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A vida de Bahá'u'lláh é uma vida,
por todos os motivos, incomum. Nosso pensamento ocidental,
acostumado a mensurar por parâmetros lineares
a vida de qualquer biografado, sente-se tolhido neste
caso. Um Personagem como Bahá’u’lláh encontra
o palco do mundo pequeno para conter aquele Espírito
que, vez por outra, toma a forma de "templo humano"
e "habita entre nós". É nada menos que
"o verbo feito carne". Sua influência ultrapassa
os limites de Sua época, impulsionando significativamente
a civilização.
A verdade é que se torna uma dessas "missões
impossíveis" querer circunscrever nosso Biografado
na forma linear do ciclo nascimento/morte. O desafio
é: como descrever o que é puro Espírito?
Daí,
decorre uma segunda questão: Como apresentar
Esta vida se não por parâmetros a que estamos
acostumados? Buscarei me aventurar nesta trilha, embora
convencido de que as palavras serão toscas para
transmitir de forma adequada quem foi Bahá'u'lláh.
A característica predominante em sua vida é
a qualidade de um amor intenso pelo gênero humano.
Bahá'u'lláh nasceu Teerã de 1817,
entre a alvorada e o nascer do sol de 12 de novembro.
Filho de um vizir da corte persa, logo se sobressaiu
pela elevada sabedoria e concederam-Lhe o título
de "Pai dos Pobres" e fizeram com que fosse, ainda que
informalmente, um conselheiro da Corte..Sua juventude
teve tranquilidade até 1844, data em que abraçou
com intrepidez e ardor a Causa do Báb, uma Causa
que trazia novo alento de vida não apenas à
Pérsia mas, como se veria nos anos e décadas
seguintes, ao próprio corpo da humanidade e estava
destinada a promover a maior revolução
espiritual de todos os tempos. Primeiro, comovendo os
alicerces da sociedade persa, engolfando em um mutirão
messiânico, ricos e pobres, cultos e iletrados,
homens e mulheres de todas as idades. E, progressivamente
conquistando corações e mentes além
fronteiras. Ninguém poderia ser indiferente ao
que estava se desenvolvendo naqueles anos.
Convém mencionar algumas características
sobre a Pérsia, hoje Irã, em meados do
século passado. Um relato histórico sobre
aquela época é enfático:
Todos os observadores concordam em representar a Pérsia
como uma nação débil e atrasada,
dividida em si por práticas corruptas e feroz
intolerância. Ineficiência e miséria
- frutos da decadência moral - grassavam em todo
lugar. Nas camadas mais altas até as mais baixas,
parecia não haver capacidade para se efetivar
reformas nem sequer a vontade de instruí-las
seriamente. A vaidade nacional pregava uma grandiosa
auto-satisfação. Uma mortalha de imobilidade
pairava sobre todas as coisas, e uma prevalecente paralisia
mental tornava impossível qualquer desenvolvimento.
Recebida com um banho de sangue, acirrando os ânimos
do fanatismo e da intolerância religiosa do Islã,
berço de onde nascia a nova Revelação,
a verdade é que a Causa do Báb na medida
em que trazia a Voz de Deus aos ouvidos de milhões
de pessoas, transformou de forma incontestável
a vida social, moral e espiritual da Pérsia.
O país não foi mais o mesmo. O mundo não
foi mais o mesmo.
O próprio Autor de tão estupenda revelação
foi alvo de perseguição e violências
de um clero muçulmano rebelado à sua Palavra
e de um sistema teocrático de governo carcomido
pela corrupção e ambição
sem paralelos dentre as monarquias então existentes
no contexto internacional.
Aprisionado em fortalezas nas regiões montanhosas
do país, como as de Mah’ku e Chihriq,
o Báb, a despeito de dias tão turbulentos,
esteve placidamente a transmitir seus novos ensinamentos
e a alimentar a chama que se ateou nos corações
que atenderam a Seu chamado. Vinte mil pessoas foram
trucidadas pelo crime de não renegarem a nova
Fé. Cenas trágicas da alvorada de uma
nova Fé, que encontrava claros paralelos com
a saudação que a mesma humanidade, muitas
gerações antes, oferecera a Jesus de Nazaré.
Na descrição do renomado historiador Ernest
Renan, temos uma visão do heroísmo suscitado
naqueles dias:
"Um dia que talvez não tenha igual na história
do mundo, foi aquele em que ocorreu o grande massacre
de babís em Teerã. Avançavam,
entre carrascos, mulheres e crianças com pavios
acesos, flamejantes, nas feridas. As vítimas
eram arrastadas com cordas e obrigadas a caminhar
com chicotadas. Quando chegavam ao lugar do suplício,
lhes era oferecida a vida novamente desde que abjurassem
sua Fé. Um algoz disse a um pai que se não
abjurasse, serraria o pescoço de seus dois
filhos sobre seu peito - eram dois garotos, o maior
dos quais tinha quatorze anos... vermelhos com seu
próprio sangue, com as carnes dilaceradas,
escutavam calmamente o diálogo - o pai respondeu,
deitando-se no chão, que estava pronto e, o
maior dos filhos, reclamando com ímpeto os
direitos de primogênito, pediu para ser decapitado
primeiro..."
Foi a esta Causa que Mirzá Husayn 'Ali, depois
cognominado Bahá’u’lláh, dedicou sua vida:
Tinha então 27 anos. Deixava atrás de
Si o conforto e a tranquilidade de um lar, os privilégios
de uma das mais tradicionais famílias de Mazindarán.
Líder inato, tornou-se referencial da oprimida
massa de seguidores do Báb, ainda cumprindo rigoroso
encarceramento. Sua sabedoria e argúcia levaram-No
a coordenar, em junho de 1848 a primeira reunião
dos seguidores no vilarejo de Badasht. Ali, naquela
aldeia, a pauta de temas incluía desde um plano
para libertação do Báb, até
uma proclamação inequívoca dos
postulados básicos da mensagem divina da qual
ele era o portador, firmando-a como uma religião
independente, com seus próprios ensinamentos
e tendo seu próprio Livro Sagrado, O Bayán.
O drama vivido pelo Báb, teve o ato final com
o Seu fuzilamento, aos 31 anos de idade, em uma praça
pública de Tabríz, ao meio-dia de 9 de
julho de 1850. As peculiaridades deste drama inspiraram
os intelectuais da época, como o filósofo
Leon Tolstoi, o eminente orientalista britânico
Edward Granville Browne, e inspirou a peça teatral
intitulada, O Báb, protagonizada em Moscou por
Olga Grinewskaia e depois encenada em prestigiosos palcos
de diversas capitais da Europa.
Em agosto de 1852, perturbado com o destino de Seu Mestre,
tendo sido inclusive testemunha ocular de Seu assassinato,
um jovem chamado Sadíq disparou uma pistola no
Xá, buscando vingar a trágica morte de
seu Amado. No entanto, utilizara balas de festim. Em
decorrência deste ato impensado instaurou-se uma
nova onda de massacre aos seguidores da nova Fé.
Bahá’u’lláh foi condenado à prisão
no Siyáh-Chál (Cova Negra), um calabouço
subterrâneo em Teerã, que em anos passados,
servira como reservatório público. Acompanharam-no
diversos de seus companheiros.
Diariamente um deles era escolhido para a sessão
de tortura ou mesmo para ser trucidado. Quando o carrasco
vinha buscar um deles, aquele cujo nome era chamado,
"dançava literalmente de júbilo, beijava
com êxtase as mãos de Bahá’u’lláh,
abraçava seus companheiros de crença e,
então, não se contendo de alegria avançava
para o local do martírio".
Durante quatro penosos meses, na companhia de cerca
de 150 delinqüentes, assassinos e salteadores de
estradas, com o pescoço agrilhoado pelas pesadas
correntes Qará-Guhár (hoje em museu de
Teerã) Mirzá Husayn 'Ali recebeu a missão
divina - o "manto de profeta". Este mesmo Espírito
Imortal que há 5.000 anos passados revelara-se
a Moisés no Monte Sinai, através da Voz
que fluia da Sarça Ardente; há 3.000 anos
na forma do Fogo Sagrado inspirara Zoroastro, há
2.000 anos através da pomba que baixava sobre
a cabeça de Jesus Cristo, na Judéia; e
há 1.300 anos comunicara-se com Maomé
através do Anjo Gabriel, agora, ali, naquele
fétido calabouço, o chamado divino inspirava
Mirzá Husayn 'Ali personificado por uma Jovem.
Sobre essa memorável ocasião, Bahá’u’lláh
escreveu:
"Uma noite, em sonho, estas exaltadas palavras
foram ouvidas de todos os lados: "Verdadei- ramente,
Nós Te faremos vitorioso por Ti Mesmo e por
Tua Pena. Não lamentes pelo que Te tem sobrevindo,
nem temas, pois estás em segurança.
Em breve, Deus fará que se ergam os tesouros
da Terra - homens que hão de ajudar-Te por
Ti e por Teu Nome, por meio do qual Deus ressuscitou
o coração dos que O reconheceram."
Mas
logo ficou comprovado de forma irrefutável
que Bahá’u’lláh não tivera qualquer
envolvimento com o atentado à vida do Xá,
tendo inclusive o ministro russo atestado a pureza
do seu caráter. Com a saúde debilitada,
o Xá ordenou que ele fosse exilado para Bagdá,
na Mesopotâmia.
Em 1863, o governo turco, atendendo pedido do governo
persa, baniu Bahá’u’lláh para Constantinopla.
Esta notícia causou grande comoção
aos Seus discípulos. Afluíram à
casa de seu Mestre para hipotecar sua solidariedade
e demonstrar seu desapontamento. A família
viu-se forçada a acampar por doze dias no Jardim
de Najíb Pashá, nos arredores da cidade
de Bagdá. Foi durante estes doze dias (21 de
abril a 2 de maio de 1863), dezenove anos após
a declaração do Báb, que Bahá’u’lláh
deu a vários de Seus adeptos as boas novas
de ser Ele o Prometido de todos os Profetas do passado.
Aquele jardim onde se consumou tão eloqüente
proclamação veio a ser então
conhecido pelos bahá’ís como O Jardim
do Ridván e aqueles dias passaram à
história como O Festival do Ridván,
anualmente celebrado em cerca de 125 mil localidades
onde residem bahá’ís.
A viagem a Constantinopla durou de três a quatro
meses. A caravana contava com Bahá’u’lláh,
Sua família e mais vinte e seis seguidores.
Suportaram um inverno rigoroso e permaneceram naquela
cidade apenas quatro meses, sendo novamente o grupo
banido para Adrianópolis, terminando por passar
cerca de 23 anos de Sua existência terrena confinado
na cidade-prisão de ‘Akká, na antiga
Palestina, hoje Israel.
Sobre esta prisão um provérbio popular
na região dizia que "os pássaros que
sobrevoassem ‘Akká cairiam mortos tão
nauseabundo era o ar".
Dalí, o Prisioneiro dirigiu mensagens aos reis
e governantes da Terra, bem como aos líderes
espirituais das grandes religiões. Ele anunciava
que as promessas de todos os tempos estavam cumpridas.
Em um tempo, em que o esplendor e a ostentação
dos monarcas refletiam o vasto poder que exerciam,
era curioso observar com que poder e majestade a eles
Ele se dirigiu, de forma coletiva:
"Ó Reis da Terra! Já veio aquele
que é o Senhor soberano de todos. O Reino é
de Deus, o onipotente Protetor, .O que subsiste por
Si Próprio.
Ó Reis da Terra! A Maior Lei foi revelada
neste Lugar, nesta cena de transcendente esplendor.
Tudo oculto veio à luz...
Sois apenas vassalos, ó reis da terra! Aquele
que é o Rei dos Reis apareceu, adornado de
Sua glória... e vos convoca a Ele Mesmo...
"
As epístolas de Bahá’u’lláh,
dirigidas individualmente aos governantes do mundo
foram enfáticas e claras. Disse-lhes que a
não ser que os laços de afeição
e unidade entre todos os homens fossem ampliados,
a não ser que as nações se unissem
em amigável cooperação para trazer
paz ao mundo, a não ser que os direitos de
todos os homens e especialmente os dos pobres e humildes
fossem garantidos e salvaguardados, a não ser
que os homens e especialmente os líderes vives-sem
suas vidas de acordo com o que fosse do agrado de
Deus e não de seu próprio agrado - seus
reinos, suas possessões, seus privilégios,
seus prazeres - todos lhes seriam tirados pelo Senhor
da Vinha (O Messias) o qual, então daria a
vinha (a Terra) àquelas almas dignas entre
os eleitos, que sobrevivessem da grande aflição
que a humanidade teria trazido para si mesma. Recusando-se,
em sua maioria a atender ao seu Chamado, os destinatários
destas inspiradas mensagens tiveram o seguinte destino:
Sultão ‘Abdu’l-Azíz, Rei do Império
Otomano, foi deposto após uma rebelião
do Palácio e assassinado em 1876. A I Guerra
Mundial resultou na dissolução do Império
Otomano, na abolição do Sultanado e
na proclamação de uma República.
Alexandre Nicolau II, o Czar da Rússia, após
sofrer vários atentados contra sua vida, morreu
assassinado. Uma revolução sangrenta
que culminou com a perseguição do clero,
sendo então executado o Czar e sua família,
extinguindo-se assim a dinastia dos Romanoff.
Francisco José, Imperador da Áustria
e Rei da Hungria, foi engolfado em tragédias
e calamidades que afligiram sua nação,
criando-se uma república das ruinas de seu
vão Santo Império Romano, desaparecendo
por conseguinte do mapa político da Europa.
Napoleão III, Imperador da França
que, ao receber a Epístola de Bahá’u’lláh
teria declarado: "Se isto é de Deus, eu sou
duas vezes Deus", teve humilhante derrota na Batalha
de Sedan (1870) que foi registrada como uma das grandes
capitulações militares da história
moderna. Ele perdeu seu reino e passou os últimos
anos de vida no exílio, seu império
entrou em colapso e uma feroz guerra civil foi seguida
pela coroação de William I, o Rei Prussiano,
como Imperador do Império Germânico Unido,
que passou a ocupar o Palácio de Versalhes.
Násiri’d-Din Sháh, o Rei da Pérsia,
na plenitude de seu poder, foi assassinado quando
orava, na noite da celebração do seu
jubileu, que ficaria na história como "o maior
dia" nos anais da Nação Persa. Seus
descendentes foram rápida e ignominiosamente
eclipsados, marcando o desaparecimento da dinastia
Qajár.
Rainha Vitória, do Império Britânico,
a única cabeça coroada louvada por Bahá’u’lláh
- por suas ações proibindo o tráfico
de escravos e por ter confiado o reino ao conselho
dos representantes do povo - foi preservada, sendo
a mais longa de qualquer dinastia britânica.
Sua bisneta, a Rainha Maria da Romênia, espontâneamente
atestou a grandeza da Mensagem de Bahá’u’lláh,
vindo a se declarar sua seguidora.
Kaiser Guilherme I, da Alemanha, enfrentou duas
tentativas de assassinato de sua vida. Seu trono foi
usurpado por Guilherme II, cujo orgulho levou a Europa
à Guerra de 1914/1918, precipitando a revolução
na capital da Alemanha, ensejando o aparecimento do
comunismo em várias cidades do país.
A Constituição de Weimar marcou a extinção
do Império, em severos termos que provocaram
"as lamentações" profetizadas por Bahá’u’lláh
na metade do século anterior.
O Papa Pio IX, o inquestionado cabeça
da mais poderosa Igreja da Cristandade foi compelido
a submeter-se à deposição do
Estado Papal e da própria Roma, na qual a bandeira
do Papa havia tremulado por mil anos e para testemunhar
a humilhação das ordens religiosas sob
sua jurisdição, sofrendo de enfermidades
físicas e mentais, terminou seus anos. A virtual
extinção da soberania temporal do Papa
foi simbolizada pelo reconhecimento formal do Reino
da Itália.
Daquela longínqua prisão em 'Akká,
foi liberado ao mundo o espírito da nova era.
Os ensinamentos de Bahá'u'lláh seguiram
em torno da unidade do gênero humano. Para a
consecução desta extraordinária
meta, ele delineou os princípios básicos,
que levados à Prática, dariam início
a um novo estágio na história humana.
A livre pesquisa da verdade, sem influência
ou preconceito. A verdade é uma só e
é indivisível. Alertava a humanidade
para ver Deus "com seus próprios olhos" e não
pelos de outrem. Assim formulara o princípio
de que a revelação divina é contínua
e progressiva. Ou seja: existe Um Deus, Uma Verdade,
Uma Humanidade. Estamos diante de uma grande escola
que seria a humanidade. Os professores desta escola
chamaram-se Abraão, Krishna, Moisés,
Zoroastro, Cristo, Buda, Maomé, o Báb
e agora Bahá’u’lláh. Todos ensinaram
o amor ao próximo, o amor a Deus e trouxeram
leis e ensinamentos adequados à época
em que vieram. Seus livros sagrados são recitados
por seus milhões de seguidores nas diversas
regiões do planeta: o Baghavad-Gita, o Pentateuco,
o Evangelho de Buda, o Zend-Avesta, o Novo Testamento,
o Alcorão, o Bayán, o Kitáb-i-Aqdas.
O Reitor é o mesmo: Aquele que lhes enviou
para impulsionar a civilização.
A igualdade de direitos e oportunidades para o homem
e a mulher passa a ser um dos predicados para uma
Nova Ordem Mundial. Desde seus primórdios,
com a designação de uma mulher extraordinária
como discípula nesta Causa, a poetisa Tahirih
(1817-1852), que protago-nizou um drama único
nos anais da história religiosa e cujas palavras
finais ante aqueles que lhe tiraram a vida ecoam ainda
hoje como fonte de consolo para a libertação
feminina: "Podeis me matar quando bem o quiseres,
mas não podeis impedir a emancipação
das mulheres". Visualizando a humanidade como um pássaro,
no qual uma asa representa o homem e a outra asa,
a mulher, para concluir que o pássaro não
pode alçar vôo no espaço ilimitado
sem o equilíbrio entre as asas. Neste aspecto,
Sua mensagem soou como "um dobre de finados" pelos
longos séculos em que a mulher fora brutalmente
discriminada.
A harmonia essencial entre a religião, a ciência
e a razão, considerando que sendo a verdade
una, não seria racional aceitar um aspecto
em detrimento de outro. Seus ensinamentos são
enfáticos ao afirmar que "o conhecimento é
um ponto, os ignorantes o multiplicaram".
A eliminação das diversas formas de
precon-ceitos. Ele concebia um mundo uno, onde diferenças
raciais, nacionais, culturais, dentre outras, não
encontravam abrigo à sombra de Deus.
É comovente imaginar Bahá’u’lláh,
em sua cela na prisão de ‘Akká proclamar:
"Vós sois as folhas e os ramos de uma única
árvore, as gotas de um mesmo mar, as estrelas
de um mesmo céu" ou mesmo concluir uma
reflexão com estas palavras: "Quando o
homem volve a face para Deus vê que todos são
seus irmãos" ou que "a luz da unidade
é tão poderosa que pode iluminar a Terra
inteira."
Para Bahá’u’lláh a humanidade ultrapassara
os estágios evolutivos de família Patriarcado),
tribo (Tribos de Judá), cidade-estado (Jerusalém),
nação (Arábia) e dirige-se inevitavelmente
para a unidade mundial. Em suas palavras, afirmava-se
o conceito todo-abrangente de cidadania mundial:
"A Terra é um só país e os seres
humanos seus cidadãos."
É
no mínimo instigante constatar que por caminhos
muitas vezes inovadores ou pouco ortodoxos as nações
envidam esforços para atingir este novo estágio
a que é convocado desde o século passado.
A educação compulsória universal,
a que todos deveriam ter acesso, foi um dos princípios
delineados por Bahá’u’lláh, para se
alcançar o entendimento mundial; e que seja
conducente a um sentimento de mútua responsabilidade
pela família humana. Referindo-se ao ser humano
como "uma mina rica em jóias de inestimável
valor" e afirmando que a educação tão
somente poderia fazê-lo "revelar suas potencialidades",
estavam lançadas as bases tornar realidade
a profecia do Antigo Testamento de um tempo predito
no qual "o conhecimento enchesse a terra assim como
as águas enchiam o mar".
Ainda mais, os ensinamentos bahá’ís
declaram que "a ignorância é indiscutivelmente
a principal razão para o declínio e
a queda dos povos, e para a perpetuação
dos preconceitos."
O restabelecimento do primado da justiça recebeu
consideração especial. Ele declarou
que "a Justiça é a mais amada dentre
todas as coisas" e também que ela se sustenta
em dois pilares: recompensa e punição.
Parte considerável de seus escritos relacionam-se
com a Justiça, enquanto bem supremo e abrigo
ideal para a civilização. Com efeito,
bem podemos situar a situação caótica
em que o mundo se defronta como sendo a ausência
da administração da justiça em
seus afazeres.
Com o olhar no retrovisor da história, pode-se
afirmar que com o poder liberado por Suas palavras,
a força de Seu verbo regenerador e, sobretudo,
a excelência desta vida consagrada à
unificacão dos povos e raças da Terra,
somos impelidos a uma profunda reflexão sobre
o destino glorioso a que é alçado o
ser humano. Aconselhando-o, primeiramente, a "possuir
um coração puro, bondoso e radiante",
Ele o convoca para "ser amigo de sua alma nos reinos
espirituais", a purificar o próprio coração
"para sua descida" e a nada plantar nele, salvo "a
rosa do amor".
Ao anunciar que a humanidade atingiu a época
de sua maturidade, Ele declarou que fomos criados
para "conhecer e adorar a Deus" e para "levar avante
uma civilização em constante evolução".
Dessa maneira, Ele deu uma nova meta espiritual aos
seres humanos, qual seja, buscar a salvação
coletiva e não, tão somente, a individual.
É necessário destacar que a palavra
"Deus", que é um símbolo para aquela
transcendente realidade através da qual toda
a existência é regida e mantida, Deus,
não é o produto da imaginação
humana, uma criação da mente, ou mesmo
uma fantasia inventada, irreal ou mesmo um mero reflexo
de circunstâncias particulares, tanto social
como econômica.
Os ensinamentos de Bahá’u’lláh asseguram
que Deus não pode ser conhecido em Sua essência.
Ele está além de nossa compreensão.
De acordo com Seus ensinamentos, Sua essência
permanecerá para sempre oculta dos homens,
pois como Ele diz "Ele é o Oculto dos Ocultos
e o Manifesto dos Manifestos". Deus, aquela "Essência
Incognoscível" é mais que o criador
do homem, Ele é também, o Senhor da
História.
Os ensinamentos e as oracões por Ele reveladas
trazem, conforme atestou a Rainha Maria da Romênia,
"paz à alma e esperança ao coração"
e são, nas palavras do Mahatma Gandhi "um consolo
para a humanidade".
Em Suas orações, o coração
sensível pode contemplar a perfeita comunhão
entre o amante e o Amado:.."Não sei, ó
meu Deus, qual é este fogo que ateaste em meu
ser... nem o céu nem a terra podem nublar seu
esplendor... Ó meu Deus, faze de Tua Beleza
meu alimento... O Tu Senhor Bondoso! Une a todos,
faze as religiões concordarem e torna as nações
uma só, para que sejam como uma só família..."
A prisão foi por fim mitigada pela mobilização
das tropas turcas, ficando aquele quartel requisitado
para utilização das tropas. Bahá’u’lláh
e Sua família foram transferidos para uma casa
nas imediações, ficando Seus adeptos
acomodados numa estalagem, na cidade. Bahá’u’lláh
permaneceu por mais sete anos prisioneiro nessa casa.
Num pequeno quarto junto daquele que Lhe fora designado,
treze pessoas de Sua família, de ambos os sexos,
tiveram que se acomodar como melhor pudessem. De início,
sofreram excessivamente em conseqüência
da acomodação inadequada, alimentação
escassa, e da falta dos usuais confortos da vida.
Depois de certo tempo, porém, alguns quartos
adicionais foram postos à sua disposição,
podendo eles assim viverem com relativa comodidade.
Depois que Bahá’u’lláh e Seus companheiros
deixaram o quartel, visitas eram-Lhe permitidas, e
gradativamente as severas restrições
impostas pelos éditos imperiais foram sendo
relaxadas mais e mais, embora de vez em quando novamente
aplicadas por algum tempo.
Mesmo durante a época pior de seu encarceramento,
os bahá’ís jamais desanimaram; ao contrário,
mantiveram inaba- láveis a sua confiança
e tranquilidade. Quando ainda no quartel de ‘Akká,
Bahá’u’lláh escreveu a alguns amigos:
"Não tenhais medo. Estas portas abrir-se-ão.
Minha tenda será erguida no Monte Carmelo,
e o maior contentamento será atingido." Constituiu
esta declaração grande fonte de consolo
para Seus adeptos, e no devido tempo se realizou literalmente
Sua profecia.
Tendo nos primeiros anos de durezas mostrado como
se deve glorificar a Deus embora num estado de pobreza
e ignomínia, Bahá’u’lláh nos
últimos anos da vida em Bahjí, início
da década de 1890, mostrou como, cercado de
honras e afluência, ainda se deve glorificar
ao mesmo Deus.
Apesar de termos descrito a Sua vida em Bahjí
como realmente majestosa no mais verdadeiro sentido
da palavra, não se deve imaginar, porém,
que fosse caracterizada por esplendor material ou
extravagância. A Abençoada Beleza, um
dos inúmeros títulos com que a Ele seus
seguidores se dirigiam, e Sua família, viviam
com a maior simplicidade e modéstia; o gasto
com luxo egoísta era coisa desconhecida naquele
lar.
Perto de Sua casa fizeram-Lhe os amigos um jardim
que denominaram de Ridván, no qual Ele passava
muitos dias consecutivos, ou mesmo semanas, dormindo
à noite numa pequena cabana. De quando em quando,
Ele ia mais longe, fazendo algumas visitas a ‘Akká
e Haifa, e mais de uma vez armando a Sua tenda no
Monte Carmelo, como predissera enquanto ainda encarcerado
no quartel de ‘Akká. A maior parte de Seu tempo
era dedicada a prece e meditação, à
revelação dos Livros Sagrados e Epístolas,
e à educação espiritual dos amigos.
Assim passou Bahá’u’lláh simples e serenamente
o outono da Sua vida na Terra, até que, após
um ataque de febre, expirou, em 29 de maio de 1892,
com a idade de setenta e cinco anos. Entre as últimas
Epístolas por Ele reveladas, figura Seu Testamento,
escrito do próprio punho e devidamente assinado
e lacrado.
Nove dias após a Sua morte os selos por Ele
postos neste documento foram quebrados pelo Seu filho
mais velho, na presença dos membros da família
e de alguns amigos, e o seu conteúdo, curto
mas notável, foi revelado. Por este Testamento,
‘Abdu’l-Bahá foi constituído o representante
do Pai e o expositor de Seus ensinamentos, devendo
os outros parentes e todos os adeptos dirigir-se a
Ele e obedecê-Lo. Isso constituiu uma barreira
contra o sectarismo e uma garantia à unidade
da Causa.
A lembrança dos dias de Bahá’u’lláh
é um legado único para a humanidade.
Pois foram em dias atribulados e de tão intensos
sofrimentos que pôde prosperar a árvore,
sempre verdejante desta Causa.
O amor que Ele infundiu naqueles que abraçaram
Sua Causa, tem concedido um sentido nobre às
suas existências. Nos últimos 150 anos,
milhares de pessoas deixaram seus países para
se estabelecer em outras regiões do planeta,
proclamando as boas novas de Sua vinda. São
profissionais liberais, comerciantes, cientistas,
educadores ou pessoas muito simples que se deixaram
consumir pela visão de um novo mundo, sem fronteiras
e sem guerras.
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