maravilhosas e vasos de cerâmica, de ouro e de prata, jóias, assim como vestidos e arranjos para cabelos, feitos de contas e pemas, tecidos de lã e de outros materiais. Tão lindos foram os ornamentos que vocês fizeram destes materiais que o homem branco colecionou-os em casas especiais onde milhares de pessoas pagam para entrar e os estudantes são conduzidos lá para admirá-los. Outras pessoas no mundo estão estudando cada vez mais a história indígena, descobrindo cidades e templos antigos escondidos nasselvas, nas montanhas e nas planícies, desenterrando-os para que as pessoas possam visitá-las e se maravilharem com a grandeza da obra dos índios.
            Vocês nunca devem se sentir inferiores, um povo sem conhecimentos, meus amigos, cada um de nós tem cinco dedos na mão. Sabemos que necessitamos de cada um de nossos dedos. Neste mundo há homens de pele vermelha, preta, branca, morena e amarela ( como costumamos  chamar em nosso idioma) que São como os dedos de uma mão; cada um é necessário, cada um faz parte de nossa mão. Como seria prejudicado nosso trabalho se perdêssemos um dedo! Somos como os filhos de um só pai que colocou seus filhos em casas diferentes e em todas as partes do mundo...
            Vocês, homens de pele vermelha, índios e esquimós do “Novo Mundo”, são alguns destes filhos e a voz de Deus lhes chama para participar de Seu próprio quinhão neste momento. Isto não é uma pequena coisa, esta é a maior coisa que aconteceu a vocês, isto está a brilhar sobre vocês como o sol num céu de meio-dia, portanto não fiquem cegos diante desta luz abençoada...
            Meus amigos, observem o mundo que os rodeia! É certo que existem muitas coisas grandes que o homem branco criou e muito disto é bom, porém observem também tudo o que ele criou de mau. Que tal suas guerras terríveis, sua crueldade, sua má conduta, suas mentiras e enganos, imoralidade e falta de vergonha - porém lê e escreve muito bem!
            Nós devemos nos dar conta de que ser uma pessoa nobre,um homem bom ou uma mulher boa, não mentir, não roubar, não ser cruel é mais importante do que saber ler e escrever. E entristece-me ter que confessar que nas cidades do homem branco, com todo o seu dinheiro e educação, sua conduta é muito pior do que a conduta de meus irmãos e irmãs índios das aldeias, que são pobres mas crêem em Deus, que são analfabetos mas ainda crêem que o homem tem uma alma que continua depois da morte e cujo padrão de moral é mais elevado do que aquele do povo das cidades.
            Portanto, amigos, eu lhes suplico que nunca se sintam enver- gonhados de vocês mesmos. Deus os criou de um grande povo... e os chama para enfrentar o grande destino que Ele preparou para vocês neste dia.
            Meditem sobre estas palavras maravilhosas de Bahá’u’lláh que promete a cada um de nós... uma felicidade e alegria eternas: “Ó Meus Servos! Não vos entristeçais se nestes dias e neste plano terreno coisas contrárias a vossos desejos foram ordenadas e manifestadas por Deus, pois dias de extrema alegria, de deleite celestial seguramente vos esperam. Mundos santos e espiritualmente gloriosos serão desvendados ante vossos olhos.”
            Envio a vocês meu amor profundo. Vocês estão sempre em meu pensamento e em meu coração, meus queridos  irmãos e irmãs.

                                                                                           Ruhíyyíh