ANTONIO FRANCISCO EBO
? - 1977António Francisco Ebo, o primeiro bahá’í angolano, nasceu nas cercanias de Malange há mais ou menos 60 anos e era membro da tribo KiMbundu, que habita a área ao redor da capital, Luanda, e o território que se estende a leste de Malange. Angola era uma colônia portuguesa, assim sendo, ele cresceu falando tanto a sua língua nativa como o português. Não se sabe muito sobre sua infância e mocidade, mas sabe-se que, já adulto, mudou-se com sua família para Luanda, a fim de procurar melhores condições econômicas para sua família. Ele era o chefe de uma grande família “estendida” que, segundo a tradição africana, compreende — além de irmãos e irmãs — primos, sobrinhos e outros parentes.
Em janeiro de 1956, Sr. Ebo, que era membro da Igreja Evangélica em Luanda, assistiu a uma palestra proferida por Rodolfo Duna, um bahá’í de Moçambique que, a convite do pastor, falou à congregação a respeito dos princípios bahá’ís. Intrigados, o Sr. Ebo e seu sobrinho, José Avelino, seguiram o Sr. Duna até onde este estava hospedado, solicitando que gostariam de ouvir mais sobre aquela nova mensagem. Foi então que pela primeira vez o Sr. Ebo ouviu o nome de Bahá’u’lláh. Noite após noite, ele retornou para ouvir mais, e cada vez ficava mais convencido de que aquela era mesmo uma mensagem de Deus, uma mensagem que ele gostaria de compartilhar com seu notável tio, Sampaio, cuja procura espiritual tinha fortemente influenciado a natureza do Sr. Ebo. Sampaio, considerado um místico e guia espiritual pelos seus amigos e pela família, e cuja sabedoria, amor e conselho haviam feito com que lhe devotassem grande respeito, havia recusado afiliar-se a um sistema formal de crença, tendo declarado que quando a verdade surgisse ele a reconheceria. A este tio, o Sr. Ebo escreveu uma breve explanação a respeito da Revelação de Bahá’u’lláh. Em sua resposta, Sampaio fez três simples perguntas: sobre a origem da Fé, onde estava localizado o seu Centro Mundial e quais os ensinamentos fundamentais de seu Fundador. Ao ser informado que a missão de Bahá’u’lláh é a unificação de toda a humanidade, Sampaio escreveu: “Esta é a Fé pela qual eu estava esperando!”.
O Sr. Ebo, radiantemente feliz com a aceitação da Fé por Sampaio, iniciou atividades vigorosas de ensino e a maioria de seus familiares aceitou a Fé. Por ocasião do Ridván de 1956, com a ajuda do Sr. Duna e de sua esposa, Angélica, foi formada a primeira Assembléia Espiritual de Luanda e, pouco mais tarde, chegou um casal de pioneiros vindos de Portugal para ajudar na consolidação do conhecimento dos novos crentes. O Sr. Ebo e o Sr. Duna se juntaram a Sampaio para ajudá-lo em seus esforços de ensino em Malange, onde se manifestou uma grande receptividade à Fé. Por ocasião do Ridván de 1957, com a ajuda do Sr. Ebo, foi formada ali a primeira Assembléia Espiritual. Sr. Ebo foi nomeado membro do comitê de ensino e anelava seguir como pioneiro para o sul, para estabelecer a Fé em Nova Lisboa. Em 1961, antes que esses planos se realizassem, Angola foi varrida por intensa agitação política e ainda que os bahá’ís houvessem seguido estritamente os ensinamentos de Bahá’u’lláh sobre a não-participação em todos os movimento políticos e subversivos, eles também caíram vítimas da suspeita e do caos que envolveu o país. Incitada pelo clero, que havia unido forças para acusar os bahá’ís de atividades subversivas, a polícia obteve um decreto declarando a Fé ilegal e começou a prender e interrogar os bahá’ís. Os pioneiros foram expulsos, ficando a jovem comunidade por sua própria conta. A polícia veio à casa de Sampaio na calada da noite, prendendo-o e ameaçando sua esposa para que jamais fizesse qualquer outra reunião em sua casa, ou permitisse que alguém lá se hospedasse, e levando Sampaio para um destino desconhecido. Nunca mais ele foi visto.
Em outubro de 1963, o Sr. Ebo foi preso, teve sua casa revistada e foi aprisionado junto com três outros bahá’ís de Luanda. Mais tarde, falando a respeito daquele período, o Sr. Ebo, com um triste sorriso, diria: “Nós não fomos muito bem tratados”, mas não proferiria qualquer outra palavra de queixa. O Sr. Ebo e os outros prisioneiros foram finalmente transferidos para a prisão insular da Baía dos Tigres, ao largo da costa sul angolana, onde eles se regozijaram ao encontrar entre os prisioneiros seis bahá’ís de Malange. Durante os seis anos que ali permaneceram presos, eles se reuniam para orar, para discutir o que podiam recordar dos ensinamentos bahá’ís, e para cantar e compor novas canções em louvor a Bahá’u’lláh. Durante o tempo em que esteve na prisão, o Sr. Ebo cresceu em fé e dedicação. Não mais precisava volver-se a Sampaio para encontrar forças, pois as encontrava em seus próprios poderes espirituais. Os outros prisioneiros bahá’ís o miravam como se ele fosse o “pai” deles; ele continuava otimista e os assegurava de que um dia seriam livres e que viriam pioneiros e os ajudariam a difundir a Fé.
De fato, neste intervalo haviam chegado pioneiros os quais, após o Sr. Ebo ter sido liberado da prisão, foram colocados em contato com os crentes africanos. Foi uma reunião radiante e cheia de lágrimas. Uma nova era começava na história da Fé em Angola, durante a qual o Sr. Ebo emergiu como o “pai” da comunidade. Ele serviu na reconstituída Assembléia Espiritual de Luanda e foi membro do Comitê Nacional de Ensino. Foi o Sr. Ebo quem esteve sempre pronto para fazer uma viagem de ensino às vilas próximas, quem encorajou e estimulou os outros crentes, quem compôs diversas canções com temas bahá’ís, e quem estava no centro de todas as reuniões alegres e encontros espirituais. Ele reviveu a comunidade de Malange, dando força e esperança a seus crentes e novamente fez planos para o pioneirismo em Nova Lisboa.
Outra crise se abateu sobre a comunidade de Angola, com a deflagração da trágica guerra civil em 1974. Com o piorar da situação os pioneiros tiveram que partir e logo os crentes angolanos se viram outra vez deixados a sós. Seu amor pelos pioneiros era tão grande que eles se ofereceram para adotá-los em suas famílias, para que os pioneiros pudessem permanecer e lhes ofereceram comida, refúgio e conforto. O último pioneiro partiu em outubro de 1975, sem poder se despedir dos amigos angolanos, porque as comunicações, mesmo em Luanda, havia-se tornado quase impossíveis.
O Sr. Ebo continuou a se corresponder com amigos fora de Angola, falando dos esforços no ensino, na realização das Festas de Dezenove Dias, nos esforços para se estabelecer uma Sede Bahá’í e para conseguir do governo o reconhecimento oficial da Fé. Em uma de suas últimas cartas ele escreveu que continuava com a firme convicção de disseminar os ensinamentos e que sua meta era de atingir o registro de quinhentos crentes, para que o reconhecimento pudesse ser concedido aos bahá’ís.
O Sr. Ebo partiu dessa vida terrena em 17 de abril de 1977, depois de uma breve enfermidade. Seu espírito e sua forte fé influenciaram os outros crentes em seus esforços de levar avante seu trabalho e de viver uma vida bahá’í. Eles relataram que o Sr. Ebo teve um lindo funeral bahá’í, de acordo com as Escrituras, e que eles estavam esperançosos de finalmente obter o reconhecimento oficial da comunidade.
Ao saber de seu falecimento, a Casa Universal de Justiça, em 7 de junho de 1977, escreveu expressando a esperança de que sua vida possa provar ser uma inspiração para os amigos de Angola.
Do Reino de Abhá, o espírito radiante do Sr. Ebo apoiará as súplicas de seus companheiros de crença em sua terra natal, para que a mensagem curadora de Bahá’u’lláh seja levada a cada cidade e vila de Angola e que o chamado de “Yá Bahá’u’l-Abhá” possa ser ouvido em todas as suas regiões.Marvel Gray - The Bahá’í World, Vol. XVII, 1976-1979, pp. 432-433
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Todos os textos fazem parte do livro "Histórias de Bahá'ís Afro-Descendentes", compilado por Gabriel Marques.