Camões, Bocage, João Grilo e a Donzela Teodoro, personagens do imaginário popular nordestinos, sobrevivem na era da informática.
por
Eliezer
Rodrigues
Camões, Bocage, João Grilo e a Donzela Teodoro são
heróis místico-ideológicos protagonistas na imaginação
do povo em casos de astúcia, justiça e exemplos de sabedoria
que conseguiram atravessar os tempos, novas linguagens na comunicação
e conseguiram chegar à era da informática. O pesquisador
e autor de ensaios sobre a Literatura de Cordel, Ribamar Lopes, na primeira
parte do seu mais recente livro ''Cordel - Mito e Utopia'' (Série
Coleção Cidade de São Luís) faz um elaborado
trabalho sobre a procedência de cada personagem, suas origens e a
perfeita sintonia com os poetas populares e o povo nordestino aficcionado
pelo cordel.
Sobre Camões Ribamar indaga: ''Que motivos teriam levado o autor
de Os Lusíadas a figurar na literatura popular como personagem irreverente,
astuto e tapeador, encarnando a figura do herói ladino, sempre disposto
a solucionar os mais complicados enigmas ou problemas propostos?
Hipóteses têm sido levantadas acerca da inusitada popularidade
de Camões, poeta clássico que, segundo observa Manoel Diégues
Júnior, em estudo sobre os ciclos temáticos na literatura
de cordel, veio, juntamente com seu compatriota Bocage, a se transformar
em figura popularesca.
Renato Carneiro Campos admite que a imaginação popular teria
deturpado a imagem do poeta caolho, de quem pouco se ouvia falar, a não
ser através das notícias fantasiosas sobre sua vida aventurosa
e de muitos amores, tido como ''autor das façanhas narradas em Os
Lusíadas'', cujos manuscritos conseguiu salvar de um naufrágio.
O povo pouco ou nada sabe do épico de Luiz Vaz de Camões,
do poeta lírico, do sonetista primoroso, quem sabe, teve vagas notícias
do jovem poeta português, de rosto perfeito, de semblante e porte
altivos que ''misturava os prazeres do espírito com os do corpo''
e bem cedo ''aprendeu a arte de conquistar o coração das
damas, tornando-se ainda mais invejado pelos fidalgos'', conforme refere
Domingos Mascarenhas. Segundo Ribamar Lopes ''não se pode, na verdade,
pretender que o povo e os poetas populares saibam mais sobre Camões,
quando os próprios eruditos e até estudiosos da vida e obra
do poeta - os chamados camonistas - a ele se referem quase sempre acautelados
com ressalvas quanto à exatidão de datas e outros dados,
quando não fazem assertivas baseadas em informações
consagradas pela crônica mas que tanto podem ter de verdadeiras quanto
de lendárias. Não ss tem como certos o lugar e ano do seu
nascimento, por exemplo''.
O povo não questiona as razões pelas quais Camões
se transformou numa figura mítica. Simplesmente as ignora. Nem quer
conhecê-las. Conhece Camões, seu herói ladino. Conhece
Camonge, corruptela que se chegou a sugerir especulações
com relação ao nome do seu compatriota Bocage. Afirma Ribamar,
a Zé Limeira, poeta do absurdo, é atribuída uma breve
referência a Camonge num disparatado repente concebido em décima
setessílaba, glosando o mote ''Adeus, até outro dia''
''Na corrida de mourão
quem corre mais é quem ganha
São Tomé vendia banha
na fogueira de São João
foi na guerra do Japão
que se deu essa ingrizia Camonge quase morria de gangrena berra-berra
quem se morre se enterra
adeus até outro dia"
Na literatura de cordel, Camões é o que o povo imagina e quer que ele seja. E essa literatura reflete o desconhecimento da verdadeira história de sua vida, agora fantasiada ao sabor da inventiva do poeta popular. ''A origem desconhecida confere ao herói o halo de mistério através do qual o povo gosta de contemplar seus mitos'', assegura Ribamar.
Quanto a Bocage, sua descrição nos folhetos populares, mesmo parecendo sugerir pretensa fidelidade ao modelo, não deixa de constituir perfil caricatural traçado a mercê da fantasiosa imaginação coletiva e do capricho daqueles que pretendem retratá-lo.
Conforme Ribamar Lopes cabe ao próprio Bocage a melhor definição de seu perfil ''de corpo e espírito'', isto é, físico e moral, definição feita sem rodeios num soneto puramente descritivo. Vejamos a primeira estrofe:
''Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés , meão na altura.
Triste de facha, o mesmo de figura.
Nariz alto no meio, e não pequeno.''
Já um compatriota seu que preferiu abrigar-se no anonimato, levando em conta, certamente, o vigor satírico de implacável soneto no qual lhe traça o perfil caricato:
''Esqueleto animal, cara de fome.
De Timão e chapéu à holandesa.
Olhos espantadiços, boca acesa.
Donde o fumo, que sai, a todos some...''
''Não seria necessário mais do que estas poucas informações sobre Bocage, para se concluir por sua maior adequação ao papel de herói astuto (e anti-herói) capaz de protagonizar com sucesso as mais estravagantes aventuras narradas nos folhetos de cordel'', assegura Ribamar.
A primeira idéia que se tem de João Grilo, quer pelo nome, quer pelas características com que é descrito, é a de que se trata do mais brasileiro e mais nordestino dos heróis ladinos que povoam a literatura de cordel.''Ora, o povo sabe que Camões e Bocage nasceram e viveram em Portugal e apenas foram naturalizados personagens do anedotário brasileiro e protagonistas de histórias narradas em nossos folhetos populares'', esclarece Ribamar Lopes. Quanto a João Grilo, a descrição de suas características leva de imediato à composição do tipo físico perfeitamente ajustado à figura do jeca brasileiro e, mais precisamente, do roceiro nordestino - feio, desnutrido, franzino, de aparência débil mas de tino aguçado, como o descreve João Ferreira de Lima no folheto As palhaçadas de João Grilo, título original do texto que mais tarde seria ampliado e publicado sob a denominação de Proezas de João Grilo:
''João Grilo foi um cristão
que nasceu antes do dia
criou-se sem formosura
mas tinha sabedoria
e morreu depois da hora
pelas artes que fazia
Assim mesmo ele criou-se
pequeno, magro e sambudo
as pernas tortas e finas a boca grande e beiçudo no sítio
onde morava
dava notícia de tudo''
Comenta Ribamar Lopes que está retratado neste trecho, o tipo ideal para realizar a expectativa popular, o ideal de vencer ''grandes'', pregar peças a poderosos, ludibriar espertalhões e desbancar sabichões. Segundo ele, não são muitas as proezas de João Grilo, mas satisfazem plenamente o ideal das massas subalternas.
Todavia, ressalta o pesquisador ''o João Grilo que encontramos em Contos populares portugueses - antologia, coletânea organizada e anotada por Viale Moutinho, em nada se parece com o nosso endiabrado, inteligente e ardiloso João Grilo nordestino em que o transformamos. O personagem de um dos mais conhecidos contos da tradição oral portuguesa é um tolo, um falso adivinhão favorecido pelas circunstâncias. Pelo menos é assim que o encontramos no conto História de João Grilo, apresentado na citada antologia. Esclarece o pesquisador que o episódio primeiro e principal desse conto tradicional português, na versão recolhida por Viale Moutinho, não tem sido incorporado às aventuras do nosso travesso herói - versão nordestina -, glosadas na literatura de cordel. ''Não o aproveitou João Ferreira de Lima em seu folheto de oito páginas, As palhaçadas de João Grilo, deixou de mencioná-lo também João Martins de Athayde na ampliação que fez (ou mandou fazer) do mesmo folheto - de oito para trinta e duas páginas - da qual Ribamar também ressalta que no texto original de João Ferreira de Lima (As palhaçadas de João Grilo) constituído de trinta e uma sextilhas que comp÷em um folheto de oito páginas, o personagem Ó apenas um herói travesso, na verdade um anti-herói protagonista de algumas presepadas maldosas. A ampliação do folheto para trinta e duas páginas, na editora de João Martins de Atayde, ''deu-se, obviamente, a partir da trigéssima segunda estrofe, já em setilha. Foram-lhe acrescentadas noventa e cinco setilhas, nas quais o herói sabina seu professor, ludibria ladrões e responde a perguntas formuladas pelo sultão (ou pelo rei), além de dar lições de ética e justiça a potentados''. É aí que surge o João Grilo inteligente, arguto, justiceiro, adivinho e satírico implacável - o João Grilo cujas potencialidades, o folheto original não explora, embora seu autor as reconheça latentes na criatura mítica ainda no início do texto, ao se referir ao seu nascimento, conforme evidencia a segunda estrofe da narrativa:
''E nasceu de sete meses
chorou no bucho da mãe
quando ela pegou um gato
ele gritou. Não me arranhe
não jogue nesse animal
que talvez você não ganhe''
E comenta Ribamar: ''Ora, é corrente na crença popular a alusão segundo a qual os nascidos de sete meses são inteligentes e argutos, sendo conhecida também a crendice de que serão adivinhos aqueles que choram ainda no ventre da mãe.''
(Eliezer
Rodrigues é Redator
do Cultura do Diário do Nordeste - Fortaleza, CE - 1o. de
setembro de 1997)