DOROTHY KEDIBONE SENNE
1931 - 1977
Ela estava em pé no vão de entrada da pequena escola em Alexandra, Johannesburgo — uma pessoa amigável e espirituosa. As três pioneiras que estavam ajudando a ensinar artesanato na escola fizeram uma pausa para dizer-lhe adeus. “Esperem!” — disse Dorothy — “Eu tenho uma pergunta. Existe alguma coisa diferente em vocês. O que é que vocês têm?” Helen Miller respondeu pelas outras duas, Doris Ballard e Bahiyyih Ford, dizendo: “Nós somos bahá’ís.” Aquilo foi o começo.
Dorothy havia nascido na comuna de Alexandra, em fevereiro de 1931, a quinta filha em uma família de seis crianças. Ela era da conhecida família Sebolao, de Thaba’nchu, no Estado Livre de Orange, o lar ancestral do povo de Tswana. Freqüentou a Escola Missionária da Cruz Sagrada, a Escola Secundária de Moroka e a Faculdade de Ohlange em Natal. Ensinou em vários lugares e, em 1972, se tornou a diretora da Escola Comunitária de Mokoena. Ainda criança, havia decidido que seria uma professora.
Em 1953, Dorothy e Epehns Nti Senne se casaram no Kgale em Phokeng, Rustenburgo, Transvaal. No dia do casamento, Ephens apresentou-a a um convidado como sendo “uma das minhas melhores amigas”. Isto foi um comovente e significativo elogio e Dorothy lembrou-se do episódio durante toda a sua vida. Os Sennes tiveram quatro filhas e um filho.
Dorothy interessou-se pela Fé Bahá’í a partir do momento em que fez sua primeira pergunta. Bem cedo, durante os seus estudos, ela falou a respeito de seu esposo, que estava vivendo em Rustenburgo, anelando poder compartilhar com ele o que estava aprendendo. Os pioneiros, encantados, providenciaram levar Dorothy a Rustenburgo. Chegando pela manhã bem cedo na casa de Dorothy, os pioneiros foram apresentados a um homem bem-apessoado. Tratava-se do cunhado de Dorothy, William Masehla (agora um membro do Corpo Continental de Conselheiros para a zona do sul da África) o qual ia servir de acompanhante, pois ela estava se aventurando ao sair sozinha com estranhos.
Foi um dia muito divertido, com cantorias e risadas durante o caminho. Os pioneiros encontraram-se com o Sr. Senne e com outros membros de sua família. Ao meio-dia a cesta de piquenique foi aberta e um farnel típico de um piquenique americano foi espalhado — presunto frio, salada de batata e torta de maçã. Os pioneiros não se deram conta de que aquele tipo de comida era estranha para seus convidados, porém a cortesia infalível do povo africano prevaleceu e todos pareceram comer o almoço com prazer. Desde então, os Sennes têm dito que na África do Sul não foi o chá , como nos dias do Báb, que capturou os corações, mas, sim, o presunto e a salada de batata!
Durante a viagem de retorno para Joanesburgo, o Sr. Masehla juntou-se a Dorothy fazendo perguntas sobre a Fé. O pequeno carro corria velozmente conduzindo duas almas que viriam a ser os primeiros pilares da Fé na África do Sul.
Dorothy se tornou bahá’í em janeiro de 1955, a primeira mulher africana a aceitar a verdade da Fé na África do Sul. Começou imediatamente a ensinar a Fé e muitos corações foram atraídos. Era profundamente sincera, tinha clareza de pensamento e era honesta em sua forma de encarar a vida e no desejo de construir a sua vida baseada na verdade. Ao encontrar a resposta ao que buscava, o seu entusiasmo não teve limites. Ela atraía as pessoas com o seu espírito alegre e sociável; ensinava com convicção e amor. Dorothy tinha uma capacidade superlativa para se ajustar às pessoas de todas as classes sociais; ela se sentia igualmente confortável e feliz com aqueles que não sabiam ler e escrever, como também com as pessoas educadas. A Fé cresceu. Surgiram comunidades bahá’ís em Rustenburgo e nas cercanias. Além disso, graças aos seus esforços e aos realizados por Bula Stewart, o qual se estabelecera em Pretória como pioneiro, mais de quarenta e cinco pessoas abraçaram a Fé.
À medida que os anos foram se passando, o estudo favorito de Dorothy veio a ser o Convênio. Sua última palestra, por ocasião da conferência nacional de ensino em 1976, tratava deste assunto que se encontra no âmago do comprometimento com a Causa de Bahá’u’lláh. Ela deixou esta vida em 8 de junho de 1977. Seu funeral ocorreu como ela gostaria que fosse: um meio para ensinar a Fé. Mais de mil pessoas, incluindo muitos que não eram bahá’ís, reuniram-se para prestar tributo àquela que havia sido uma fonte de felicidade, renascimento espiritual e amor. Ouviam-se vozes de todos os lados: “Nossa mãe nos deixou”. Seu esposo, agora membro do Corpo Auxiliar, comovidamente lhe prestando um tributo, disse: “Até o momento de sua morte, Dorothy permaneceu leal, devotada, dedicada, temente e amante a Deus no serviço à divina Causa de Deus”.
O seguinte cabograma, datado de 9 de junho de 1977, foi recebido da Casa Universal de Justiça:
“ENTRISTECIDOS FALECIMENTO DOROTHY SENNE PRIMEIRA CRENTE MULHER ÁFRICA DO SUL PONTO GENTILMENTE ESTENDAM NOSSA CALOROSA SIMPATIA SUA FAMÍLIA E AMIGOS PONTO ORANDO SAGRADOS SANTUÁRIOS PROGRESSO SUA ALMA REINO ABHÁ”
‘Abdu’l-Bahá, nas Epístolas do Plano Divino, escreveu: “Diz-se que na África do Sul foi descoberta uma mina de diamantes. Embora a mina seja de muitíssimo valor, ainda assim não passa de pedra. Se Deus quiser, a mina da humanidade poderá vir a ser descoberta e as pérolas brilhantes do Reino encontradas”.The Bahá’í World, Vol. XVII, 1976-1979, pp. 434-436
Todos os textos fazem parte do livro "Histórias de Bahá'ís Afro-Descendentes", compilado por Gabriel Marques.