Antônio Gonçalves da Silva
          (Patativa do Assaré)

          ABC do Nordeste Flagelado

               A — Ai, como é duro viver
               nos Estados do Nordeste
               quando o nosso Pai Celeste
               não manda a nuvem chover.
               É bem triste a gente ver
               findar o mês de janeiro
               depois findar fevereiro
               e março também passar,
               sem o inverno começar
               no Nordeste brasileiro.
           

               B — Berra o gado impaciente
               reclamando o verde pasto,
               desfigurado e arrasto,
               com o olhar de penitente;
               o fazendeiro, descrente,
               um jeito não pode dar,
               o sol ardente a queimar
               e o vento forte soprando,
               a gente fica pensando
               que o mundo vai se acabar.
           

               C — Caminhando pelo espaço,
               como os trapos de um lençol,
               pras bandas do pôr do sol,
               as nuvens vão em fracasso:
               aqui e ali um pedaço
               vagando... sempre vagando,
               quem estiver reparando
               faz logo a comparação
               de umas pastas de algodão
               que o vento vai carregando.
           

               D — De manhã, bem de manhã,
               vem da montanha um agouro
               de gargalhada e de choro
               da feia e triste cauã:
               um bando de ribançã
               pelo espaço a se perder,
               pra de fome não morrer,
               vai atrás de outro lugar,
               e ali só há de voltar,
               um dia, quando chover.
           

               E — Em tudo se vê mudança
               quem repara vê até
               que o camaleão que é
               verde da cor da esperança,
               com o flagelo que avança,
               muda logo de feição.
               O verde camaleão
               perde a sua cor bonita
               fica de forma esquisita
               que causa admiração.
           

               F — Foge o prazer da floresta
               o bonito sabiá,
               quando flagelo não há
               cantando se manifesta.
               Durante o inverno faz festa
               gorjeando por esporte,
               mas não chovendo é sem sorte,
               fica sem graça e calado
               o cantor mais afamado
               dos passarinhos do norte.
           

               G — Geme de dor, se aquebranta
               e dali desaparece,
               o sabiá só parece
               que com a seca se encanta.
               Se outro pássaro canta,
               o coitado não responde;
               ele vai não sei pra onde,
               pois quando o inverno não vem
               com o desgosto que tem
               o pobrezinho se esconde.
           

               H — Horroroso, feio e mau
               de lá de dentro das grotas,
               manda suas feias notas
               o tristonho bacurau.
               Canta o João corta-pau
               o seu poema funério,
               é muito triste o mistério
               de uma seca no sertão;
               a gente tem impressão
               que o mundo é um cemitério.
           

               I — Ilusão, prazer, amor,
               a gente sente fugir,
               tudo parece carpir
               tristeza, saudade e dor.
               Nas horas de mais calor,
               se escuta pra todo lado
               o toque desafinado
               da gaita da seriema
               acompanhando o cinema
               no Nordeste flagelado.
           

               J — Já falei sobre a desgraça
               dos animais do Nordeste;
               com a seca vem a peste
               e a vida fica sem graça.
               Quanto mais dia se passa
               mais a dor se multiplica;
               a mata que já foi rica,
               de tristeza geme e chora.
               Preciso dizer agora
               o povo como é que fica.
           

               L — Lamento desconsolado
               o coitado camponês
               porque tanto esforço fez,
               mas não lucrou seu roçado.
               Num banco velho, sentado,
               olhando o filho inocente
               e a mulher bem paciente,
               cozinha lá no fogão
               o derradeiro feijão
               que ele guardou pra semente.
           

               M — Minha boa companheira,
               diz ele, vamos embora,
               e depressa, sem demora
               vende a sua cartucheira.
               Vende a faca, a roçadeira,
               machado, foice e facão;
               vende a pobre habitação,
               galinha, cabra e suíno
               e viajam sem destino
               em cima de um caminhão.
           

               N — Naquele duro transporte
               sai aquela pobre gente,
               agüentando paciente
               o rigor da triste sorte.
               Levando a saudade forte
               de seu povo e seu lugar,
               sem um nem outro falar,
               vão pensando em sua vida,
               deixando a terra querida,
               para nunca mais voltar.
           

               O — Outro tem opinião
               de deixar mãe, deixar pai,
               porém para o Sul não vai,
               procura outra direção.
               Vai bater no Maranhão
               onde nunca falta inverno;
               outro com grande consterno
               deixa o casebre e a mobília
               e leva a sua família
               pra construção do governo.
           

               P - Porém lá na construção,
               o seu viver é grosseiro
               trabalhando o dia inteiro
               de picareta na mão.
               Pra sua manutenção
               chegando dia marcado
               em vez do seu ordenado
               dentro da repartição,
               recebe triste ração,
               farinha e feijão furado.
           

               Q — Quem quer ver o sofrimento,
               quando há seca no sertão,
               procura uma construção
               e entra no fornecimento.
               Pois, dentro dele o alimento
               que o pobre tem a comer,
               a barriga pode encher,
               porém falta a substância,
               e com esta circunstância,
               começa o povo a morrer.
           

               R — Raquítica, pálida e doente
               fica a pobre criatura
               e a boca da sepultura
               vai engolindo o inocente.
               Meu Jesus!  Meu Pai Clemente,
               que da humanidade é dono,
               desça de seu alto trono,
               da sua corte celeste
               e venha ver seu Nordeste
               como ele está no abandono.
           

               S — Sofre o casado e o solteiro
               sofre o velho, sofre o moço,
               não tem janta, nem almoço,
               não tem roupa nem dinheiro.
               Também sofre o fazendeiro
               que de rico perde o nome,
               o desgosto lhe consome,
               vendo o urubu esfomeado,
               puxando a pele do gado
               que morreu de sede e fome.
           

               T — Tudo sofre e não resiste
               este fardo tão pesado,
               no Nordeste flagelado
               em tudo a tristeza existe.
               Mas a tristeza mais triste
               que faz tudo entristecer,
               é a mãe chorosa, a gemer,
               lágrimas dos olhos correndo,
               vendo seu filho dizendo:
               mamãe, eu quero morrer!
           

               U — Um é ver, outro é contar
               quem for reparar de perto
               aquele mundo deserto,
               dá vontade de chorar.
               Ali só fica a teimar
               o juazeiro copado,
               o resto é tudo pelado
               da chapada ao tabuleiro
               onde o famoso vaqueiro
               cantava tangendo o gado.
           

               V — Vivendo em grande maltrato,
               a abelha zumbindo voa,
               sem direção, sempre à toa,
               por causa do desacato.
               À procura de um regato,
               de um jardim ou de um pomar
               sem um momento parar,
               vagando constantemente,
               sem encontrar, a inocente,
               uma flor para pousar.
           

               X — Xexéu, pássaro que mora
               na grande árvore copada,
               vendo a floresta arrasada,
               bate as asas, vai embora.
               Somente o saguim demora,
               pulando a fazer careta;
               na mata tingida e preta,
               tudo é aflição e pranto;
               só por milagre de um santo,
               se encontra uma borboleta.
           

               Z — Zangado contra o sertão
               dardeja o sol inclemente,
               cada dia mais ardente
               tostando a face do chão.
               E, mostrando compaixão
               lá do infinito estrelado,
               pura, limpa, sem pecado
               de noite a lua derrama
               um banho de luz no drama
               do Nordeste flagelado.
           

               Posso dizer que cantei
               aquilo que observei;
               tenho certeza que dei
               aprovada relação.
               Tudo é tristeza e amargura,
               indigência e desventura.
               — Veja, leitor, quanto é dura
               a seca no meu sertão.
           

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          Patativa do Assaré

          O autor — Antônio Gonçalves da Silva, dito Patativa do Assaré, nasceu a 5 de março de 1909 na Serra de Santana, pequena propriedade rural, no município de Assaré, no Sul do Ceará. É o segundo filho de Pedro Gonçalves da Silva e Maria Pereira da Silva. É casado com D. Belinha, de cujo consórcio nasceram nove filhos. Publicou Inspiração Nordestina, em 1956. Cantos de Patativa, em 1966. Em 1970, Figueiredo Filho publicou seus poemas comentados Patativa do Assaré. Tem inúmeros folhetos de cordel e poemas publicados em revistas e jornais. Está sendo estudado na Sorbonne, na cadeira da Literatura Popular Universal, sob a regência do Professor Raymond Cantel.