LYGIA FAGUNDES TELLES, escritora, membro da
Academia Brasileira de Letras, a mulher atuante na promoção
da cultura deste país, afirmou ao agradecer o Prêmio:
“A
revolução mais importante do Século
XX, é a revolução da mulher, segundo
o pensador, jurista Norberto Bobbio. E esta revolução
da maior importância tem aqui hoje, representadas
revolucionárias mais sérias do século
do qual estamos nos despedindo. O fato é que essa
revolução verdadeira, é a revolução
do pensamento, é a revolução da inteligência,
é a revolução da luta verdadeira da
mulher que tem buscado de todas as formas e por todos os
meios mais justos e as vezes com desespero, as vezes com
persistência, mas sempre com tamanha coragem, que
é a mais importante virtude humana. Com a coragem,
levantamos a sua bandeira em prol daquelas que não
podem exprimir, que não podem lutar, ....que pela
própria condição humana, estão
impedidas da palavra e do gesto. Eu sou uma escritora Senhoras
e Senhores, eu luto com a palavra, é uma luta dura,
é uma luta solitária, eu agora mesmo estou
falando e com dificuldades, porque eu escrevo eu não
falo. Contudo, eu queria dizer, que o escritor, essa escritora,
tem procurado através da palavra, levar ao meu próximo
a palavra sempre maior que é a virtude da coragem,
que que inclui as três virtudes na teologia que é
Fé, a Esperança e a Caridade. É revoltante
escritores que não são bons, que não
tem generosidade no coração, escritores que
não são caridosos, que não tem fé,
que não tem esperança. Escritores bons são
aqueles que acreditam nas virtudes teológicas e que
acreditam em uma palavra escrita como uma fonte de volta
ao próximo, ajudar esse próximo nessa luta
tão desesperada, neste planeta enfermo, sim, nosso
planeta é enfermo, nós temos que cuidar dele
e temos que ter esperança para que ele ao menos consiga
essa virada, nossa virada, esse desespero que está
sendo essa mudança do medo e ao menos que consiga
isto, levar ao próximo mais compaixão,com-pai-xão,
olha essa palavra, repasse essa palavra pelo menos “compaixão”,
levar compaixão ao seu próximo através
principalmente da liberdade e da justiça. Temos aqui
premiadas mulheres que são lutadoras, todas lutadoras,
todas elas estão dentro desta revolução,
repito, a mais importante revolução do século
XX. Eu queria terminar, esta saudação tão
desalinhavada eu não sei falar, eu costuro quando
escrevo, quando eu falo as coisas saem fragmentadas. Cabem
aos Senhores e as Senhoras costurar essas minhas palavras,
então, eu queria terminar esta desalinhavada saudação
às revolucionárias do século XX, com
o pensamento do maior escritor da língua portuguesa
de todos os tempos que se chama Machado de Assis: “Esta
é a glória que fica, eleva, honra e consola.
Muito obrigada.”
CELINA
DO AMARAL PEIXOTO, socióloga, diretora
do Arquivo Nacional, ora representando o Brasil na The Comission
on Global Governance, enviou a seguinte Mensagem:
“No limiar do próximo século, o mundo
se configura e este mundo apresenta novos riscos, novos
problemas e novos desafios. Mas traz também a esperança
concreta de podermos ingressar numa hora mais segura e justa.
Hoje, o poder coletivo das pessoas para planejar o futuro
é maior do que nunca, e a necessidade de exercê-lo
mais é periódica. O principal desafio desta
geração é mobilizar só o poder,
para tornar a vida mais democrática, segura no século
XXI. O mundo necessita de uma nova visão que estimule
as pessoas a atingir níveis mais altos de cooperação
em áreas que compartilhem os mesmos interesses e
o mesmo destino. Essa nova visão do mundo é
concentrada nas pessoas e ressalta as necessidades de valores
como este. De uma ética cívica, global e uma
liderança esclarecida que oriente os povos e as nações
na comunidade global. O desenvolvimento da governança
global faz parte da evolução do esforço
humano para organizar a vida no planeta, e esse é
um processo que estará sempre em andamento. O desafio
é alcançado em quem viver, de tal forma que
a questão de ações globais não
seja só de interesses de toda a comunidade na estrutura
sustentável mas, também se inspire nos valores
humanos básicos e na busca de amparo à mobilização
mundial, a vantagem da universalidade global. Não
deve haver dúvidas quanto o caminho a seguir mas,
o caminho certo requer afirmação de valores,
de intervencionalismo e primados no império da lei,
no clamor mundial em reformas institucionais que garantam
e mantenham tudo isso. A prática da diversidade na
unidade de que trata nosso atual encontro é um convite
à ação em outra esfera mas sobretudo,
por uma melhor administração da sobrevivência,
melhores formas de compartilhar a diversidade. Enfim, melhores
formas de viver juntos numa comunidade global, que há
prática de humanidade. Muito obrigada.”
ODILA
MARIA FRATINI, professora e psicóloga
com diversos trabalhos de assistência às populações
carentes, afirmou ao receber o seu Prêmio:
“...Estou
baseada na frase: Servir o bem, faz bem. Me dediquei desde
jovem às crianças, muitas crianças
dessa forma, deixaram de morrer, pela iniciativa de uma
jovem de quinze anos que já iniciou este trabalho.
Por que me dediquei a isto? Porque a criança não
pediu para nascer. Não pediu para nascer sem pai,
sem roupa, sem comida, sem agasalho. Muita criança
morre. ...onde não tem ninguém que faça
justiça por ela, ela que não tem força
para gritar, pernas para correr, braços para se defender.
E é por isso, que nós adultos, que recebemos
de Deus, todos esses poderes, temos a sorte de crescer,
de chegar à nossa altura como adultos, temos a obrigação,
o dever, de fazer justiça à essas crianças.
Nós todos devemos responder diante de Deus, diante
do Supremo Criador esse dom que Deus nos deu, se nós
não fizermos uso. Todo mundo nasceu com o dever e
com o direito de crescer com saúde, paz e prosperidade.
Nós tivemos esse dom, esse poder, essa graça
e devemos dar a esperança para muitos outros, senão
nós não teremos ouvido aquela frase que o
próprio Cristo disse: “Deixai vir a mim as
criancinhas, porque delas é o reino dos céus”.
Há muita injustiça, muita falta de amor, há
muitas crianças e jovens carentes. E só nós
olharmos a chacina da Candelária, aonde estão
os autores dessa chacina? Obrigado.”
IVONE
AMÂNCIO BEZERRA BARROS DE SOUZA, professora
e escritora para o público infanto-juvenil, promovendo
conceitos de cidadania mundial. Ela afirmou que:
“Dizem
que a verdadeira missão das ostras, nas profundezas
marinhas, é fazer parte da cadeia alimentar, transformando
através do seu processo de digestão a matéria
orgânica em sais minerais. Acontece, que uma determinada
ostra, ao se abrir para cumprir a sua missão, se
depara com um enorme e urgente desafio. Um grão de
areia penetra-lhe a carne macia e a faz sofrer e para neutralizar
esta agressão à própria vida e a própria
lição que tomou a si, ela começa a
elaborar uma substância nacarada e envolve o grão
de areia dessa substância neutralizando a dor, o sofrimento,
elaborando a pérola. Nós, as mulheres somos
um pouco como as ostras, temos uma missão urgente,
enorme, desafiadora de sermos mãe, esposa, mulher
e as vezes nos deparamos com grandes desafios e urgentes
desafios que nos fazem elaborar nossas pérolas pessoais.
As vezes acontece que quando uma ostra acaba de elaborar
a sua pérola, ela morre pela exaustão do esforço.
As muitas sobrevivem e continuam a sua missão nas
profundezas do mar, muitas de nós temos desafios
enormes pela vida, e não temos de temer por nossas
vidas, pelo amanhã, pelo destino do planeta, enquanto
tivermos coragem inata, seiva, fibra. A vida humana material
é uma só, mas o planeta, a transcendência,
são infinitos, são eternos. Os seres humanos
que conseguem se engajar na luta por um mundo melhor, mesmo
que não consiga elaborar as suas pérolas,
todos estes, todos nós devemos irmanados por um sentimento
de coragem, fraternidade, esperança plantar as sementes
para um mundo melhor. ... Eu gostaria muito, do fundo do
coração que esse microfone pudesse ampliar
as batidas do meu coração, iluminada de alegria
por estar aqui hoje, honrada e dignificada pela Comunidade
Bahá’í do Brasil que me permitiu, junto
com tão ilustres mulheres que dignificam a vida humana
e o país, estar aqui hoje, junto com todas estas
e muitas outras mais que batalham, que lutam. Que Deus nos
ajude e nos ilumine, a todas nós, a segunda asa do
pássaro, e que a primeira a se manifestar que foi
a asa masculina nos esmoreça, somos asas do corpo
da mesma ave. Muito Obrigada.”
MOEMA
LIBERA VIEZZER, cientista social, fundadora
da Rede Mulher de Educação e promotora dos
direitos da mulher na América Latina, agradeceu o
recebimento do seu Prêmio:
“Realmente
entendo que aquelas que estão aqui como eu, devem
estar também muito emocionadas, por ter a possibilidade
de estar aqui entre as pessoas que foram escolhidas para
serem contempladas com esse prêmio da Comunidade Bahá’í
e gostaria muito de parabenizar a Comunidade Bahá’í
por essa iniciativa de através desse prêmio,
dar continuidade, ao que as mulheres estão fazendo,
tendo se tornado tão presentes no cenário
internacional, o que culminou, principalmente, na última
Conferência em Pequim.A gente fala muito que é
tanta energia dispendida para se chegar a um acordo e depois
é tão difícil de trazer para o cotidiano
aquilo que foi discutido pelas poucas pessoas que estiveram
nessas Conferências Mundiais... A Comunidade Bahá’í
ao oferecer esse prêmio logo após Pequim, está
demonstrando mais uma vez o seu interesse em buscar, em
relação ao aperfeiçoamento das mulheres
seres humanos no nosso pequeno planeta e dessas relações
novas de equilíbrio, de harmonia entre homens e mulheres,
que, como grande destaque deste século protagonizam
uma das mais importantes revoluções. ...O
primeiro livro que eu escrevi tem como título “Se
me deixam falar”, e fala um pouco, assim, do esforço
de fazer o que outras mulheres já salientaram, de
que muitas mulheres que tem muita sabedoria e mas não
têm as possibilidades que as vezes nós temos,
podem, através de alguma outra mulher, que de repente
se possa comunicar mais, trazer mensagens muito importantes
para o mundo. ... e quero aproveitar para dizer que acredito,
sem sombra de dúvida, que essa mudança, deverá
ser entre homens e mulheres e o termômetro da mudança
para o equilíbrio é a harmonia da humanidade
com a natureza e é por isso que eu pretendo continuar
empenhada como cidadã local e solidária. Muito
obrigada.”
BENEDITA
DA SILVA, a senadora que vem se notabilizando
como porta-voz na Câmara Alta do país de uma
legião de mulheres, em sua maioria anônimas
e sofridas. Ela foi representada nesta solenidade pela Dra.
Deyse Benedito, presidente do Geledes-Instituto da Mulher
Negra e do SOS Racismo, que pronunciou esta saudação:
“Eu
gostaria de cumprimentar a mesa e agradecer em nome da Benedita
da Silva a entrega deste prêmio. Por que o prêmio
terá a vida, o Prêmio Cidadania Mundial de
cada ser humano é o prêmio dado a todos nós,
que vivemos, que lutamos pelos direitos humanos. É
muito difícil para nós, negros e pobres, sermos
considerados cidadãos, num país que teve 500
anos, 300 anos de escravidão esperançosa.
Hoje a gente luta por direitos humanos. Uma das maiores
violências que a gente vive é o desemprego,
é a fome, é a miséria, é a fama
que habitam os nossos amigos, nossos companheiros, pessoas
do nosso cotidiano. Eu quero alegremente, que esse prêmio
Cidadania Mundial, seja entregue também, neste momento,
de uma forma simbólica, a todos aqueles que neste
momento estão dando a sua vida em nome dos Direitos
Humanos, por aquelas crianças que estão nascendo
neste momento, pra que elas tenham um futuro melhor, para
que possamos viver numa sociedade justa, igualitária,
que possamos conviver como seres humanos e dignos que somos
da vida. Eu acredito na força de cada um de nós,
na mudança para construirmos uma sociedade, uma sociedade
que podemos ser considerados seres humanos. Eu agradeço
a todos vocês, à força de todas as mulheres
deste país, que carregam a vida que tem o poder de
transformação em suas atitudes eu entrego
o Prêmio. Porque nós somos o mundo, e é
treinando que se faz a vida. Muito obrigado. Estou muito
emocionada com isso. Eu ofereço este prêmio
a todos aqueles que não podem estar aqui neste momento.Às
mulheres que estão nos presídios, às
mulheres que estão nas ruas, às mulheres que
estão lutando pelos seus dia-a-dia, às mulheres
das populações indígenas, àquelas
mulheres que não são consideradas seres humanos.
Eu ofereço este prêmio a elas. Muito obrigada.”
DORRIT
HARAZIM, jornalista, atuando em uma das mais
importantes revistas noticiosas do Brasil, a Revista VEJA,
autora de inúmeras reportagens focalizando temas
relacionados com a valorização da mulher,
foi representada nesta cerimônia pela jornalista mineira
Ana Guaranys. Destacamos excertos de sua mensagem datada
de 3 de julho de 1996:
“Infelizmente
como já indiquei por telefone, não me foi
possível reoordenar compromissos anteriormente assumidos
para o dia 22 de agosto próximo. Não me será
possível retornar ao Brasil para a premiação
e retornar ao exterior para dar prosseguimento a uma agenda
já fechada. Lamento imensamente. , pois assim não
poderei comparecer à entrega do Prêmio Cidadania
Mundial... Queiram, sobretudo, cumprimentar as demais agraciadas
pelo seu trabalho na promoção dos direitos
e do espaço da mulher. Com votos de sucesso para
o Prêmio Cidadania Mundial...”
ELZA
CORREIA PEREIRA MULLER, militante em movimentos
sociais desde a década de 60, assessora a criação
de Clubes de Mães e Organizações de
Mulheres, fez o seguinte pronunciamento ao receber o Prêmio:
“Boa
noite a todos. Eu queria cumprimentar a mesa e as autoridades
já nomi-nadas, cumprimentar minhas companheiras e
companheiros que estão recebendo esse título
desta noite, agradecer a presença dos meus amigos
da Fé Bahá’í de Londrina, que
aqui estão, às minhas companheiras do partido
PC do B, que também vieram me honrar com a presença
aqui neste evento. Queria agradecer, profundamente a Fé
Bahá’í do Brasil, por esta honra. Me
sinto honrada pelo título que recebo nesta noite.
Tenho pautado minha vida, desde os tempos de militante estudantil,
na luta e na tarefa de ajudar na construção
de uma nova ordem social de uma nova sociedade, algo de
fato. ...Eu gostaria de expor também, que é
justíssimo esse prêmio desta noite, mas eu
queria muito, é contribuir para que a gente continue
com a batalha, essa luta que é de todos nós.
E que ela receba, principalmente, porque temos percebido,
mais do que nunca, que é fundamental que a mulher
coloque a sua identidade, seu trabalho, a sua competência
a serviço da humanidade. Se tivéssemos dúvidas,
teríamos que ter dito todas elas na própria
Conferência Mundial da Mulher em Pequim, quando 40
mil mulheres de 139 países presentes desenvolveram
ações, mostrando que a cidadã ainda
é maltrada em todo planeta. É preciso que
a gente, de fato coloque, de uma vez por todas, por todas
as mulheres das esferas econômicas, políticas,
sociais que ela se coloque fundamentalmente, a mulher nas
esferas do poder, é para pensar no nosso planeta.
Com este prêmio, eu saio daqui com esperança
de continuar minha luta, não só pela equidade
entre homens e mulheres, mas, pelo sonho de que com a presença
da mulher nestas esferas que acabamos de colocar, a gente
possa, reger de fato, no planeta, aonde não se repita
mais Aucshwitz, Bósnia e nem Hiroshima. Muito obrigada
a todos."
HERILDA
BALDUÍNO, por sua dinâmica atuação
no Conselho Federal da OAB, notadamente na defesa dos direitos
humanos das minorias, pronunciou estas palavras:
“...este
é para mim, um dos momentos mais importantes da minha
vida. É importante porque ele é dedicado a
esta luta sem trégua para ser a voz dos que não
podem falar.... Agradeço com todo o meu coração
e com todo o meu espírito, com toda a minha fé,
com toda a minha força e pedir, que neste momento,
essa luta que está aí crescente, que faça
crescer os direitos humanos dos povos do Planeta Terra,
que faz com que nos façam iguais homens, mulheres
independente de raça, cor, família, filosofia,
todas essas palavras e que no fundo, nós todos somos
todos iguais. Somos todos iguais. Muito obrigada.”
SÔNIA
SHAFA, assistente social, atuando em vários
movimentos sociais e desenvolvendo projetos de resgate da
cidadania. Ao receber seu Prêmio, declarou:
“...
quero dedicar este prêmio a todas as meninas do mundo,
em especial, as meninas da minha terra, as nordestinas pobres
e faço um apelo a todas as mulheres, ex-companheiras
a que estimo presentes. A gente se esforçar unindo
o nosso ideal, e também mundial, sob a questão
da capacitação, da formação
e da educação das meninas do Brasil. Obrigada.”
TIZUKA
YAMASAKI, por sua contribuição
no cinema, favorecendo os laços de estima e amizade
nipo-brasileira. Ela agradeceu o prêmio com estas
palavras:
“Eu
não posso falar não, porque eu não
sei falar tão bem. Eu filmo, ou tento filmar. Eu
só queria dizer o seguinte, que cinema pra mim é
uma forma de tentar conhecer o meu país, tentar conhecer
esse povo brasileiro e tentar conhecer o imaginário
e consequentemente, tentar me conhecer. E eu quero continuar
fazendo isso e acho muito bom receber um prêmio como
esse, porque eu acho que é a melhor forma de orientação
ou referencial de nos dizer que a gente está no caminho
certo. Muito obrigada a todos.”
YVONE
BEZERRA DE MELLO, defensora dos Direitos Humanos,
e em especial dos nossos meninos e meninas de rua. Em discurso
emocionado, afirmou:
“Cada
prêmio tem uma emoção diferente. Eu
acho que o prêmio, ele sempre nos deixa mais fortalecida
para continuar nosso trabalho. Receber um prêmio no
Brasil, uma vitória, é a ação
do trabalho em evidência. Aqui não é,
eu posso dizer a vocês que eu fui uma das mulheres
mais massacradas desse país, eu fui incompreendida.
Eu acho que ninguém foi mais cuspida na cara do que
eu, nas ruas da minha cidade, do Rio de Janeiro. A última
cuspida me veio domingo passado. Porque sou protetora de
bandidos, o que ninguém entende o serviço
social às crianças, essas crianças
não são cidadãs, esse país não
tem futuro. Esse prêmio é o prêmio das
crianças vivas, que me levaram até aqui. Mas
é também o prêmio das crianças
mortas. Eu quero um minuto de silêncio para as duas
últimas assassinadas no Rio de Janeiro. A Andrea,
de 14 anos, e o último que não tem nome, de
8 anos de idade, assassinado pela guarnição
militar, quando ia comprar drogas no morro, com um tiro
na cabeça. No Rio de Janeiro foi palco, nestes últimos
10 anos, agora mais, por que esses são os dados de
4 meses atrás isso de 6.100 crianças e jovens
assassinados. Muitos violentamente, principalmente com armas
de fogo. Todas essas crianças e jovens assassinadas
tinham uma ligação com o narcotráfico,
porque a droga tomou conta do Brasil. Cansada de ver tantas
mortes só nos últimos vinte dias quinze que
caíram nas minhas mãos, porque as denúncias
me vem por fax, e aí eu tenho que atender às
famílias e tentar fazer com que os processos e esses
inquéritos saiam do anonimato. É uma coisa
muito difícil. E eu me envolvo. ...Então isso
me encorajou a lançar uma Campanha Internacional
que vai começar semana que vem em Estocolmo, onde
eu fui convidada do Governo Sueco para abrir a Conferência
de Proteção à Infância e eu vou
lançar uma “Campanha Experiência e Controle
de Crianças com o Narcotráfico Internacional”.
Essa vai ser uma guerra muito dura, mas uma guerra que eu
espero que tenha sucesso, e eu acho que eu estou no caminho
certo porque entrando na favela, há mais ou menos
4 ou 5 dias, um traficante chegou perto de mim e disse:
“Dona Ivone, aqui nós não usamos criança.”
Então, eu acho que o caminho é esse. Eu queria
o apoio de todos vocês, para que esta campanha realmente,
fosse uma campanha internacional. A minha idéia é
fazer ver aos jovens do mundo inteiro que atrás de
um cigarro de maconha ou de cocaína, eles são
coniventes em assassinatos de crianças do terceiro
mundo, ou nos países em desenvolvimento. Isso, eu
acho que dava certo porque em todas as palestras que eu
faço sobre drogas, quando eu menciono essa conivência
com a morte eles se tocam, os jovens se tocam. Mas, eu sozinha
não vou conseguir. Eu conto com a ajuda de todos
vocês, e que a partir de agora, esse seja um mote
importante à coninvência de viciados em drogas
com assassinatos de crianças. Obrigada.”
GRUPO
MULHER - EDUCAÇÃO INDÍGENA - GRUMIN,
por seus destacados esforços na preservação
da cultura indígena e elevação da auto-estima
desses povos sofridos. Eliane Potiguara, a presidente e
fundadora do Grumin pronunciou o seguinte discurso:
“Que
Tupã proteja todos vocês e derrame sobre todas
as cabeças amor, sabedoria, verdade e paz. E que
nossos ancestrais indígenas, todos, se levantem para
receber esse prêmio, que não é meu,
é de todos os povos indígenas do Brasil e
de todos os povos indígenas do mundo inteiro... Que
por ser indígenas, os primeiros habitantes do planeta
Terra sofreram toda essa discriminação racial
e social. Gostaria imensamente de agradecer este prêmio,
que é um privilégio para o GRUMIM (Grupo Mulher
de Educação Indígena), estar aqui,
em pessoa para receber este prêmio. Eliane Potiguara,
que não é só Eliane, é Potiguara
das nação Indígena Potiguara. Que come
camarão, é da nação brasileira,
é do Planeta Terra, é do universo. Eu sinto
que este contexto, a maior honra e a maior alegria de estar
com vocês repartindo este momento de honra. O momento
que fortalece, o momento que nos dignifica assim, como todas
vocês, que em onze anos de luta, sofrem, choram, perdem
famílias, perdem, as vezes, a sua própria
individualidade, perdem inclusive o seu próprio coração,
que às vezes se torna duro, não consegue nem
mais chorar, pra tentar um mundo melhor, pra nossos filhos,
pra nosso povo, pra todo o ser humano. E eu dedico esse
prêmio a todas mulheres indígenas, a todas
as crianças, a todas as meninas, a todos os jovens,
a todos os velhinhos anciões, às nossas avozinhas,
barrigas que ficam igual o povo brasileiro, também.
Eu dedico também este prêmio às mulheres
do GRUMIM de quase 15 anos vínhamos trabalhando pra
tornar visível a situação de opressão
e discriminação que sofrem as mulheres indígenas
e mais vários indígenas, nas áreas
de conflito social e dentro das próprias áreas
indígenas e é com seus próprios problemas
domésticos, vimos nossa luta, contando da visibilidade
à situação das mulheres indígenas
e que elas possam ter direito à essa cidadania, porque,
essa unidade dos povos indígenas, que politicamente
não são considerados maiores de idade, apesar
de nós já termos conquistado algumas coisas
concretas na constituição de 1988, a nível
teórico, mas a nível político, nós
povos indígenas, ainda somos considerados menores
de idade. (...)
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