ISFANDÍYÁR

            Entre os servos na casa de Bahá’u’lláh, em Teerã, havia um homem negro, Isfandíyár. Quando as terríveis perseguições aos bábís começaram e Bahá’u’lláh foi detido e jogado em uma masmorra, Isfandíyár provou ser o Seu único servo leal e verdadeiro. Ele permaneceu na casa servindo à família sagrada, apesar do grande perigo que sua própria vida corria.
Bahíyyih Khánum, a Folha Mais Sagrada, a filha de Bahá’u’lláh, relatou a história da prisão de Seu pai:
            “Recordo-me  muito bem de um dia, ainda que na época eu tivesse apenas seis anos de idade. Parece que havia sido feito um atentado à vida do Xá,  por um jovem bábí meio louco.
Meu pai se encontrava em sua casa de campo no vilarejo de [Níyávarán], o qual era de sua propriedade, e cujos moradores eram todos coletiva e individualmente cuidados por Ele.
Repentina e apressadamente  um servo aflito entrou correndo, dirigindo-se à minha mãe.
            “O mestre, o mestre, ele foi preso - Eu o vi! Ele caminhou muitas milhas! Oh, eles bateram nele! Eles disseram que ele sofreu a tortura da bastonada! Seus pés estão sangrando! Ele está descalço! Seu turbante se foi! Suas vestes estão rasgadas! Há correntes em volta de seu pescoço!”
A face de minha pobre mãe ficou mais e mais pálida. Nós crianças estávamos terrivelmente apavoradas e apenas podíamos chorar amargamente. Imediatamente todos, todos os nossos parentes, amigos e servos, fugiram de nossa casa aterrorizados, somente um servo, Isfandíyár, e uma serva, permaneceram. Nosso palácio e as casas menores que dele faziam parte, logo foram totalmente saqueadas; móveis, tesouros, tudo  foi roubado pelo povo.
            A respeito deste nobre servo podemos encontrar mais dados nas memórias de Badí’í Bushrú’í, que viveu na presença de ‘Abdu’l-Bahá por muitos anos. Ele relata a história da forma como a ouviu de ‘Abdu’l-Bahá:
            O período de tribulação em Teerã [ após o atentado à vida do Xá em 1852] já foi mencionado. Mil pessoas foram mortas e a Abençoada Beleza [ Bahá’u’lláh] foi lançado à prisão. Ele tinha um servo negro chamado Isfandíyár que era a personificação de todas as boas qualidades. Tinha também outro servo negro chamado Mubárak , que era completamente o oposto. A  Isfandíyár haviam sido confiados  todos os assuntos confidenciais da Abençoada Beleza.
Foi sugerido ao Xá que se Isfandíyár fosse preso, poder-se-ia fazê-lo revelar toda esta informação secreta. Assim foi feito um plano para encontrar Isfandíyár. Sulaymán Khán [um proeminente bábí de Teerã, que foi preso e martirizado durante as perseguições deste período] tinha um servo chamado ‘Abbás, que conhecia todos os bábís. Acompanhado por cinqüenta ou sessenta soldados, ‘Abbás foi levado pela cidade e indicou cerca de trinta crentes.
            A mãe de ‘Abdu’l-Bahá  enviou Isfandíyár para Mazandaran [no norte do Irã], onde ele poderia estar em segurança. Mas ele retornou uma semana mais tarde. Quando perguntado o porquê dele ter voltado, ele disse: “Eu tenho dívidas a pagar na cidade ao açougueiro e ao padeiro. Não quero que as pessoas digam: ‘Aquele servo da Abençoada Beleza nos trapaceou e fugiu.’ Eu não partirei até que todas as minhas dívidas tenham sido pagas.” E assim ele foi à cidade, não poupando esforços para quitar todas as suas obrigações.
            Um dia, enquanto ele caminhava no bazar, ‘Abbás - com sua escolta do governo – se deparou com Isfandíyár. ‘Abbás o saudou cerimoniosamente, mas não o denunciou aos soldados.
Finalmente, Isfandíyár retornou a Mazandaran. À sua chegada, o governador da província, Mírzá Yahyá Khán, que o conhecia, o tomou como seu servo maior, colocando todos os assuntos de sua casa em suas mãos. Algum tempo depois, quando Mírzá Yahyá Khán e sua comitiva pararam em Bagdá, a caminho de sua peregrinação às cidades sagradas, Isfandíyár teve o privilégio de ali visitar Bahá’u’lláh. Ele suplicou permissão para permanecer em Sua presença.
            A Abençoada Beleza lhe disse: “Veja! Esta nobre pessoa concedeu-lhe um refúgio em sua casa, quando eras um fugitivo. Eu não desejo que agora proves ser-lhe infiel e partas, a menos que ele o aprove.”
            Isfandíyár enviou alguém em seu nome até Yahyá Khán, suplicando que o liberasse do serviço. Mas seu mestre replicou que ele nunca consentiria em deixá-lo partir. Desta maneira, Isfandíyár permaneceu com Yahyá Khán. Eles retornaram para Mazandaran.
Isfandíyár, aquele servo singular e incomparável, faleceu em Mazandaran.
             ‘Abdu’l-Bahá explicou que os débitos pagos por Isfandíyár após o aprisionamento de Bahá’u’lláh, na realidade não eram seus, mas, sim, débitos da casa sagrada, contraídos  por ele no mercado durante o curso normal de seus deveres. Não obstante ele permaneceu em Teerã durante um mês inteiro, num tempo em que qualquer um que fosse sequer suspeito de ser um bábí, poderia ser preso e morto. Ele caminhou abertamente pelas ruas e bazares;  vendeu suas próprias possessões e descobriu que poderia ganhar um pouco de dinheiro. Gradualmente pagou o valor total devido a todos os credores da Abençoada Beleza. Nenhum centavo permaneceu sem ser pago. Apresentou-se então diante da família sagrada e deles se despediu; e só então deixou a cidade.
            Muitos anos depois, enquanto visitava a América, ‘Abdu’l-Bahá deu o seguinte testemunho dos serviços deste servo leal:
            Se um homem perfeito pudesse ser encontrado no mundo, este homem foi Isfandíyár. Ele foi a essência do amor, radiante de santidade e perfeição, brilhante de luz. Sempre que penso em Isfandíyár,  me comovo até às lágrimas, ainda que ele tenha falecido há cinqüenta anos atrás.

Abu’l-Qasim Afnan
Black Pearls - Servants in the Households of the Báb and Bahá’u’lláh
Kalimát Press, Los Angeles, 1988. pp.27-32.

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Todos os textos fazem parte do livro "Histórias de Bahá'ís Afro-Descendentes", compilado por Gabriel Marques.