UM TRIBUTO À MEMÓRIA DE
AMATU'L-BAHÁ
RÚHÍYYIH KHANUM

 
  São Paulo



21 de agosto de 1996, quarta-feira, 19h15m - Bahá’ís de São Paulo recepcionam Ruhíyyih Khanum e sua comitiva no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos.

22 de agosto, quinta-feira, 20h30m - Às 9 horas a manhã tem início no edifício-sede do Parlamento Latino-Americano (Parlatino) a “Primeira Conferência sobre Cidadania Mundial: a Prática da Unidade na Diversidade - I ENLACI. Este foi o primeiro evento organizado pelo Instituto Para a Cidadania Mundial - ICIM, uma O.N.G. recentemente formada em São Paulo e que tem dentre seus sócios-fundadores a Assembléia Espiritual Local dos Bahá’ís de São Paulo, a AIESEC/Brasil e indivíduos.

O I ENLACI teve como objetivo reunir formadores de opinião, professores, estudantes, ONGs e indivíduos em geral que já estão envolvidos com os ideais da cidadania mundial, deste modo unindo esforços e recursos para melhor servir à humanidade.

22 de agosto, quinta-feira, 20h30m - Na noite deste dia, no Parlatino, integrando a programação oficial do I ENLACI, ocorreu a cerimônia de entrega do II Prêmio de Cidadania Mundial, oferecido pela Assembléia Espiritual Nacional do Brasil a dezesseis mulheres proeminentes da sociedade brasileira, representando diferentes raças e classes sociais, incluindo uma renomada escritora, uma artista plástica conhecida em todo país por seus esforços na área de direitos humanos, uma cantora muito popular, uma jornalista que trabalha em uma revista brasileira com tiragem semanal, uma repórter da Globo Network, uma educadora ambiental, uma Senadora da República, uma bailarina clássica mundialmente conhecida, uma membro do Conselho Federal de Mulheres (uma agência governamental), uma advogada e diretora da Associação  Bar Brasileira muito ativa nas atividades de direitos humanos, duas famosas membros de ONGs muito ativas em defesa dos  direitos das mulheres, uma bahá’í bastante conhecida por suas atividades na promoção de mulheres e uma famosa diretora de cinema e... ...três Organizações Não-Governamentais: uma organização ativa em defesa dos direitos dos indígenas e educação de mulheres indígenas, uma comunidade de movimento de mulheres e por fim, uma entidade ativa em proteção de áreas de meio-ambiente.

23 de agosto, sexta-feira - O ponto alto do evento foi o tributo prestado à Mão da Causa de Deus, Amatu’l-Bahá Ruhiyyih Khanum, apresentada como sendo um exemplo vivo de  cidadania mundial. Um vídeo sobre sua vida deu início a sessão da tarde, seguido por uma breve palestra de Ruhíyyih Khanum. Tanto o vídeo quanto a palestra foram transmitidos, via satélite, a uma audiência potencial de pelo menos 3,5 milhões de pessoas possuidoras de antenas parabólicas e a 800.000 assinantes de TV a cabo do Brasil.

Os principais palestrantes da Conferência foram os Ministros Federais de Estado da Cultura e Administração, Francisco Weffort e Bresser Pereira, Deputados Federais Eduardo Jorge e Luiz Gushiken, dois Secretários de Estado de São Paulo (para Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento e para Crianças, Família e Bem-Estar Social), o renomado pensador Dr. Ervin Laszlo que apresentou o tema “Transição para uma Sociedade Global e o Espírito da Cidadania Mundial”, o diretor da Universidade de Núr (Bolívia), Dr. Elói Anelo, o Presidente da Comunidade Judáica de São Paulo, rabino Henri Sobel, o Presidente da Fundação Cidade da Paz, filósofo Pierre Weil e também o Presidente do Instituto de Estudos Futurísticos, Dr. Ubiratan D’Ambrosio; o Deputado Federal Eduardo Jorge; a Secretária da Criança, Família e Bem-estar Social Sra. Maria Terezinha Godinho; o  Secretário da Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Económico Sr. Emerson  Kapaz; o Presidente da Fundação Padre  Anchieta, Sr. Jorge da Cunha Lima e o Diretor Mundial do PNUD Sr. Joseph  Ben-Dak.

Uma comissão foi formada por cerca de 30 participantes para elaborar a “Declaração de Cidadania Mundial” a ser entregue aos Chefes de Estados Americanos durante a Cúpula do Desenvolvimento Sustentável a ser realizada no final deste ano em Santa Cruz, Bolívia. A seguir, o inteiro teor da Declaração da Cidadania Mundial:

                “Nós, os participantes do I Encontro Latino-americano para a  Cidadania Mundial, (I ENLACI), reunidos na Sede Permanente do Parlamento Latino-america- no, na cidade de São Paulo, Brasil, nos dias 22 e 23 de  agosto de 1996

               1. Constatamos
               que nós, seres humanos, de qualquer origem, etnia, cultura, classe, religião ou nacionalidade pertencemos a uma única e mesma Espécie Humana,  habitamos num mesmo planeta e compartilhamos um mesmo destino nesse lar planetário;
               Portanto, reconhecemos que todo e qualquer ser humano tem plenos e iguais direitos de desenvolver todos os seus potenciais físicos, intelectuais e  espirituais, bem como responsável pelos mesmos deveres de serviço à humanidade em direção ao nosso destino comum.

               2. Constatamos
               que os problemas que hoje mais afetam a humanidade, como o  materialis- mo, a degradação ambiental, as guerras, a pobreza, as migrações,  os conflitos religiosos, étnicos e económicos, o terrorismo, as epidemias,  as drogas e a corrupção, possuem uma escala global;
               Portanto, reconhecemos a necessidade de se buscarem as soluções adequadas também em um nível supranacional, de tal forma que os interesses e benefícios da humanidade inteira estejam acima dos interesses e benefícios  de qualquer nação em particular.

               3. Constatamos
               que o fenômeno da globalização é um irreversível fruto do avanço das tecnologias dos transportes, comunicação e informática, e que  representa uma força integradora não apenas no nível económico, mas também  cultural, político e social;
               Portanto, estamos convictos de que as diferentes nações e povos necessitam  enfrentar corajosamente o desafio de uma interdependência cada vez maior, onde não mais pode haver lugar para o nacionalismo desenfreado e a guerra,  mas sim onde as relações de cooperação e de complementaridade precisam suplantar as posturas de dominação, de isolacionismo e agressão.

               4. Constatamos
               que a humanidade tem passado por um gigantesco processo coletivo de  evolução da unidade social e jurídica, passando pelos estágios de clã,  tribo, cidade-estado e estado nacional, e que cada avanço a um estágio mais  abrangente de unidade social foi capaz de eliminar a guerra entre as partes menores antes beligerantes;
               Portanto, acreditamos que a guerra possa ser definitivamente banida da  experiência humana através de uma mudança profunda no indivíduo e na  sociedade, e que o tempo é chegado para a implementação de uma lei comum  planetária e da constituição de um poder legislativo legítimo e  representativo de todos os povos e nações que garantam a paz internacional,  a justiça e a defesa de todos os direitos reconhecidos na Declaração  Universal dos Direitos Humanos e demais Convenções Internacionais.

               5. Constatamos
               que a mera integração económica entre todos os povos e nações não  pode conduzir a uma condição de paz duradoura e de justiça mundial, uma vez que tal integração se dê de forma excludente e dominadora, sem qualquer controle efetivo por parte dos integrantes menos desenvolvidos da  comunidade de nações no sentido de poderem defender seus interesses  legítimos;
                Portanto, verificamos ser urgente a implantação de uma nova ordem económica  mundial, onde o desequilíbrio provocado pela competição nacional ou  regional desenfreada seja substituída por relações de complementaridade e pela ordenação das relações comerciais e financeiras internacionais segundo normas de justiça e eqüidade.

               6. Constatamos
               que a intolerância, o racismo, o fundamentalismo religioso e a  violência que promovem a guerra e o conflito entre diferentes povos e nações se alimentam da ignorância, do ódio e do radicalismo;
               Portanto, temos a convicção de que tais forças desintegradoras não podem  ser combatidas com meras determinações jurídicas ou políticas e que a ordem mundial depende da criação de uma consciência inabalável da unidade da humanidade, que precisa ser promovida através de todos os processos educacionais à disposição dos povos da terra.

               7. Constatamos
               que as barreiras das línguas são um dos maiores obstáculos para a integração e a concórdia entre todos os povos;
               Portanto, propomos que uma língua internacional auxiliar seja adotada ou  criada, cujo ensino seja obrigatório em todas as escolas do mundo,  permitindo assim a efetiva criação de laços de fraternidade e entendimento  entre todos os povos.

               8. Constatamos
               que a diversidade étnica, social, cultural e religiosa, longe de  ser um empecilho para a integração e a paz, são elementos que enriquecem a  experiência coletiva da humanidade e cuja supresso representaria uma grave  perda para toda a raça humana;
               Portanto, cremos que a diversidade humana  to sagrada quanto sua unidade  e que o lema básico da paz mundial  UNIDADE NA DIVERSIDADE.

               9. Constatamos
               que todos os arranjos de estruturas sociais e governamentais que o  engenho humano foi capaz de criar têm o fim único de garantir a  estabilidade, a paz e a prosperidade dos povos e que o atual sistema de estados-nação totalmente soberanos  apenas um arranjo a mais que evoluiu  ao longo da história humana, mas que no mais atende aos melhores  interesses coletivos de paz e segurança de todos os povos;
               Portanto, propomos que a melhor forma de organização político-social para o  mundo contemporâneo  a união de todos os estados nacionais em algum tipo  de federação mundial, onde a representação igualitária de todos os povos e  governos seja claramente garantida, evitando-se qualquer tipo de  centralização excessiva, mas no qual se impeça definitivamente o direito de  qualquer dos estados federados de fazer a guerra.

               10. Constatamos
               que todos nós, seres humanos, aspiramos aos mesmos valores eternos  de amor, justiça, liberdade, fraternidade e paz; e que tais elevados ideais  e tais necessárias mudanças na estrutura da própria civilização  contemporânea no podem ser meramente alicerçados em fundamentos  utilitaristas e pragmáticos;
               Portanto, cultivamos o amor fraterno por cada um e todos, indivíduos e  povos, que buscam, na diversidade de caminhos, os mesmos objetivos  supremos. Cremos que  essencial educar as novas gerações para resgatar os  valores espirituais fundamentais que sempre foram a verdadeira mensagem de todas as tradições espirituais do mundo, promovendo-se a unidade de todos  os homens como filhos de  um mesmo e único Criador Universal.

               Assim, expressamos com todo o ardor de nossos corações a urgente necessidade da constituição e da defesa da cidadania mundial como maior e  único instrumento para se conquistar aquela paz, segurança e prosperidade  que sejam dignas de serem herdadas pelas gerações que nos sucederão, e conclamamos os      líderes mundiais a ponderar sobre seus requisitos e tomarem ações imediatas e concretas para sua implementação. Certamente a História de milénios futuros haverá de louvar os nomes daqueles que assim se colocarem a serviço da paz perpétua.”