«C'est toujours faire preuve de colonialisme
intellectuel que de considérer les valeurs privilégiées
de sa propre culture comme des archétypes normatifs pour d'autres
cultures. Ce qui est seul normatif ce sont ces grands assemblages pluriels
des images en constellations, en essaims, en poèmes ou en mythes.»
Gilbert DURAND, Les Structures Anthropologiques de l'Imaginaire,
p. 11.
Um confronto crítico amadurecido pode levar à rejeição da problemática proposta por estudiosos anteriores e em particular pelos grandes iniciadores das pesquisas sobre nossa narrativa popular em verso, mas sem que isso implique necessariamente o não incorporar suas contribuições positivas ou o não reconhecer seus méritos, que foram muitos.
Assim, sem recusar assumir uma posição definida, desejaria, entretanto, evitar umas tantas querelas que alimentam infindavelmente as discussões sobre a Literatura de Cordel: estaria ela morrendo ou não estaria? qual a sua origem? como categorizá-la como gênero literário? de que modo classificar os seus materiais? como julgá-la: seria ela conservadora ou não?, etc....
Procurarei, pois, não
me situar exatamente nesse terreno minado, mas antes, desenvolver um esforço
no sentido de explicitar os pressupostos que subjazem às dimensões
desse espaço discursivo, centrando-me, para tanto, na questão
das classificações temáticas. Recuso-me, portanto,
a aceitar o círculo fechado de tais querelas mais ou menos inúteis
e infecundas, buscando introduzir outra perspectiva analítica que,
muito embora ainda apenas sugestiva, pretendo que assuma feição
nitidamente histórica. Acredito que esse percurso abriria o caminho
para uma hermenêutica inovadora e distante da tradicional reprodução
da mesmice.
2. DAS CLASSIFICAÇÕES
A quase unanimidade dos que
se debruçaram sobre a Literatura de Cordel - ou «Literatura
Oral», como querem Câmara Cascudo e outros folcloristas nas
pegadas do estudioso francês Paul Sébillot - propôs
uma classificação por temas do material que compõe
esse gênero de produção da cultura popular nordestina.
Aliás, Leroi-Gourhan já havia advertido para o fato que «se
o documento mui freqüentemente escapa à História, não
pode todavia escapar à classificação.»
Uma das raras exceções
nesse domínio foi a de Mário de Andrade que, em seu curto
ensaio «O Romanceiro de Lampeão», limitou-se a constatar,
nisso porém simplificando demasiadamente as coisas:
Embora assemelhada às
demais classificações por temas, esta proposta de Suassuna
(a "erudita") tem a vantagem de sintetizar várias outras de uma
forma talvez mais refinada, porém desde logo comete omissões
e acrescenta o equívoco de misturar numa mesma tipologia pelejas
e romances, que são produções de gênero bem
diverso. Outras inconsistências mais saltam à vista. Por exemplo,
um folheto sobre "Lampeão no Inferno" poderia, sem incoerência,
ser incluído em qualquer um dos quatro primeiros "ciclos" dessa
classificação. Portanto, aí se coloca de imediato
a questão relativa ao critério de escolha do tema dominante
de um folheto dessa natureza. Evidentemente, a resposta não pode
estar sujeita à mera subjetividade do estudioso. Mas tomemos outro
exemplo para ilustrar o argumento: um folheto como A Visita de Cancão
de Fogo ao Inferno, em que um anti-herói picaresco disputa com Lampião
o poder naquele reino das sombras, complicaria mais ainda esse procedimento
classificatório por "ciclos" temáticos.
Vejamos, porém, a
segunda classificação proposta por Suassuna.
É apresentada no
momento em que ele, usando de um estratagema, fala por intermédio
de João Melchíades, padrinho da personagem central de seu
Romance d'A Pedra do Reino, quando, aliás, formula também
uma tipologia de poetas populares: "O velho João Melchíades
ensinou-nos, ainda, que, entre os romances versados, havia sete tipos principais:
os romances de amor; os de safadeza e putaria; os cangaceiros e cavalarianos;
os de exemplo; os de espertezas, estradeirices e quengadas; os jornaleiros;
e os da profecia e assombração. (...) Um dos tipos que eu
mais apreciava eram os de safadeza, subdivididos em dois grupos, os de
putaria e os de quengadas e estraderices.». E quanto à tipologia
dos poetas populares, a personagem de Suassuna declara: «Existe o
Poeta de loas e folhetos, existe o Cantador de repente. Existe o Poeta
de estro, cavalgação e reinaço, que é o capaz
de escrever os romances de amor e putaria. Existe o Poeta de sangue, que
escreve os romances cangaceiros e cavalarianos. Existe o Poeta de ciência,
que escreve os romances de exemplo. Existe o Poeta de pacto e estrada,
que escreve os romances de esperteza e quengadas. Existe o Poeta de memória,
que escreve os romances jornaleiros e passadistas. E finalmente, existe
o Poeta de planeta, que escreve os romances de visagens, profecias e assombrações."
Parece óbvio que
essa duplicidade sinuosa adotada pelo escritor paraibano constitui um astuto
artifício que lhe permite assumir posições diferentes
em face do mesmo problema. Esse fato, porém, é assaz revelador
das ambigüidades inerentes à consciência infeliz do intelectual
(a que se referia Hegel), e da tensão agonística nas relações
entre a cultura dominante e a cultura subalterna que tento examinar nesta
pesquisa.
Estranha observar como,
mesmo pesquisadores supostamente armados de melhor instrumentação
teórica e analítica - e aqui penso, por exemplo, no meu caro
colega, Antônio Augusto Arantes, que, em sua tese de doutorado em
antropologia, na Universidade de Cambridge, Inglaterra, incide nos mesmos
equívocos de outras tentativas semelhantes neste terreno escorregadio
- não conseguem escapar dessa velha armadilha das classificações
temáticas, que vem levando os estudiosos das narrativas populares
para esse beco sem saída, desde o final do século passado.
Mais estranham ainda essa
insidiosa persistência classificatória e o seu apego à
invencionice dos "ciclos" temáticos, quando, já em 1928,
vinha à luz o estudo inovador de Vladimir Iakovlevitch Propp - que
pertenceu ao grupo dos formalistas russos -, sobre a análise morfológica
dos contos populares. Nessa obra, embora reconhecendo desde o início,
como bom estruturalista, a necessidade de começar o trabalho analítico
por um procedimento classificatório correto dos materiais coletados,
acrescenta um reparo crítico fundamental:
Portanto, é chegado o momento de indagar: que é de fato que caracteriza tais classificações?
Todas elas pretendem propor
um esboço de análise temática da Literatura de Cordel,
e supõem, com alguma "inocência", que os temas identificados
se dão por si mesmos. E o que é mais estranho: todos eles
se inserem em "ciclos"! Ora, que está subentendido na afirmação
da existência de "ciclos temáticos" tais como: maravilhoso,
fantástico, heróico, demônio logrado, amor e fidelidade,
etc.? Certamente, eles definem muito menos o conteúdo dessa literatura
popular do que o olhar que sobre ela esparrama o erudito. Por outro lado,
quase todas essas classificações utilizam, explícita
ou implicitamente, o conceito de ciclo de uma maneira que me parece pouco
adequada. Na verdade, esse conceito define melhor uma série de obras,
de uma época, de uma ou mais literaturas, girando em torno de um
mesmo tema ou personagem, o que constitui assim a sua legenda. Além
disso, ele tem sido utilizado de preferência para caracterizar especificamente
a
novelística medieval (e mais particularmente ainda as novelas de
cavalaria), em seus três ciclos fundamentais: o bretão ou
arturiano, o carolíngio e o clássico. Usá-lo, porém,
para boa parte dos produtos da Literatura de Cordel é evidentemente
uma incongruência, pois assuntos como os que vêm narrados,
por exemplo, em folhetos chamados «de circunstância, de acontecido
ou de época», por definição, não circunscrevem
um tema único ou central.
Finalmente, atravessa todas
essas classificações certa dose de a-historicidade, já
que pressupõem a Literatura de Cordel como corpus acabado e fixo;
portanto, sem uma seqüência temporal significativa decorrente
de mutações socioculturais abrangentes e de transformações
sofridas por seus grupos criadores e consumidores. É bem verdade
que alguns de seus temas são mais ou menos trans-históricos
e, em certos sentidos, transculturais. Mas é igualmente verdadeiro
que eles sofreram, no Nordeste, relevante processo de transformação
e adaptação.
Obviamente, não pretendo
concluir estes comentários sucintos ampliando ainda mais a já
longa lista de classificações propostas. Ao contrário,
imagino que uma via de superação desse impasse seria a formulação,
analiticamente mais consistente e empiricamente mais consentânea,
de uma caracterização de perfil decididamente histórico,
que entendesse a noção de «ciclo temático»
noutra perspectiva bem diversa da adotada até agora. Propor uma
classificação ou tipologia é deduzir uma estrutura
conceptual, ordenada segundo certas regras lógicas, de uma determinada
realidade heterogênea. E já que, no caso de que me ocupo,
trata-se de algo que sofreu e sofre ainda um processo de mutação,
sugiro, a título de hipótese, que a Literatura de Cordel
seja apanhada analiticamente por suas etapas históricas mais relevantes,
e caracterizada pelas temáticas predominantes em cada uma delas.
Não, evidentemente, segundo o modelo da literatura "culta" (classicismo,
arcadismo, romantismo, realismo, simbolismo, etc.), nem pela tradicional
listagem de "ciclos" já aqui examinada e criticada.
Portanto, a partir de uma
bem fundada reconstituição histórica de nossa Literatura
de Cordel, seria possível identificar pelo menos três períodos
bem característicos, embora sem pretender sugerir alguma linearidade
temporal na seqüência desse processo, visto que seus tempos
históricos se acumulam ou se condensam, havendo assim superposição
de movimentos. Apenas a título provisório - pois, conforme
assinalei, faz-se necessário um estudo histórico sistemático,
que não realizei nem pretendo fazê-lo, mas que indico a outros
pesquisadores com mais paciência e argúcia, estudo que ultrapasse
os limites de uma história estritamente interna dessa produção
simbólica e contextualize o seu desdobramento em relação
à totalidade da história sociopolítica do país
nesses períodos - menciono o que se segue como meras indicações
para a pesquisa que lhe venha a dar fundamento e maior significação:
(I) O primeiro período
apresenta-se com a aparência de uma recusa da história: boa
parte dos textos dessa época concentram-se em torno da velha tradição
medieval dos romances de cavalaria e, de modo mais específico, gravitam
à volta da figura de Carlos Magno e de seus Pares. Graciliano Ramos
testemunha esse interesse de nossas populações rurais de
forma incisiva:
(II) O segundo período
é o da clara aceitação da história, ou talvez,
mais precisamente, o da incorporação nela do herói
popular nordestino, tipicamente rural, embora já se inicie desde
então um processo de urbanização de temas e personagens.
Nesse período, predominam os textos em que vários grandes
poetas populares - a partir de seu peculiar ângulo de visão
e segundo o princípio da verossimilhança de que já
falava Aristóteles em sua Poética - narram a história
que se desenrola sob o seu olhar atento, mediante a gesta dos cangaceiros
famosos, as histórias de «valentes» que enfrentam e
derrotam simbolicamente os potentados rurais (os "coronéis"), ou
o desempenho e as vicissitudes de líderes religiosos. Não
obstante, apesar de ser essa a produção predominante nesse
período, é evidente que outros temas menores ou circunstanciais
ocupavam o interesse dos poetas, do mesmo modo que os folhetos de maior
popularidade do período anterior continuavam a ser reimpressos abundantemente.
(III) Por fim, o período
mais recente, que parece caracterizar-se pelo predomínio de
folhetos que contam a história acontecimental do presente, revelando
vários sintomas de ruptura da unidade e da identificação
de suas velhas matrizes sociais criadoras, bem como de sua crescente "folclorização".
Com efeito, as transformações socioeconômicas das últimas
décadas modificaram intensamente certos aspectos do meio onde se
gerava e de onde emergia essa produção simbólica,
reduzindo seu relativo isolamento cultural e ampliando a sua inserção
em novos códigos e relações sociais mais típicos
da modernização atingida pelos setores dominantes da sociedade
nacional.
3. OBSERVAÇÕES FINAIS
Uma pesquisa, repito, que
se orientasse nessa direção e fundamentasse uma caracterização
de corte histórico desse gênero de produção
poética - caracterização que poderia resultar diferente
da que apresentei aqui, assim como poderia dar maior precisão aos
marcos de sua periodização -, teria pois a vantagem de evitar
o caráter punctual das inúmeras tipologias tentadas até
hoje e de propiciar uma compreensão mais ampla desse processo criativo
mediante sua articulação com as condições concretas
da sociedade inclusiva, sem negar as especificidades de tais práticas
significantes como produto do imaginário do povo. Mas enfim, a razão
talvez esteja do lado do poeta pernambucano, Marcus Accioly, na apresentação
do Álbum de Xilogravuras de Amaro Francisco, editado pela Secretaria
de Educação e Cultura do Estado de Pernambuco, quando declara:
Que fique claro, pois,
desde logo, o sentido de minha posição no caso em tela: não
atribuo nenhum valor de verdade definitiva a esses três períodos
acima qualificados. Apenas formulo uma hipótese de trabalho, de
que a posterior investigação comprovará a fecundidade
e o alcance. E, como toda hipótese que tenciona orientar o trabalho
científico deve submeter-se a contraprovas, forneço de saída
pelo menos um exemplo que aponta talvez na direção oposta
àquela com que caracterizei a primeira das três fases mencionadas.
Com efeito, na «Memória» por Antônio Áttico
de Souza Leite, publicada pela primeira vez em 1875 no Rio de Janeiro e
reimpressa em Juiz de Fora, em 1898, e posteriormente reproduzida na Revista
ao Instituto Arqueológico e Geográfico de Pernambuco, o autor
dá notícia de um folheto impresso, de cunho sebastianista,
que, em 1836, circulava no alto sertão pernambucano de Serra Talhada.
A esse mesmo folheto, seguindo a mesma fonte, Ariano Suassuna faz referência
em seu Romance d'A Pedra do Reino. Todavia, é provável que
ele tenha sido produzido e publicado em Portugal.
Como quer que seja, em sua
clássica História da Literatura Brasileira, cuja primeira
edição (1888) já é velha de mais de um século,
o agudo observador de nossa produção cultural erudita e popular,
que foi Sílvio Romero, sublinhava a questão intrigante disso
que chamei recusa da história por parte das camadas populares em
suas criações simbólicas. A despeito de sua particular
inclinação de folclorista, declarava o crítico sergipano:
"Um fato digno de estudo observamos sempre nas investigações
a que procedemos no terreno do folclore nacional: a falta de criações
relativas aos acontecimentos de nossa história e de nossa política."
Contudo, após reconhecer que essa ausência não era
completa e depois de comentar alguns poucos exemplos, ele continuava em
suas observações, que transcrevo extensamente por seu valor
analítico e antecipador: "Os sertanejos, em cujos centros floresce
o banditismo, conhecem-lhe os tipos principais, que se distinguem por suas
façanhas. (...) Temos por assentado, pois, que nem as cenas do povoamento
primitivo do país nos séculos XVI e XVII, nem as façanhas
dos bandeirantes, nem as guerras dos holandeses e franceses, nem as dos
espanhóis no Sul, nem as lutas dos Mascates e Emboabas, nem as cenas
da mineração, nem mesmo a Independência, nem as guerras
da Cisplatina, do Prata e do Paraguai - determinaram a produção
de ciclos poéticos às nossas musas populares. (...) As guerras
dos Mascates, dos Emboabas, dos Palmares, nada inspiraram que se tivesse
conservado na tradição." Assim, face a esse elenco de fatos
e personagens da nossa história oficial, "das grandes massas incultas
vinha o silêncio, a indiferença. (...) Já se vê,
portanto, que não foram só os nossos grandes tipos da história
da colônia que nada, ou quase nada, inspiraram às musas populares.
Os homens e os feitos da fase imperial e dos dias da República acham-se
em idênticas circunstâncias." Finalmente, ele propõe
a pergunta e esboça a seguir sua resposta explicativa: "Qual a razão
dessa pobreza, desse quase mutismo da inspiração anônima
do povo brasileiro, pelo que toca à sua história política?
A resposta não é difícil. Desde os primeiros tempos
da constituição de nossas populações, estas
se viram sempre segregadas em grupos, esparsas e separadas entre si. Circunstância
era esta já por si suficiente para dificultar a formação
de uma forte consciência coletiva, um vivaz sentimento de nacionalidade.
Não foi só isto: uma administração compressora
e rapace habituou o nosso povo, desde suas origens, a considerar com maus
olhos a governança e tudo que com ela se relaciona. Os chamados
aspectos políticos não podiam escapar a esse desprestígio,
a essa falta de simpatia. (...) Arredadas de toda e qualquer coparticipação
na gerência de seus destinos, habituaram-se a ver os negócios
nacionais manipulados na Capital pelo grupo a isto afeito desde os primórdios.
(...) Nos altos sertões, as gentes pastoris, na grande liberdade
do seu viver, ao contacto direto da natureza, nos largos descampados, circulados
pela belíssima perspectiva das serranias longínquas, são
as únicas que ainda descantam as façanhas dos seus heróis.
Estes são, porém, os bandidos famosos por seus feitos de
valentia, ou os bois, célebres por sua destreza.»
Esse fato que Sílvio
Romero constatou e analisou com lucidez em seu tempo, mas pretendeu generalizar
excessivamente para o período posterior, não parece ter mantido
então esse mesmo perfil. Na verdade, nossa Literatura de Cordel,
conforme assinalei antes, entra no período seguinte numa fase de
franca aceitação da história.
NOTAS:
1. Cf.: LEROI-GOURHAN, A.: Évolution et Technique,
t. I: L'Homme et la Matière. Paris: Albin Michel, 1943, p. 18.
2. O Baile das Quatro Artes, 3ª ed. São
Paulo: Martins / MEC, 1975, p. 87.
3. Cf.: De la Culture Populaire aux XVIIe et XVIIIe
Siècles. La Bibliothèque Bleue de Troyes. Paris: Stock, 1975.
4. Cf.: Ensayo sobre la Literatura de Cordel. Madrid:
Revista de Occidente, 1969.
5. Cf.: Classificação Popular da
Literatura de Cordel. Petrópolis: Vozes, 1976.
6. Op. cit., p. 6.
7. Cf.: O Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe
do Sangue do Vai-e-Volta - romance armorial-popular brasileiro. Rio de
Janeiro: José Olympio, 1971, pp. 58 e 68, e 183-184, para cada uma
das tipologias mencionadas.
8. Cf.: O Trabalho e a Fala (estudo antropológico
sobre os folhetos de Cordel). São Paulo: Kairós / Funcamp,
1982, pp. 47-52. Consultar também o confuso capítulo em que
o estudioso alemão, Ronald DAUS, desenvolve sua concepção
acerca dos «grandes ciclos temáticos» (comportando cada
um deles alguns «ciclos secundários») da nossa Literatura
de Cordel, em seu livro: O Ciclo Épico dos Cangaceiros na Poesia
Popular do Nordeste, col. "Literatura Popular em Verso - Estudos, nova
série, n.º 1", Rio de Janeiro: Fundação Casa
de Rui Barbosa, 1982, pp. 78-89. Merece mencionada ainda a tese de Mª
José F. LONDRES, que procura renovar os critérios de classificação
inspirando-se em PROPP e nas categorias formais de gêneros literários,
embora resulte num trabalho parcial ou incompleto: Cordel: do encantamento
às histórias de luta, São Paulo: Duas Cidades, 1983.
9. Cf.: Morphologie du Conte, suivi de «Les
transformations des contes merveilleux». Paris: Poétique/Seuil,
1973.
10. Cf.: Op. cit., p. 12. Os meus comentários,
que se seguem a essa citação, estão baseados nas reflexões
de PROPP, na mesma obra, pp. 12-27.
11. Cf.: La Bible Bleue -- anthologie d'une littérature
"populaire". Paris: Flammarion, 1975, p. 35. É pertinente observar
que a autora, em seu trabalho, faz certa confusão entre tema e gênero.
12. Cf.: «L'Écriture et la Voix»
(d'une littérature populaire brésilienne), Critique, Paris,
t. XXXVI, nº 394, mars 1980: 228-239. O trecho citado vem à
p. 236].
13. Cf.: DE CERTEAU, Michel: «La Beauté
du Mort» (ensaio escrito com a colaboração de Dominique
Julia e Jacques Revel), in La Culture au Pluriel, col."10/18", Paris: UGE,
pp. 74-75, que apresenta agudo comentário crítico dessa tendência
classificadora por tema.
14. Já em sua obra de 1928, Vladimir I.
PROPP propunha esta questão intrigante que, em seguida, ocupou-lhe
a atividade de pesquisa por vários anos, a saber, o problema da
semelhança dos contos populares no mundo todo: «Como explicar
- indagava ele - que a história da rainha-rã na Rússia,
na Alemanha, em França, na Índia, entre os índios
da América e na Nova-Zelândia se assemelhe, visto que nenhum
contacto entre esses povos pode ser historicamente provado?» op.
cit., p. 27]. Foi na tentativa de fornecer uma resposta a essa questão
que ele publicou, quase 20 anos depois (1946), outra obra capital: Les
Racines Historiques du Conte Merveilleux. Paris: Gallimard, 1983.
15. Cf.: Caetés. São Paulo: Martins,
7ª ed., 1965, p. 140. Seria interessante assinalar o fato de que Graciliano
RAMOS menciona em seu comentário duas das obras principais daquilo
que constituía o acervo do que se poderia chamar a 'Biblioteca do
Sertão'. Câmara CASCUDO rastreou esse acervo com muita argúcia
e minúcia bibliográfica de que dou aqui apenas o resumo:
«Há uma série de livros indispensáveis para
o cantador. Os mais letrados já denominaram esse conjunto de conhecimentos
de "ciência popular". (...) Que livros serão esses? Têm
os livros básicos, infalíveis e inamovíveis, e os
velhos romances portugueses, outrora parafraseados e sempre lidos nos sertões.
As principais fontes da erudição da cantoria são:
O Lunário Perpétuo, (...). Missão Abreviada (...).
História do Imperador Carlos Magno, e dos Doze Pares de França,
(...). Dicionário da Fábula e Manual Enciclopédico,
(...). Donzela Teodora, (...). Princesa Magalona, (...). Imperatriz Porcina,
(...). Roberto do Diabo, (...). Miseno, ou Feliz Independente do Mundo
e da Fortuna, (...).» Cf.: Vaqueiros e Cantadores. Folclore poético
de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Porto
Alegre: Globo, 1939, pp. 91-95.
16. Cf.: As Formas do Falso. São Paulo:
Perspectiva, 1972, p. 57. Mas é preciso salientar que Walnice N.
GALVÃO sublinha explicitamente o fato que essa tradição
popular possui caráter diverso daquela "medievalização"
do sertão que constitui moeda corrente na tradição
letrada brasileira: na historiografia, na crônica, nos memoriais,
nos estudos folclóricos e na ficção. Nessa perspectiva,
ver a obra de Silvano PELOSO: Medievo nel Sertão. Tradizione medievale
europea e archetipi della litteratura populare del Nordeste del Brasile.
Napoli: Liguori Editore, 1984.
17. A esse mesmo propósito, creio que seria oportuno
lembrar uma observação de Richard M. MORSE. Relata ele que,
tendo sido convidado a revisar um trabalho de pesquisa por questionário
realizado no Brasil por um grande centro acadêmico norte-americano,
deparou-se com uma questão que pedia para identificar o presidente
do país, a que uma velha camponesa analfabeta respondeu "Pedro Álvares
Cabral". Entre outras reflexões críticas ao espanto daqueles
pesquisadores que, no entanto, eram incapazes de escrever corretamente
o nome do presidente do Brasil neste momento, MORSE destaca o fato de Cabral
ser uma personagem de grande significação simbólica,
e comenta: «A persistência de seu nome na imaginação
popular durante cinco séculos me sugeria menos uma "falta de informação"
que um maduro sentido da história (...). No Brasil, onde os reclamos
do passado são tão insistentemente visíveis, onde
a Chanson de Roland ainda é recitada em versões locais pelos
sertões, o nome de "Cabral" parece muito mais expressivo que o de
um anônimo tecnocrata militar que por casualidade está biologicamente
vivo.» cf.: El Espejo de Próspero. Un estudio de la dialéctica
del Nuevo Mundo. México: Siglo Veintiuno, 1982, p. 188 - grifado
por mim]. Faço um reparo ao evidente engano do historiador norte-americano:
não se trata por certo da Chanson de Roland, mas da história
de Carlos Magno. O deslize factual não retira, porém, o valor
de seu argumento.
18. Sobre esse período e a sua produção
principal, o melhor trabalho ainda é a tese de uma colega morta
prematuramente - Ruth Brito Lemos TERRA: Memória de Lutas - Literatura
de Folhetos no Nordeste (1893-1930). São Paulo: Global, 1983 -,
que, além disso, teve a lucidez de não ceder à mania
das classificações temáticas e encarou a problemática
dessa literatura numa perspectiva deliberadamente histórica, posto
que parcial. Em trabalho anterior, ela havia explorado no estudo dos folhetos
de Cordel as possibilidades metodológicas da análise estrutural
proposta por Valdimir I. PROPP para o conto maravilhoso cf.: TERRA, Ruth
B. L. e ALMEIDA, M. B. de: «A análise morfológica da
literatura popular em verso - uma hipótese de trabalho», Revista
do Instituto de Estudos Brasileiros (USP), São Paulo, n.º 16,
1975].
19. Vale assinalar, de passagem, a posição
ideológica e discriminadora dos que utilizam esse procedimento,
visto que em geral as produções da "grande literatura" não
são submetidas a esse mesmo tratamento classificatório por
temas.
20. Sobre esse período e a sua produção
principal, o melhor trabalho ainda é a tese de uma colega morta
prematuramente - Ruth Brito Lemos TERRA: Memória de Lutas - Literatura
de Folhetos no Nordeste (1893-1930). São Paulo: Global, 1983 -,
que, além disso, teve a lucidez de não ceder à mania
das classificações temáticas e encarou a problemática
dessa literatura numa perspectiva deliberadamente histórica, posto
que parcial. Em trabalho anterior, ela havia explorado no estudo dos folhetos
de Cordel as possibilidades metodológicas da análise estrutural
proposta por Valdimir I. PROPP para o conto maravilhoso cf.: TERRA, Ruth
B. L. e ALMEIDA, M. B. de: «A análise morfológica da
literatura popular em verso - uma hipótese de trabalho», Revista
do Instituto de Estudos Brasileiros (USP), São Paulo, n.º 16,
1975].
21. Cf.: «Memória sobre A Pedra Bonita
ou Reino Encantado, na Comarca de Villa Bella, Província de Pernambuco»,
Revista do Instituto Archeologico e Geographico de Pernambuco, Recife,
Tomo. XI, 1903-1904, pp. 216-248.
22. Cf.: História da Literatura Brasileira,
4ª ed., Tomo Primeiro. Rio de Janeiro: José Olympio, 1949,
pp. 152-162. O texto de onde retirei a citação não
pertence à edição original, foi ajuntado muito posteriormente.
23. Ver a esse respeito a recente publicação:
O Cordel, Testemunha da História do Brasil, col. «Literatura
Popular em Verso - Antologia / Nova Série, n.º 2». Rio
de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1987. Ou mesmo
um livro mais antigo, organizado por Pedro CALMON: A História do
Brasil na Poesia do Povo. Rio de Janeiro: A Noite, s/d.(1949; de que o
autor deu uma 2ª edição aumentada: Rio de Janeiro: Edições
Bloch, 1973).