CHADWICK MOHAPI
1888 - 1978
MARY MOHAPI
? - 1968
Chadwich Mohapi e sua esposa Mary, foram as primeiras pessoas a aceitar a Fé em Lesotho (outrora Basutolândia) como resultado do trabalho do ensino de Fred e Beth Laws, os quais foram nomeados Cavaleiros de Bahá’u’lláh, por ocasião de sua chegada, em outubro de 1953, àquele pequeno e montanhoso país do sul da África. As viagens de ensino empreendidas pelo Senhor e Senhora Laws, por aquelas antigas estradas partindo de Maseru, a capital, os levaram a passar pela bela residência, sombreada pelas árvores, dos Mohapis. Teve início então uma amizade entre os dois casais, e os Mohapis se tornaram os primeiros nativos basutos a abraçar a Fé de Bahá’u’lláh em seu próprio país. O Sr. Mohapi deixou um relato do primeiro encontro que tiveram:
“Numa tarde de um certo dia do ano de 1954, eu e minha esposa estávamos sentados do lado de fora, quando vimos um estranho carro... pessoas de descendência européia vieram do mesmo. Nós então mandamos o nosso primogênito, Selai, descobrir de onde eles vinham. Ele retornou com eles até onde estávamos... nos perguntaram se lhes seria permitido o uso de uma parede, por cima da qual estenderiam uma lona durante o dia (como abrigo). Perguntamo-lhes então, quem eram, de onde tinham vindo... desejávamos saber quais eram suas intenções. Eles nos disseram que haviam vindo de uma terra muito distante, que estavam à procura de pessoas às quais pudessem ensinar a Palavra de Deus. Gracejando, eu respondi: “Vocês podem vir e viver aqui conosco neste rondoval (palhoça redonda)”. Responderam que ficariam gratos em fazê-lo. Então perguntamos: “Como vão poder viver com pessoas negras? Vocês não sabem que nós não amamos as pessoas brancas? Nós nunca ficamos com pessoas brancas antes.” Responderam que isto não lhes importava e que poderiam viver conosco. Eu então disse para minha esposa: “ Vamos pôr isso à prova e ver se estas pessoas são realmente sinceras.” Os Laws voltaram a Maseru para pegar as suas bagagens e retornaram ao anoitecer. “Ficamos perplexos, pois havíamos feito uma brincadeira e eles, inocentemente, nos tomaram a sério. Neste momento estávamos surpresos e também assustados”, relembrou o Sr. Mohapi.
“Naquela mesma noite nos convidaram para jantar com eles no rondoval. Estávamos receosos de entrar e estar lá com eles, contudo vimos quão lindas eram suas faces ... eles passaram a nos servir as refeições, ao invés de nós o fazermos . Na manhã seguinte, nos convidaram para tomar o café da manhã e, através do grande amor que demonstravam, no final do segundo dia, conquistaram a amizade de nossos filhos menores. Nós ainda nos questionávamos o que aqueles europeus desejavam, vivendo entre nós. Ao anoitecer do terceiro dia eles nos convidaram, não para comer, mas para fazer orações. Ficamos muito surpresos. Parecia que havíamos ganho um osso cheio de um delicioso tutano! Então eles ficaram e se tornaram nossos verdadeiros amigos. Demo-lhes novos nomes - para o homem, Lerato (Amor) e para a senhora Malerato (Mãe do Amor).”
Havia ainda muitos momentos em que os Mohapis se mostravam desejosos de saber mais acerca dos seus invulgares hóspedes, porém tinham prazer de estar com eles para as orações e a discussão sobre as profecias bíblicas — a Sra. Mohapi sempre havia tido um intenso interesse em assuntos da Bíblia. Os Laws gradualmente lhes apresentaram os ensinamentos bahá’ís. O Sr. Mohapi recorda: “Nos falaram então da Mensagem que haviam trazido e nós compreendemos.” Foi porém o exemplo de suas vidas o que mais nos tocou: “Eles nos alimentaram como se fôssemos os seus próprios filhos. Um dia minha mulher e eu ficamos doentes ao mesmo tempo; pegaram nossos filhos e os levaram para viver com eles e nos deram assistência e ajudaram a nos curar. Os temores que havíamos tido, gradualmente desapareceram, até que começamos a entender realmente... que eles eram como o nosso próprio irmão e irmã. Foi então que realmente aceitamos as suas afirmações.”
Chadwick Mohapi contava então com sessenta e seis anos de idade. Não obstante, ele e sua esposa vieram a encabeçar os primeiros esforços de ensino para alcançar outras partes de Lesotho. Outros bahá’ís visitaram o pacato e sombreado lar dos Mohapis, que eles chamavam de Seqonaka, o qual se tornou um centro de reuniões que atraíam pessoas das vilas da redondeza. Muitos tinham a curiosidade de ver os “europeus” (termo usado por muitos africanos para todas as pessoas de cor branca) e os africanos que viviam juntos.
Chadwick Mohapi nasceu em 1888, membro de uma ilustre família da área de Berea. Sua família era do clã de Bakoena, o clã real de Lesotho, descendentes de Moshoeshoe I, o pai da nação Basuto. Quando criança, Chadwich pastoreou gado para seu pai, o qual lhe tinha muita estima; único filho a ir para a escola e um dos primeiros jovens em Lesotho a estudar mecânica no Instituto Técnico Lerotholi em Maseru. A pequena vila de Maseru cresceu até tornar-se uma cidade movimentada e Chadwick ocupou-se em consertar carros, fazer instalações hidráulicas e reparar moinhos. De 1916 a 1918 ele serviu nas forças armadas e viajou à França e Inglaterra. De modo profético, disse a um amigo: “Estamos abrindo caminhos para nossos filhos viajarem através dos mares”. Em tempos recentes, três dos seus filhos e vários netos foram para o exterior trabalhar e estudar.
O Sr. Mohapi ficou profundamente impressionado com o número de árvores que ele viu na Europa e resolveu plantá-las logo que retornasse ao seu próprio país, o qual havia sido totalmente desflorestado em anos anteriores. Casou em 1918; sua esposa, Mary, pertencia ao clã de Bataung, sendo ela uma descendente direta do famoso chefe Moletsane. Tiveram seis filhos e duas filhas. Em 1922 os Mohapis estabeleceram o seu lar em “Seqonaka” e aqui Chadwick começou o seu plantio de mudas. Ele serviu ao seu país de muitas maneiras: como capataz de operários empregados na construção de novas estradas, como chofer para o Comissário Residente, como motorista para o guardião do jovem rei; e foi honrado com sua nomeação oficial para chefe da vila de Rapoleboea, situada nas montanhas. Retirou-se para “Seqonaka”, onde mais tarde conheceu os Laws, aceitando a Fé e envolvendo-se imediatamente em planos para “sair e alcançar outras pessoas”.
Inicialmente foram para a área da família de Mary, Sephapos, a qual se tornou a segunda comunidade bahá’í de Lesotho. Muitas pessoas da família de Mary aceitaram a Fé, incluindo o Chefe Jacob e o Sr. Armstrong Sephapo e as esposas de ambos. “O líder era realmente minha esposa”, disse Chadwick, “ela realmente tinha o potencial”. Eles levaram a Fé para a área montanhosa de Qacha’s Nek, onde o seu filho Alfred e uma enfermeira do hospital local se tornaram bahá’ís, e também para a vila real de Matsieng onde levaram ao conhecimento do Chefe Supremo os ensinamentos Bahá’ís. Volveram então suas atenções para o norte e leste, ensinando em Butha Buthe, Leribe e até mesmo no Estado Livre de Orange, na África do Sul; e em outra visita às montanhas onde vivia sua filha casada, ela e seu esposo, o Chefe da área, se tornaram bahá’ís, assim como muitas outras pessoas. Enquanto isto o trabalho em Seqonaka continuava, resultando na formação de diversas comunidades ativas.
Após o falecimento de Mary em 1968, Chadwick ponderou : “Nós costumávamos cantar as canções bahá’ís e dizer orações com os nossos filhos... agora a minha saúde não está boa e eu não posso mais fazer viagens de ensino; já estou agora cansado... Estou muito agradecido por ver bahá’ís vindo me visitar. Se você planta uma pequena flor, eventualmente ela formará muitas outras flores grandes e belas — isto o gratifica. Estou muito agradecido por ver o sucesso da Fé em Leshoto. Comparo a minha condição com a de Moshoeshoe I , o qual acolheu os primeiros missionários (cristãos) e levou o seu povo a adquirir muito conhecimento”. Chadwick participou das atividades bahá’ís até o fim da sua vida. Durante o Plano de Cinco Anos, por ocasião da dedicação de um sítio para a construção de um centro regional em Ha Rampa, ele plantou duas mudas de árvores que carregara com as próprias mãos desde “Seqonaka”. Em seus comentários durante a cerimônia de dedicação, fez uso de uma analogia muito apropriada para Lesotho, onde existem muitos diamantes. Comparou o descobrimento da Fé ao achado de um diamante e disse: “À primeira vista, a pedra não parece se diferenciar das outras, porém, quando talhada e polida, tem o poder de fazer um homem rico para o resto de sua vida”. E, falando numa Conferência de Unidade, no Centro Nacional Bahá’í, fez um tributo à memória dos Laws, ao alertar os bahá’ís dizendo: “Amigos, sejam gentis com os visitantes, pois vocês nunca sabem quão importantes eles podem ser”.
Chadwick Mohapi foi homenageado pelos bahá’ís de Lesotho no início do ano de 1975, marcando o vigésimo aniversário do estabelecimento da Fé naquele país. Cerca de cem amigos se reuniram em “Seqonaka” para discursos, festividades e a entrega ao Sr. Mohapi de uma fotografia do Santuário do Báb. Ele respondeu dizendo: “Me louvem, louvando a minha Fé”. Ele doou aos bahá’ís uma linda e sombreada área de sua propriedade, demarcando os cantos com pedras pintadas de branco. Ele expressou a esperança de que ali viesse a ser edificada uma casa de oração, semelhante ao velho rondoval dos Laws, de modo que os bahá’ís pudessem vir, se deleitar com aquelas árvores e orar. Em 1976, a Mão da Causa John Robarts e sua esposa Audrey fizeram uma agradável visita ao Sr. Mohapi, relembrando os primeiros dias da Causa em Leshoto. Alguns meses antes da sua morte, os bahá’ís de Lesotho ergueram uma placa de bronze no terreno que ele havia doado para a Fé. Na inscrição, em seshoto e em inglês, lê-se: “Este lugar é um local dedicado às reuniões bahá’ís, em honra de Morena Chadwick Mohapi e Mary Mohapi - Primeiro Basuto em Lesotho a reconhecer Bahá’u’lláh , como Mensageiro de Deus para hoje”.
Chadwick Mohapi faleceu em 04 de abril de 1978. Seu funeral foi presenciado por aproximadamente 800 pessoas, incluindo a Rainha de Leshoto, diversos ministros e funcionários do governo, principais chefes e líderes da comunidade no campo dos negócios e das diversas profissões. Uma declaração lida durante o programa da cerimônia fez referência ao conceito bahá’í a respeito da morte e destacou a posição do Sr. Mohapi, como o primeiro crente em Leshoto. “O Sr. Mohapi sempre ocupará um lugar especial nos corações dos bahá’ís de todo o mundo porque ele foi o primeiro bahá’í basuto em Lesotho, tendo aceito a Fé em 1954. Por este simples ato de fé, por esta simples declaração de sua crença em Bahá’u’lláh , como o Profeta para o dia de hoje, o Sr. Mohapi, sem saber, assegurou o seu lugar nos anais da história bahá’í ”.
Durante a cerimônia foi lido o cabograma recebido da Casa Universal de Justiça, que diz:
“ENTRISTECIDOS FALECIMENTO CHAKWICK MOHAPI A LONGO TEMPO FIRME DEVOTADO CRENTE LESOTHO ASSEGUREM FAMILIA AMIGOS ORAÇÕES SANTUARIOS SAGRADOS PROGRESSO SUA ALMA REINO ABHA..”
Também foi lido um tributo enviado por telegrama pelo Corpo Continental de Conselheiros para o sul da África:
“PROFUNDAMENTE ENTRISTECIDOS PARTIDA TERNAMENTE AMADO CHAKWICK MOHAPI SUA ILUSTRE POSIÇÃO PRIMEIRO CRENTE LESOTHO MUITOS SERVIÇOS CAUSA AJUDA PRIMEIROS PIONEIROS E CRENTES SEGURAMENTE ATRAI CONFIRMAÇÃO ABENÇOADA BELEZA ASSEGUREM PARENTES AMIGOS NOSSAS ORAÇÕES FERVOROSAS PROGRESSO ALMA PONTO SEU RADIANTE ESPIRITO SEMPRE SERÁ LEMBRADO.”
Ele foi um homem à frente do seu tempo. Em virtude de sua previsão em plantar árvores em “Soqonaka”, hoje os amigos podem desfrutar de suas sombras. De modo semelhante, através de seu plantio das sementes espirituais da Fé Bahá’í em Leshoto, a árvore da Causa cresceu vigorosamente e estende os seus benefícios para o povo daquela terra. Ele foi abençoado, não somente com uma adorada esposa, muitos filhos, netos e bisnetos, dos quais muitos reconheceram a Fé, mas foi ainda abençoado com filhos espirituais em Lesotho — aqueles que se tornaram bahá’ís e inumeráveis outros que irão reconhecer a verdade dos ensinamentos de Bahá’u’lláh e que no futuro lembrar-se-ão, com os corações agradecidos, do lugar que Chadwick e Mary Mohapi ocupam na história bahá’í de Lesotho.Carole J. Allen - The Bahá’í World, Vol. XVII, 1976-1979, pp. 449-452
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Todos os textos fazem parte do livro "Histórias de Bahá'ís Afro-Descendentes", compilado por Gabriel Marques.