MATTHEW W. BULLOCK
1881-1972Em 17 de Dezembro de 1972, Matthew W. Bullock, um bahá'í cujo talento o tornou destacado em muitas áreas, faleceu com a idade de noventa e um anos. Desde o começo da sua vida, até a sua morte, Matthew Bullock moldou novos caminhos, quebrou todas as antigas barreiras e lutou pelo reconhecimento do valor da dignidade humana." Um eterno pioneiro" - poderia ser um epitáfio apropriado - porque o período no qual sua vida desabrochou não ofereceu um substituto para o esforço próprio, autodisciplina e uma fé corajosa no futuro do gênero humano. As realizações e o reconhecimento que ele ganhou tiveram um impacto sobre as comunidades bahá'ís e não bahá'ís onde viveu. Ele será lembrado como aquele que harmonizou o progresso material e espiritual, e mantinha sua vida de maneira nobre e o compromisso permanente com a unicidade de Deus e a unidade da humanidade. Foi em 11 de setembro de 1881 que Jesse e Amanda Bullock de Dabney, Carolina do Norte, viram pela primeira vez a face do novo filho, que eles chamaram de Matthew. Eles eram pais humildes, marcados pela experiência da escravidão humana, lutando para erguer sua família contra o cenário da pobreza, hostilidade e medo, os quais haviam acompanhado o drama da emancipação do Sul. Não temos nenhum registro daquilo que os seus pais experimentaram, enquanto assistiram a vida de Matthew desdobrar-se; mas para eles deveria ter sido uma esperança e uma promessa, porque até mesmo nos anos iniciais o jovem Matthew demonstrou evidencias de possuir um dom destacado: um corpo forte e bem coordenado; um intelecto militante e inquiridor; a ressonância de uma boa e talentosas cordas vocais e o eflúvio sensitivo de um espírito radiante. Foi talvez a atmosfera do presságio neste filho que induziu Jesse Bullock a se mudar com a sua família de Dabney, quando Matthew tinha oito anos de idade. Ele não poderia sentenciar esta criança ao prevalecente estilo de vida de ignorância e auto subestimação, a qual poderia capacitá-lo a sobreviver às hostilidades e preconceitos tão arraigados nos costumes e procedimentos de um velho Sul (dos Estados Unidos) com os seus negros. Só Deus sabe como eram as dificuldades. Em 1889, Jesse Bullock levou a sua família para Boston, chegando como ele mais tarde relatou: "com sete filhos e uma nota de dez dólares".
A vida em Massachusetts tinha suas dificuldades, porém isto deu ao Jovem Matthew seu primeiro acesso a um tipo de educação, a qual desenvolveu o seu talento. Em 1900, ele se formou na escola secundária de Everett, com honra escolar, e com a distinção histórica por ser um negro e capitão de quatro dos cinco times da sua escola. A escola custeou as suas primeiras experiências, e isto deve ser lembrado que as suas vitórias não foram facilmente conquistadas num ambiente daquela época.
O curso secundário havia dado a Matthew confiança e a ambição que ele aspirava prosseguir. A sua meta era obter o símbolo de excelência da Faculdade de Dartmouth. Jesse Bullock, vendo o futuro promissor de seu filho, desejou garantir a Matthew aquela oportunidade. Contudo ele tinha que fazer face à realidade, pois seu baixo salário nunca poderia financiar uma educação de faculdade. Mal podiam eles cobrir as necessidade de sua grande família. Mesmo assim, com um amor que ele não podia expressar em palavras, Jesse deu a Matthew a poupança de cinqüenta dólares ganha com muito sacrificio e o deixou livre para voar com as suas asas e perseguir o seu objetivo. Quando consideramos o quanto Jesse precisava da ajuda de um filho trabalhador, compreendemos o amor e o sacrifício que ele fez, dando a Matthew a liberdade para escolher e lutar por ele próprio.
Matthew aceitou o desafio de auto-esforço e disciplina. Ele se matriculou na Faculdade de Dartmouth e conseguiu fundos para as suas despesas com a sua ótima voz de barítono. Acompanhado por um colega de classe, ele deu concertos em igrejas, hotéis e foi anunciado como "o famoso cantor barítono de Dartmouth."
A despeito da pressão por trabalho, para obter os fundos que necessitava, ele era um estudante diligente e desenvolveu mais a sua habilidade atlética. Ele fazia parte do time principal e distinguiu-se pelos saltos à distância e com vara, o que trouxe fama para Dartmouth, como um jogador de futebol de destaque.
O historiador desportivo Edwin Henderson, avaliando o seu desempenho durante os jogos críticos enfrentados por Dartmouth entre os anos 1901 e 1903, observou que "Bullock foi um dos mais inteligentes jogadores de futebol que ele jamais tinha visto".
Após concluir o seu título de Bacharel em Dartmouth, em 1944, com a distinção de honra escolar e com a fama de suas realizações atléticas, o Sr. Bullock entrou em Harvard; pagando sua matricula trabalhando como juíz desportivo. Ele foi contratado pela Faculdade de Agricultura de Massachusetts e conseguiu um duplo ‘record’; como o primeiro treinador assalariado e como o primeiro negro a servir como o principal treinador de uma instituição predominantemente branca. A Escola Secundária de Malden também contou com os seus serviços de treinador. Em 1907, ele se formou pela Universidade de Direito de Harvard, novamente com recordes honrosos.
A luta pela oportunidade, pelas realizações e respeito durante estes anos escolares, trouxeram-lhe contusões desagradáveis, com hostilidade e preconceito. Os times adversários tinham desenvolvido estratégias especiais para "pegar" o jogador de ‘cor’. Fora da Faculdade, descobriu que as portas usualmente abertas para os bem qualificados profissionais eram-lhe fechadas por ser um negro Americano. E até mesmo entre os seus colegas, ele encontrou má acolhida como pessoa. Em suas memórias, Matthew contou que um colega, após quarenta anos de reuniões de classe, concordou finalmente em apresentá-lo à sua família.
Assim, cedo nas experiências da vida, Matthew aprendeu abrir caminho contra a amargura nele e nos outros.
Não encontrando uma oportunidade razoável em Boston, Matthew aceitou uma oferta na Faculdade de Morehouse (antiga Faculdade Batista de Atlanta) para trabalhar com um professor e diretor de atletismo. Isto o levou de volta para o Sul, em 1908. Seu trabalho lá o capacitou a desenvolver alguns "dos mais bem formados e excelentes times de futebol do Sul." Em 1912, ele abriu o seu escritório de advocacia em Atlanta, Georgia, e apesar do tempo lamentávelmente não mostrar evidência das suas experiências pioneiras, como advogado negro no ‘Deep South’ (extremo Sul) - o qual era o "old South” (velho sul)- eles provavelmente fariam uma pujante e interessante história. Durante este período desafiante em sua carreira profissional, o romantismo de algum modo entrou na sua vida. O seu casamento com Katherine Wright foi duradouro e estável. Eles foram abençoados com duas crianças, que em suas vidas e comportamento expressaram os padrões de realizações que os seus pais lhes proporcionaram. O filho, Matthew W. Bullock Jr. é um juiz do Tribunal de Direito Civil na Filadélfia, Pensilvânia. A filha, Sra. Julia Gaddy, é uma bibliotecária em Detroit, Michigan.
A carreira profissional do Sr. Bullock foi interrompida pela Primeira Guerra Mundial. Recusado pelo serviço ativo militar por causa da condição do seu coração, ele foi para o Acampamento de Meade, como um secretário educacional da Associação da Juventude Cristã; organização que servia às forças militares. Ele foi enviado para a França com a 369a. Div. de Infantaria, tornando-se parte das Forças Expedicionárias Americanas. Sua vigorosa oposição à certas políticas racistas com que se deparou nas suas experiências além-mar, atraíram-lhe a hostilidade de certos oficiais-comandantes; serviu na linha de frente por quinze meses sem lhe ser permitido uma licença e foi designado novamente quando pediu ajuda para retornar aos Estados Unidos. Ele foi indicado para receber a medalha Croix de Guerre (Cruz da Guerra) por sua liderança e bravura durante os seus serviços na linha de frente, porém o coronel do regimento recusou a aprová-la por razões preconceituosas; um incidente que foi descrito na autobiografia do educador negro, Dr. John Hope. O Sr. Bullock recebeu também uma carta do capelão do Exército, Sr. Robeson, irmão de Paul Robeson, o qual se referia a Matthew como um " herói não glorificado da batalha de Argonne".
Após a guerra, o Sr. Bullock se instalou em Boston onde logo se tornou conhecido como um líder e cidadão proeminente e foi encorajado para se à carreira pública, onde serviu na área do direito e serviços públicos por um período de mais de vinte anos, constantemente abrindo caminho para a justiça social e a dignidade humana. Como um distinguido líder e cidadão, sua influência nunca foi baseada sobre a exploração ou a manipulação de hostilidades e de tensões. Ele estava acima de ódio e intolerâncias; estava impelido por um amor de justiça em prol de toda a humanidade.
O primeiro encontro do Sr. Bullock com a Fé Bahá'í aconteceu durante seu atribulado período de responsabilidades cívicas e profissionais. Como presidente da Igreja da Comunidade de Boston, ele participou de um jantar para um instrutor Bahá'í viajante, a Sra. Ludmilla Bechtold Van Sombeek. Lá ele fez muitas minuciosas e instigantes perguntas sobre a Fé. Estava especialmente interessado nas atitudes raciais de seus membros brancos. Foi-lhe respondido de tal maneira que ele ficou estimulado em ler. Ele obteve uma cópia do livro Respostas a Algumas Perguntas e o estudou; mais tarde ele e a Sra. Bullock visitaram a Escola Bahá'í de Green Acre. O contato do Sr. Bullock com os Bahá'ís e sua investigação da Fé durou por muitos anos, durante os quais os amigos que o conheciam tratavam suas reservas e os assuntos que o preocupava com grande paciência e amabilidade. A Sra. Van Sombeek, sua primeira instruroa, era uma pessoa influente entre estes amigos, a qual tornou-se uma calorosa e compreensível amiga que o estimulou a estudar os Ensinamentos e proporcionou-lhe oportunidades para ampliar suas experiências com o modo de vida Bahá'í. Ele prestou-lhe um tributo de reconhecimento como "mãe espiritual", quando aceitou a Fé em 1940 e durante a sua vida ele expressou um apreço profundo por sua associação e amizade.
Como um Bahá'í, ele doou sem reservas a sua habilidade de liderança e devoção. Serviu como coordenador da Assembléia Espiritual de Boston e foi indicado para muitos comitês nacionais, e, em 1952, foi eleito para a Assembléia Espiritual Nacional dos Estados Unidos. Um profundo estudioso das Escrituras e um eficiente orador, ele viajou extensivamente e freqüentemente com os seus próprios recursos para promover a Fé. Ele visitou Haiti, Costa Rica e o México. Onde quer que fosse, seu profundo compromisso para com a Fé Bahá’í o estimulava. A morte da Sra. Bullock em 1945 deixou um grande vazio na vida de Matthew Bullock; contudo naquele ano de pesar e solidão outra honraria foi-lhe prestada, quando o Secretário da Marinha dos Estados Unidos convidou-o a juntar-se a uma Comissão Especial de destacados cidadãos a participar numa viagem de inspeção das instalações navais nas áreas do Pacífico.
Em 1953, enquanto o Sr. Bullock era membro da Assembléia Espiritual Nacional, foi solicitado a juntar-se a uma representação daquele corpo e assistir a primeira Conferência Intercontinental Bahá'í em Uganda, África Oriental, e recebeu permissão para visitar a Terra Santa em peregrinação, antes da Conferência. A visita aos Sepulcros Sagrados e a recepção cordial que recebeu do amado Guardião foram profundas experiências as quais tiveram um grande impacto espiritual. Ele as expressou nas seguintes palavras:
"O Guardião esclareceu muitas coisas para mim. Minha visita a ele e aos Sepulcros Sagrados são experiências indescritíveis. Eu penso que nunca serei capaz de expressar o que aquilo significou para mim; nem acho que qualquer Bahá'í possa ser o mesmo depois de estar com o Guardião. Desejo que todo Bahá'í possa ter a benção que eu tive".
Aquelas palavras que não podiam ser expressas, a própria vida de Matthew Bullock mais tarde as expressou. Ele foi um cuidadoso observador na Conferência Africana e um participante profundamente inspirado. Cheio com uma radiância especial de espírito, ele deixou a conferência e viajou para o Congo Belga. Retornando através da África Ocidental, ele visitou a Libéria, onde se encontrou com o Presidente Liberiano e o Embaixador Americano e foi capaz de ampliar a compreensão deles sobre a Fé Bahá'í; sua conversa tanto afetou o Presidente que este o convidou para um jantar especial e o apresentou à vinte e cinco distinguidos personagens da Libéria e de outros países. O Sr. Bullock falou da Fé Bahá'í e de seu Programa para a humanidade e declarou que se encontrava na África como um representante da Assembléia Nacional Americana.
Quando ele retornou aos Estados Unidos, descobriu que a comunidade americana tinha recebido crescentes mensagens estimuladoras do Guardião urgindo os Bahá'ís a se levantarem como pioneiros na Cruzada Mundial. Matthew, então, com setenta anos de idade, era um cidadão bem estabelecido e proeminente de sua comunidade, desfrutava dos frutos de uma vida de trabalho duro e de sacrifício. Não havia dúvida em sua mente sobre a prioridade do serviço espiritual de pioneirismo. Superando as limitações da sua idade e daqueles que lhe estavam próximo, achando-se livre do lar comunitário e da Terra, Matthew Bullock foi um daqueles que levantaram-se em 1953, durante a Convenção Bahá'í Americana e ofereceu a sua vida para o serviço de pioneirismo. Ele foi um dos cinco membros a renunciar-se da Assembléia Espiritual Nacional naquele memorável ano, e saiu como pioneiro.
Matthew foi para Curaçao, Índias Ocidentais Holandesas (Caribe), e ajudou a estabelecer lá a primeira Assembléia Bahá'í. Ele foi um dos crentes que o amado Guardião conferiu a distinção de ser conhecido como ‘Cavaleiro de Bahá'ú'lláh’. Como pioneiro ensinou e viajou e estendeu os seus serviços em outras áreas do Caribe e na formação e fortalecimento de outras Assembléias Bahá'ís.
Em 1960, sentindo o peso da sua idade avançada e a inabilidade que ela trás, o Sr. Bullock retornou para os Estados Unidos. Na cidade em que ele fixou residência, Boston, permaneceu por um período para ensinar e servir no melhor de suas possibilidades. Idade e enfermidade, contudo, não o incomodavam. Os amigos de Boston, que o haviam conhecido longamente, trataram dele com muito amor e compaixão. Entre eles, deve ser mencionado uma antiga amiga Bahá'í, Srta. Bernice Ball, a qual, com um especial amor bahá'í e compreensão, ajudou-o atravessar os dias escuros e dificeis de dor e incapacidade. Quão grata e humilde e com amorosa estima o coração cansado do Sr. Bullock deve ter estado. Pelo ano de 1967 a doença o tinha enfraquecido tanto que ele se mudou para Detroit, onde vivia sua filha e mais tarde entrou em uma casa para anciãos, onde ele manteve seus contactos com os bahá’ís e com Dartmouth e Harvard, que contribuiram tão ricamente à sua vida inicial. As Universidades igualmente fiéis a ele não o esqueceram em seus últimos anos, nem suas realizações destacadas como aluno e ex-aluno.
Em 1971, a Faculdade de Dartmouth convidou-o a participar da cerimônia de formatura e conferiu-lhe o título Honoris Causa como Doutor em Leis, incluindo-o num seleto grupo de honoráveis, dentre eles Gunnar Myrdal.
Matthew Bullock contava então como noventa anos de idade. Enquanto ele ficou de pé para a sua apresentação e leitura da sua condecoração, foi ovacionado de pé pelas cinco mil pessoas presentes. Que pungentes memórias deveriam ter sido para ele naquele dia memorável! Como ele deve ter se regozijado ao ouvir a menção da sua amada Fé naquela comemoração de Dartmouth. Isto é parte do que foi lido: "Preocupação com os seus concidadãos continuaram a ocupar suas energias após a sua aposentadoria. Você é um líder reconhecido da Fé Bahá'í, e viajou o mundo todo custeando às suas próprias despesas no interesse desta religião. Você acredita profundamente que o estabelecimento da justiça universal e da liberdade requer um despertar moral e espiritual de todas as pessoas."
O Sr. Bullock retornou a Detroit fortalecido por muitas memórias de grandes momentos de sua vida e com a tranqüilidade de espírito, para aguardar a abertura daquela porta para a outra existência. A Morte, que é a "Mensageira de Júbilo", o encontrou em 17 de dezembro de 1972.
Com o seu metódico hábito de vida, ele deixou o seu testamento, no qual tomou as providências para o funeral Bahá'í, e até mesmo selecionou as passagem das Escrituras que desejava fossem lidas. Na morte, como em vida, dignidade espiritual, amor e unidade distinguiram a atmosfera. Uma grande honra e tributo veio a ele da Fé Bahá'í, a qual tanto amou e serviu. A Casa Universal de Justiça, a instituição suprema da Fé, enviou a seguinte mensagem para a Assembléia Espiritual dos Estados Unidos:
"CONSTERNADOS PASSAMENTO CAVALEIRO DE BAHÁ'Ú'LLÁH MATTHEW BULLOCK, DISTINGUIDO PROMOTOR DA FÉ, TRANSMITAM FAMÍLIA ORAÇÕES SEPULCROS SAGRADOS PROGRESSO SUA ALMA, ACONSELHANDO REALIZAR REUNIÕES SUA MEMÓRIA MASHRIQUL-ADHDKAR".
Em 17 de fevereiro de 1973, a Assembléia Espiritual Nacional realizou aquela especial reunião memorial no lindo Templo Bahá'í em Wilmette. Assim, a música de uma vida tão devotada em servir os princípios de uma grande Fé foram captadas e amplificadas nas cordas da eternidade.H. Elsie Austin - The Bahá’í World, 1968-73, Vol. XV, pp. 535-39
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Todos os textos fazem parte do livro "Histórias de Bahá'ís Afro-Descendentes", compilado por Gabriel Marques.