A revisão da religião, como fenômeno
que a luz do processo histórico empreendeu
o desenvolvimento e superação do homem no plano de suas
concepções diante da vida e na organização
das sociedades, torna-se perfeitamente justificável.
O que parece-nos razoável diante dos trabalhos sobre o assunto,
está sob o prisma de interpretação da realidade
religiosa, que em várias épocas e em vários ambientes
culturais os diversos pesquisadores do tema anunciaram
relações ou mesmo admitiram possíveis conexões
entre as diversas religiões reveladas ao mundo.
Não se trata aqui de escrever mais um ensaio de religiões
comparadas tentando na medida do possível buscar
no método empregado a objetividade e a neutralidade.
Desejamos sim, desenvolver as relações
entre as religiões sob a base da revelação
de Bahá’u’lláh.
O que diagnosticamos no cerne das sociedades humanas é a
presença da religião com fenômeno de caráter
totalizante.
A opção pôr uma fenomenologia da Religião explica-se
pela adaptabilidade do método na não
construção de uma argumentação
hierarquizante entre os diversos fenômenos possibilitando
a busca profunda das realidades.
A Fenomenologia da Religião emprega base teórico-metodológica
de HUSSERL (1859-1938), filósofo alemão.
Ele afirma que os fenômenos devem ser apreendidos na
medida em que são vivenciados pela consciência intuitiva.
A metodologia neste caso não baseia-se exclusivamente no
empirismo mas buscaria as essências das quais os fenômenos
não seriam apenas meras aparências e sim eles
próprios em sua totalidade. Ou seja, a fenomenologia
preocupa-se com o ser enquanto ser a revelia ao modo
pelo qual se manifesta, buscando assim as essências
absolutas de tudo o que existe.
Este fenômeno porém, não pode ser compreendido na
escala pura e simples das ciências humanas,
embora a utilização de suas concepções
sejam significativas. Seria oportuno admitir que
toda e qualquer análise que façamos do fenômeno
religioso só será devidamente abrangente se
também o considerarmos sob os seus próprios
padrões de análise. Ou seja, estudar
a Religião pôr ela mesma.
Como comenta ELIADE (1970):
...um fenômeno religioso somente se revelará como tal com
a condição de ser apreendido dentro
da sua própria realidade, isto é, de
ser estudado à escala religiosa. Querer delimitar este fenômeno
pela fisiologia, pela psicologia, pela sociologia e pela ciência
econômica, pela lingüística e pela arte, etc... é
traí-lo, é deixar escapar precisamente
aquilo que nele existe de único e irredutível,
ou seja, o seu caráter sagrado. (Trat. Hist. Rel. p. 17)
O conhecimento do fenômeno da religião torna-se inteligível
na medida em que o analisamos no plano do sagrado.
Contudo, o problema da análise não é apenas de escala,
mas também os ditames da ciência e do método.
Acreditamos que uma visão holística do conhecimento seja
necessária a fim de não corrermos o risco do reducionismo.
Ao propormos a totalidade do fenômeno religioso tentamos demonstrar
a
necessidade de rompermos as barreiras da compartimentação
da ciência de raízes positivistas.
Quando procuramos uma teoria do fenômeno religioso baseada nos enunciados
bahá’ís, nos deparamos com a formação e o
conceito de ciência corrente de base materialista. Porque não
admite nada além do concreto e objetivo e acredita na neutralidade
do método como verdade absoluta.
A crença dos bahá’ís na unidade orgânica da
humanidade e no poder catalisador da Fé, não é compatível
à produção do conhecimento baseado estritamente nos
parâmetros positivistas.
De fato não existe verdades absolutas abarcadas pela égide
científica.
A unidade entre ciência e religião se faz necessário.
Todavia, o que queremos dizer com esta interação? De nenhum
modo podemos condicionar a religião aos limites da ciência
ou mesmo aceitar integralmente a objetividade exclusiva pôr parte
da ciência.
Lembrando uma conferência de ARBAB (1986):
Uma das pretensões
do mundo intelectual em qualquer campo é a de que eles são
objetivos. Asseveram os pensadores que unicamente a ciência é
objetiva e que encontra a verdade pôr meio de métodos científicos.
A religião, porém, é considerada como assunto subjetivo.
Esta pretensão gravada na mente da maioria dos intelectuais é
cem pôr cento falsa. (Anais 1ª Conf. AEBB p.08).
A tese da objetividade têm como base no método científico
ao qual se atribui a supremacia e a unidade da ciência.
No entanto, não existe apenas um método, mas vários
métodos de análise cada qual utilizado de acordo com o caráter
da pesquisa que se realiza e às necessidades do cientista.
Por existir vários conceitos para o método, podemos considerar
que ele é o meio pelo qual há contato entre a realidade
e a teoria científica, ou seja, através dele sistematizamos
o conhecimento e fazemos ciência.
Para melhor fundamentar nossa elucidação tomemos como exemplo
os método dedutivo e indutivo. Tanto o primeiro como o segundo
suscitam questões e conclusões do particular para o geral
e vice-versa.
Segundo LAKATOS & MARCONI (1989): “... se nos dedutivos, premissas
verdadeiras nos levam a conclusões verdadeiras, nos indutivos,
conduzem apenas a conclusões prováveis”.
O método é limitado tanto como meio de adequar-se à
análise de uma realidade, como também pode estar divorciado
de qualquer fundamento real. Pois se partimos
de teses falsas chegaremos à conclusões errôneas.
Além disso, todo cientista está inserido em uma cultura
e estrutura social, assim toda interpretação que ele faça
da realidade será condicionada pela instância cultural-ideológica,
pelo sistema político-social ou pela formação ético-religiosa.
Não podemos atribuir ao método científico convencional
uma preeminência que na realidade não possui.
Segundo GARAUDY (1980):
"O Positivismo não conseguiu fugir aos problemas. O idealismo não
conseguiu resolvê-los. Esses problemas, (...), decorrem do malogro
de um duplo dogmatismo: o da religião e do cientificismo. (Perspectivas
do Homem p.13)."
Para concretizar a harmonia entre religião e ciência
há necessidade de se romper esse duplo dogmatismo. Se de um lado
acreditamos que a Revelação Bahá’í possui
os meios de rompimento com o dogmatismo religioso de outro no plano da
ciência devemos não perder de vista que a discussão
teórica metodológica é vital para fundamentar o argumento
perante uma nova interpretação do processo temporo-espacial
e o papel da religião como direcionadora deste.
Segundo ‘ABDU’L-BAHÁ (19__):
"Las exigências del presente piden nuevos métodos de solución;
los problemas del mundo son sin precedente. Las vejas ideas y formas de
pensamiento están rápidamente tornándose anticuadas.(Fund
de La Unidad Mundial p.141) "
A aplicação
do método científico convencional na Religião não
concretizará a interação possível entre ciência
e religião. Porque o método científico de origem
racionalista cartesiana e recriado sob o racionalismo idealista do positivismo
é incapaz de oferecer uma resposta adequada ao fenômeno da
religião.
O Positivismo
que de modo avassalador permeia as ciências tende a deificar a ciência,
negar o propósito da religião enquanto ,uma verdade revelada
reforçando um sentimento de antireligião e um idealismo
desvinculado da existência de uma Divindade. Sob todos os aspectos
esta ideologia é contrária as verdades inculcadas em qualquer
religião histórica revelada.
Segundo SCIACCA (1968):
A ciência
é entendida por ele como a revelação do ser, o progressivo
realizar-se do Infinito, a solução de todos os problemas,
a instauradora de uma nova ordem social.
Em suma, a Ciência
não é apenas o único conhecimento humano, mas é
a ‘nova religião da humanidade’, que torna supérfluas todas
as religiões tradicionais e é a garantia infalível
do melhor destino do homem, como indivíduo e como membro da sociedade.
A moral a política, a religião, toda a atividade humana
é canalizada à ciência, a grande esperança,
a soberana possibilidade do homem, o ideal novo não deludente.
A nova sociedade técnica industrial tem o seu fundamento e a sua
garantia na ciência. O ‘otimismo’ positivista, ingênuo e romântico,
instaura o culto religioso da própria ciência e, ao invés
de ter dela um conceito crítico, tem-na num mito e numa superstição.
(...); para os positivistas tudo é ciência, inclusive a filosofia
e a própria religião. (...); ‘cientismo’ abstrato... Inimigo
de toda metafísica, o positivismo é também ele uma
metafísica, que se lança até a adoração
do fato e à deificação da matéria. (Hist.
da Filos. M.F.Sciacca p.143 - III 1968 - Ed Mestre Jou SP).