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O Prêmio e Regulamento
Escultura Símbolo do Prêmio
Rúhíyyih Rabbani, uma Cidadã do Mundo

 

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Discursos dos agraciados com o
Prêmio Cidadania Mundial em 1996


LYGIA FAGUNDES TELLES

CELINA DO AMARAL PEIXOTO
ODILA MARIA FRATINI

IVONE AMÂNCIO BEZERRA CARLOS DE SOUZA
MOEMA LIBERA VIEZZER
BENEDITA DA SILVA
DORRIT HARAZIM
ELZA PEREIRA CORREIA MÜLLER
HERILDA BALDUÍNO DE SOUSA
SÔNIA SHAFA
TIZUKA YAMASAKI
YVONE BEZERRA DE MELLO
GRUPO MULHER - EDUCAÇÃO INDÍGENA - GRUMIN

 

 

 



LYGIA FAGUNDES TELLES,
escritora, membro da Academia Brasileira de Letras, a mulher atuante na promoção da cultura deste país, afirmou ao agradecer o Prêmio:

“A revolução mais importante do Século XX, é a revolução da mulher, segundo o pensador, jurista Norberto Bobbio. E esta revolução da maior importância tem aqui hoje, representadas revolucionárias mais sérias do século do qual estamos nos despedindo. O fato é que essa revolução verdadeira, é a revolução do pensamento, é a revolução da inteligência, é a revolução da luta verdadeira da mulher que tem buscado de todas as formas e por todos os meios mais justos e as vezes com desespero, as vezes com persistência, mas sempre com tamanha coragem, que é a mais importante virtude humana. Com a coragem, levantamos a sua bandeira em prol daquelas que não podem exprimir, que não podem lutar, ....que pela própria condição humana, estão impedidas da palavra e do gesto. Eu sou uma escritora Senhoras e Senhores, eu luto com a palavra, é uma luta dura, é uma luta solitária, eu agora mesmo estou falando e com dificuldades, porque eu escrevo eu não falo. Contudo, eu queria dizer, que o escritor, essa escritora, tem procurado através da palavra, levar ao meu próximo a palavra sempre maior que é a virtude da coragem, que que inclui as três virtudes na teologia que é Fé, a Esperança e a Caridade. É revoltante escritores que não são bons, que não tem generosidade no coração, escritores que não são caridosos, que não tem fé, que não tem esperança. Escritores bons são aqueles que acreditam nas virtudes teológicas e que acreditam em uma palavra escrita como uma fonte de volta ao próximo, ajudar esse próximo nessa luta tão desesperada, neste planeta enfermo, sim, nosso planeta é enfermo, nós temos que cuidar dele e temos que ter esperança para que ele ao menos consiga essa virada, nossa virada, esse desespero que está sendo essa mudança do medo e ao menos que consiga isto, levar ao próximo mais compaixão,com-pai-xão, olha essa palavra, repasse essa palavra pelo menos “compaixão”, levar compaixão ao seu próximo através principalmente da liberdade e da justiça. Temos aqui premiadas mulheres que são lutadoras, todas lutadoras, todas elas estão dentro desta revolução, repito, a mais importante revolução do século XX. Eu queria terminar, esta saudação tão desalinhavada eu não sei falar, eu costuro quando escrevo, quando eu falo as coisas saem fragmentadas. Cabem aos Senhores e as Senhoras costurar essas minhas palavras, então, eu queria terminar esta desalinhavada saudação às revolucionárias do século XX, com o pensamento do maior escritor da língua portuguesa de todos os tempos que se chama Machado de Assis: “Esta é a glória que fica, eleva, honra e consola. Muito obrigada.”

 

 


CELINA DO AMARAL PEIXOTO, socióloga, diretora do Arquivo Nacional, ora representando o Brasil na The Comission on Global Governance, enviou a seguinte Mensagem:

“No limiar do próximo século, o mundo se configura e este mundo apresenta novos riscos, novos problemas e novos desafios. Mas traz também a esperança concreta de podermos ingressar numa hora mais segura e justa. Hoje, o poder coletivo das pessoas para planejar o futuro é maior do que nunca, e a necessidade de exercê-lo mais é periódica. O principal desafio desta geração é mobilizar só o poder, para tornar a vida mais democrática, segura no século XXI. O mundo necessita de uma nova visão que estimule as pessoas a atingir níveis mais altos de cooperação em áreas que compartilhem os mesmos interesses e o mesmo destino. Essa nova visão do mundo é concentrada nas pessoas e ressalta as necessidades de valores como este. De uma ética cívica, global e uma liderança esclarecida que oriente os povos e as nações na comunidade global. O desenvolvimento da governança global faz parte da evolução do esforço humano para organizar a vida no planeta, e esse é um processo que estará sempre em andamento. O desafio é alcançado em quem viver, de tal forma que a questão de ações globais não seja só de interesses de toda a comunidade na estrutura sustentável mas, também se inspire nos valores humanos básicos e na busca de amparo à mobilização mundial, a vantagem da universalidade global. Não deve haver dúvidas quanto o caminho a seguir mas, o caminho certo requer afirmação de valores, de intervencionalismo e primados no império da lei, no clamor mundial em reformas institucionais que garantam e mantenham tudo isso. A prática da diversidade na unidade de que trata nosso atual encontro é um convite à ação em outra esfera mas sobretudo, por uma melhor administração da sobrevivência, melhores formas de compartilhar a diversidade. Enfim, melhores formas de viver juntos numa comunidade global, que há prática de humanidade. Muito obrigada.”

 


ODILA MARIA FRATINI, professora e psicóloga com diversos trabalhos de assistência às populações carentes, afirmou ao receber o seu Prêmio:

“...Estou baseada na frase: Servir o bem, faz bem. Me dediquei desde jovem às crianças, muitas crianças dessa forma, deixaram de morrer, pela iniciativa de uma jovem de quinze anos que já iniciou este trabalho. Por que me dediquei a isto? Porque a criança não pediu para nascer. Não pediu para nascer sem pai, sem roupa, sem comida, sem agasalho. Muita criança morre. ...onde não tem ninguém que faça justiça por ela, ela que não tem força para gritar, pernas para correr, braços para se defender. E é por isso, que nós adultos, que recebemos de Deus, todos esses poderes, temos a sorte de crescer, de chegar à nossa altura como adultos, temos a obrigação, o dever, de fazer justiça à essas crianças. Nós todos devemos responder diante de Deus, diante do Supremo Criador esse dom que Deus nos deu, se nós não fizermos uso. Todo mundo nasceu com o dever e com o direito de crescer com saúde, paz e prosperidade. Nós tivemos esse dom, esse poder, essa graça e devemos dar a esperança para muitos outros, senão nós não teremos ouvido aquela frase que o próprio Cristo disse: “Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o reino dos céus”. Há muita injustiça, muita falta de amor, há muitas crianças e jovens carentes. E só nós olharmos a chacina da Candelária, aonde estão os autores dessa chacina? Obrigado.”

 


IVONE AMÂNCIO BEZERRA BARROS DE SOUZA, professora e escritora para o público infanto-juvenil, promovendo conceitos de cidadania mundial. Ela afirmou que:

“Dizem que a verdadeira missão das ostras, nas profundezas marinhas, é fazer parte da cadeia alimentar, transformando através do seu processo de digestão a matéria orgânica em sais minerais. Acontece, que uma determinada ostra, ao se abrir para cumprir a sua missão, se depara com um enorme e urgente desafio. Um grão de areia penetra-lhe a carne macia e a faz sofrer e para neutralizar esta agressão à própria vida e a própria lição que tomou a si, ela começa a elaborar uma substância nacarada e envolve o grão de areia dessa substância neutralizando a dor, o sofrimento, elaborando a pérola. Nós, as mulheres somos um pouco como as ostras, temos uma missão urgente, enorme, desafiadora de sermos mãe, esposa, mulher e as vezes nos deparamos com grandes desafios e urgentes desafios que nos fazem elaborar nossas pérolas pessoais. As vezes acontece que quando uma ostra acaba de elaborar a sua pérola, ela morre pela exaustão do esforço. As muitas sobrevivem e continuam a sua missão nas profundezas do mar, muitas de nós temos desafios enormes pela vida, e não temos de temer por nossas vidas, pelo amanhã, pelo destino do planeta, enquanto tivermos coragem inata, seiva, fibra. A vida humana material é uma só, mas o planeta, a transcendência, são infinitos, são eternos. Os seres humanos que conseguem se engajar na luta por um mundo melhor, mesmo que não consiga elaborar as suas pérolas, todos estes, todos nós devemos irmanados por um sentimento de coragem, fraternidade, esperança plantar as sementes para um mundo melhor. ... Eu gostaria muito, do fundo do coração que esse microfone pudesse ampliar as batidas do meu coração, iluminada de alegria por estar aqui hoje, honrada e dignificada pela Comunidade Bahá’í do Brasil que me permitiu, junto com tão ilustres mulheres que dignificam a vida humana e o país, estar aqui hoje, junto com todas estas e muitas outras mais que batalham, que lutam. Que Deus nos ajude e nos ilumine, a todas nós, a segunda asa do pássaro, e que a primeira a se manifestar que foi a asa masculina nos esmoreça, somos asas do corpo da mesma ave. Muito Obrigada.”

 


MOEMA LIBERA VIEZZER, cientista social, fundadora da Rede Mulher de Educação e promotora dos direitos da mulher na América Latina, agradeceu o recebimento do seu Prêmio:

“Realmente entendo que aquelas que estão aqui como eu, devem estar também muito emocionadas, por ter a possibilidade de estar aqui entre as pessoas que foram escolhidas para serem contempladas com esse prêmio da Comunidade Bahá’í e gostaria muito de parabenizar a Comunidade Bahá’í por essa iniciativa de através desse prêmio, dar continuidade, ao que as mulheres estão fazendo, tendo se tornado tão presentes no cenário internacional, o que culminou, principalmente, na última Conferência em Pequim.A gente fala muito que é tanta energia dispendida para se chegar a um acordo e depois é tão difícil de trazer para o cotidiano aquilo que foi discutido pelas poucas pessoas que estiveram nessas Conferências Mundiais... A Comunidade Bahá’í ao oferecer esse prêmio logo após Pequim, está demonstrando mais uma vez o seu interesse em buscar, em relação ao aperfeiçoamento das mulheres seres humanos no nosso pequeno planeta e dessas relações novas de equilíbrio, de harmonia entre homens e mulheres, que, como grande destaque deste século protagonizam uma das mais importantes revoluções. ...O primeiro livro que eu escrevi tem como título “Se me deixam falar”, e fala um pouco, assim, do esforço de fazer o que outras mulheres já salientaram, de que muitas mulheres que tem muita sabedoria e mas não têm as possibilidades que as vezes nós temos, podem, através de alguma outra mulher, que de repente se possa comunicar mais, trazer mensagens muito importantes para o mundo. ... e quero aproveitar para dizer que acredito, sem sombra de dúvida, que essa mudança, deverá ser entre homens e mulheres e o termômetro da mudança para o equilíbrio é a harmonia da humanidade com a natureza e é por isso que eu pretendo continuar empenhada como cidadã local e solidária. Muito obrigada.”

 


BENEDITA DA SILVA, a senadora que vem se notabilizando como porta-voz na Câmara Alta do país de uma legião de mulheres, em sua maioria anônimas e sofridas. Ela foi representada nesta solenidade pela Dra. Deyse Benedito, presidente do Geledes-Instituto da Mulher Negra e do SOS Racismo, que pronunciou esta saudação:

“Eu gostaria de cumprimentar a mesa e agradecer em nome da Benedita da Silva a entrega deste prêmio. Por que o prêmio terá a vida, o Prêmio Cidadania Mundial de cada ser humano é o prêmio dado a todos nós, que vivemos, que lutamos pelos direitos humanos. É muito difícil para nós, negros e pobres, sermos considerados cidadãos, num país que teve 500 anos, 300 anos de escravidão esperançosa. Hoje a gente luta por direitos humanos. Uma das maiores violências que a gente vive é o desemprego, é a fome, é a miséria, é a fama que habitam os nossos amigos, nossos companheiros, pessoas do nosso cotidiano. Eu quero alegremente, que esse prêmio Cidadania Mundial, seja entregue também, neste momento, de uma forma simbólica, a todos aqueles que neste momento estão dando a sua vida em nome dos Direitos Humanos, por aquelas crianças que estão nascendo neste momento, pra que elas tenham um futuro melhor, para que possamos viver numa sociedade justa, igualitária, que possamos conviver como seres humanos e dignos que somos da vida. Eu acredito na força de cada um de nós, na mudança para construirmos uma sociedade, uma sociedade que podemos ser considerados seres humanos. Eu agradeço a todos vocês, à força de todas as mulheres deste país, que carregam a vida que tem o poder de transformação em suas atitudes eu entrego o Prêmio. Porque nós somos o mundo, e é treinando que se faz a vida. Muito obrigado. Estou muito emocionada com isso. Eu ofereço este prêmio a todos aqueles que não podem estar aqui neste momento.Às mulheres que estão nos presídios, às mulheres que estão nas ruas, às mulheres que estão lutando pelos seus dia-a-dia, às mulheres das populações indígenas, àquelas mulheres que não são consideradas seres humanos. Eu ofereço este prêmio a elas. Muito obrigada.”

 


DORRIT HARAZIM, jornalista, atuando em uma das mais importantes revistas noticiosas do Brasil, a Revista VEJA, autora de inúmeras reportagens focalizando temas relacionados com a valorização da mulher, foi representada nesta cerimônia pela jornalista mineira Ana Guaranys. Destacamos excertos de sua mensagem datada de 3 de julho de 1996:

“Infelizmente como já indiquei por telefone, não me foi possível reoordenar compromissos anteriormente assumidos para o dia 22 de agosto próximo. Não me será possível retornar ao Brasil para a premiação e retornar ao exterior para dar prosseguimento a uma agenda já fechada. Lamento imensamente. , pois assim não poderei comparecer à entrega do Prêmio Cidadania Mundial... Queiram, sobretudo, cumprimentar as demais agraciadas pelo seu trabalho na promoção dos direitos e do espaço da mulher. Com votos de sucesso para o Prêmio Cidadania Mundial...”

 


ELZA CORREIA PEREIRA MULLER, militante em movimentos sociais desde a década de 60, assessora a criação de Clubes de Mães e Organizações de Mulheres, fez o seguinte pronunciamento ao receber o Prêmio:

“Boa noite a todos. Eu queria cumprimentar a mesa e as autoridades já nomi-nadas, cumprimentar minhas companheiras e companheiros que estão recebendo esse título desta noite, agradecer a presença dos meus amigos da Fé Bahá’í de Londrina, que aqui estão, às minhas companheiras do partido PC do B, que também vieram me honrar com a presença aqui neste evento. Queria agradecer, profundamente a Fé Bahá’í do Brasil, por esta honra. Me sinto honrada pelo título que recebo nesta noite. Tenho pautado minha vida, desde os tempos de militante estudantil, na luta e na tarefa de ajudar na construção de uma nova ordem social de uma nova sociedade, algo de fato. ...Eu gostaria de expor também, que é justíssimo esse prêmio desta noite, mas eu queria muito, é contribuir para que a gente continue com a batalha, essa luta que é de todos nós. E que ela receba, principalmente, porque temos percebido, mais do que nunca, que é fundamental que a mulher coloque a sua identidade, seu trabalho, a sua competência a serviço da humanidade. Se tivéssemos dúvidas, teríamos que ter dito todas elas na própria Conferência Mundial da Mulher em Pequim, quando 40 mil mulheres de 139 países presentes desenvolveram ações, mostrando que a cidadã ainda é maltrada em todo planeta. É preciso que a gente, de fato coloque, de uma vez por todas, por todas as mulheres das esferas econômicas, políticas, sociais que ela se coloque fundamentalmente, a mulher nas esferas do poder, é para pensar no nosso planeta. Com este prêmio, eu saio daqui com esperança de continuar minha luta, não só pela equidade entre homens e mulheres, mas, pelo sonho de que com a presença da mulher nestas esferas que acabamos de colocar, a gente possa, reger de fato, no planeta, aonde não se repita mais Aucshwitz, Bósnia e nem Hiroshima. Muito obrigada a todos."

 


HERILDA BALDUÍNO, por sua dinâmica atuação no Conselho Federal da OAB, notadamente na defesa dos direitos humanos das minorias, pronunciou estas palavras:

“...este é para mim, um dos momentos mais importantes da minha vida. É importante porque ele é dedicado a esta luta sem trégua para ser a voz dos que não podem falar.... Agradeço com todo o meu coração e com todo o meu espírito, com toda a minha fé, com toda a minha força e pedir, que neste momento, essa luta que está aí crescente, que faça crescer os direitos humanos dos povos do Planeta Terra, que faz com que nos façam iguais homens, mulheres independente de raça, cor, família, filosofia, todas essas palavras e que no fundo, nós todos somos todos iguais. Somos todos iguais. Muito obrigada.”

 


SÔNIA SHAFA, assistente social, atuando em vários movimentos sociais e desenvolvendo projetos de resgate da cidadania. Ao receber seu Prêmio, declarou:

“... quero dedicar este prêmio a todas as meninas do mundo, em especial, as meninas da minha terra, as nordestinas pobres e faço um apelo a todas as mulheres, ex-companheiras a que estimo presentes. A gente se esforçar unindo o nosso ideal, e também mundial, sob a questão da capacitação, da formação e da educação das meninas do Brasil. Obrigada.”

 


TIZUKA YAMASAKI, por sua contribuição no cinema, favorecendo os laços de estima e amizade nipo-brasileira. Ela agradeceu o prêmio com estas palavras:

“Eu não posso falar não, porque eu não sei falar tão bem. Eu filmo, ou tento filmar. Eu só queria dizer o seguinte, que cinema pra mim é uma forma de tentar conhecer o meu país, tentar conhecer esse povo brasileiro e tentar conhecer o imaginário e consequentemente, tentar me conhecer. E eu quero continuar fazendo isso e acho muito bom receber um prêmio como esse, porque eu acho que é a melhor forma de orientação ou referencial de nos dizer que a gente está no caminho certo. Muito obrigada a todos.”

 


YVONE BEZERRA DE MELLO, defensora dos Direitos Humanos, e em especial dos nossos meninos e meninas de rua. Em discurso emocionado, afirmou:

“Cada prêmio tem uma emoção diferente. Eu acho que o prêmio, ele sempre nos deixa mais fortalecida para continuar nosso trabalho. Receber um prêmio no Brasil, uma vitória, é a ação do trabalho em evidência. Aqui não é, eu posso dizer a vocês que eu fui uma das mulheres mais massacradas desse país, eu fui incompreendida. Eu acho que ninguém foi mais cuspida na cara do que eu, nas ruas da minha cidade, do Rio de Janeiro. A última cuspida me veio domingo passado. Porque sou protetora de bandidos, o que ninguém entende o serviço social às crianças, essas crianças não são cidadãs, esse país não tem futuro. Esse prêmio é o prêmio das crianças vivas, que me levaram até aqui. Mas é também o prêmio das crianças mortas. Eu quero um minuto de silêncio para as duas últimas assassinadas no Rio de Janeiro. A Andrea, de 14 anos, e o último que não tem nome, de 8 anos de idade, assassinado pela guarnição militar, quando ia comprar drogas no morro, com um tiro na cabeça. No Rio de Janeiro foi palco, nestes últimos 10 anos, agora mais, por que esses são os dados de 4 meses atrás isso de 6.100 crianças e jovens assassinados. Muitos violentamente, principalmente com armas de fogo. Todas essas crianças e jovens assassinadas tinham uma ligação com o narcotráfico, porque a droga tomou conta do Brasil. Cansada de ver tantas mortes só nos últimos vinte dias quinze que caíram nas minhas mãos, porque as denúncias me vem por fax, e aí eu tenho que atender às famílias e tentar fazer com que os processos e esses inquéritos saiam do anonimato. É uma coisa muito difícil. E eu me envolvo. ...Então isso me encorajou a lançar uma Campanha Internacional que vai começar semana que vem em Estocolmo, onde eu fui convidada do Governo Sueco para abrir a Conferência de Proteção à Infância e eu vou lançar uma “Campanha Experiência e Controle de Crianças com o Narcotráfico Internacional”. Essa vai ser uma guerra muito dura, mas uma guerra que eu espero que tenha sucesso, e eu acho que eu estou no caminho certo porque entrando na favela, há mais ou menos 4 ou 5 dias, um traficante chegou perto de mim e disse: “Dona Ivone, aqui nós não usamos criança.” Então, eu acho que o caminho é esse. Eu queria o apoio de todos vocês, para que esta campanha realmente, fosse uma campanha internacional. A minha idéia é fazer ver aos jovens do mundo inteiro que atrás de um cigarro de maconha ou de cocaína, eles são coniventes em assassinatos de crianças do terceiro mundo, ou nos países em desenvolvimento. Isso, eu acho que dava certo porque em todas as palestras que eu faço sobre drogas, quando eu menciono essa conivência com a morte eles se tocam, os jovens se tocam. Mas, eu sozinha não vou conseguir. Eu conto com a ajuda de todos vocês, e que a partir de agora, esse seja um mote importante à coninvência de viciados em drogas com assassinatos de crianças. Obrigada.”

 


GRUPO MULHER - EDUCAÇÃO INDÍGENA - GRUMIN, por seus destacados esforços na preservação da cultura indígena e elevação da auto-estima desses povos sofridos. Eliane Potiguara, a presidente e fundadora do Grumin pronunciou o seguinte discurso:

“Que Tupã proteja todos vocês e derrame sobre todas as cabeças amor, sabedoria, verdade e paz. E que nossos ancestrais indígenas, todos, se levantem para receber esse prêmio, que não é meu, é de todos os povos indígenas do Brasil e de todos os povos indígenas do mundo inteiro... Que por ser indígenas, os primeiros habitantes do planeta Terra sofreram toda essa discriminação racial e social. Gostaria imensamente de agradecer este prêmio, que é um privilégio para o GRUMIM (Grupo Mulher de Educação Indígena), estar aqui, em pessoa para receber este prêmio. Eliane Potiguara, que não é só Eliane, é Potiguara das nação Indígena Potiguara. Que come camarão, é da nação brasileira, é do Planeta Terra, é do universo. Eu sinto que este contexto, a maior honra e a maior alegria de estar com vocês repartindo este momento de honra. O momento que fortalece, o momento que nos dignifica assim, como todas vocês, que em onze anos de luta, sofrem, choram, perdem famílias, perdem, as vezes, a sua própria individualidade, perdem inclusive o seu próprio coração, que às vezes se torna duro, não consegue nem mais chorar, pra tentar um mundo melhor, pra nossos filhos, pra nosso povo, pra todo o ser humano. E eu dedico esse prêmio a todas mulheres indígenas, a todas as crianças, a todas as meninas, a todos os jovens, a todos os velhinhos anciões, às nossas avozinhas, barrigas que ficam igual o povo brasileiro, também. Eu dedico também este prêmio às mulheres do GRUMIM de quase 15 anos vínhamos trabalhando pra tornar visível a situação de opressão e discriminação que sofrem as mulheres indígenas e mais vários indígenas, nas áreas de conflito social e dentro das próprias áreas indígenas e é com seus próprios problemas domésticos, vimos nossa luta, contando da visibilidade à situação das mulheres indígenas e que elas possam ter direito à essa cidadania, porque, essa unidade dos povos indígenas, que politicamente não são considerados maiores de idade, apesar de nós já termos conquistado algumas coisas concretas na constituição de 1988, a nível teórico, mas a nível político, nós povos indígenas, ainda somos considerados menores de idade. (...)

 

 
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