| Deve-se julgar a busca pelo padrão do Majnún do Amor.
Conta-se que, um dia, encontraram-no ocupado em peneirar o pó, enquanto
lhe corriam as lágrimas. Perguntaram-lhe: Que fazes?, ao que respondeu:
Busco Laylí! Ai de ti!, exclamaram-lhe, Laylí é de puro espírito e tu a
buscas no pó! Disse-lhes: Eu a busco em toda parte; quiçá em algum lugar
eu a posso encontrar.
Sim, embora para os
sábios seja vergonhoso procurar no pó o Senhor dos Senhores, isso, no
entanto, indica intenso ardor na busca. Quem com zelo algo procura, haverá
de encontrá-lo.
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Bahá'u'lláh
(Os Sete
Vales)
Biografias
Bahá'u'lláh
Báb
'Abdu'l-Bahá
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Em Nome de
Deus, O
Clemente, o Misericordioso.
Louvores a Deus, que fez sair do nada o ser, que gravou sobre a tábua
do homem os mistérios da pré-existência, que ensinou-lhe dos mistérios da
elocução divina aquilo que ele não conhecia e tornou-o um Livro Luminoso
para aqueles que acreditaram e se renderam; que o fez testemunhar a
criação de todas as coisas nesta negra e ruinosa era, e, do ápice da
eternidade, falar com voz maravilhosa no Templo Excelente: a fim de que
todo homem possa dar testemunho – em si mesmo e por si próprio – no grau
do Manifestante do Seu Senhor, de que em verdade não há Deus salvo Ele, e
todos os homens possam assim alcançar o cume das realidades, até que
nenhum deles contemple coisa alguma, seja o que for, sem nela ver a
Deus. E louvo e glorifico o primeiro mar oriundo do oceano
da Essência Divina, e o primeiro alvorecer que raiou no Horizonte da
Unicidade, e o primeiro sol que se ergueu no Céu da Unicidade, e o
primeiro fogo que se ateou da Lâmpada da Preexistência na candeia da
singularidade: Aquele que era Ahmad no reino dos seres excelsos, e Maomé
dentre a assembléia dos que estão próximos, e Mahmúd no reino dos
sinceros... Por qualquer nome que quiserdes, invocai-O: Ele tem os mais
excelentes nomes e nos corações dos que sabem. E sobre Sua casa e Seus
companheiros haja paz abundante, permanente e eterna!
Ademais, escutamos o que o rouxinol do saber cantou nos ramos da
árvore do teu ser, e aprendemos o que o pombo da certeza arrulhou nos
ramos do caramanchão de teu coração. Parece-me que inalei, em verdade, as
puras fragrâncias das vestes de teu amor e atingi o verdadeiro encontro
contigo, ao ler tua carta. E já que percebi a menção de tua morte em Deus
e de tua vida através dEle, e de teu amor pelos amados de Deus e pelos
Manifestantes de Seus Nomes e Pontos de Alvorecer de Seus Atributos – Eu,
pois, revelo-te os segredos e resplandecentes sinais dos planos da glória,
para te atrair à corte da santidade, proximidade e beleza, e te levar a
uma condição em que nada vejas na criação salvo a Face de teu Bem-Amado,
Alvo de toda a honra, e contemples todas as coisas criadas somente como no
dia em que de nenhuma se faz menção. Sobre isso cantou o rouxinol da
unidade, no jardim de Ghawthíyyih. Disse ele: Aparecerá sobre a tábua do
teu coração um escrito dos mistérios sutis de: “Temei a Deus, e Deus
dar-vos-á conhecimento”, e a ave da tua alma haverá de relembrar os
sagrados santuários da preexistência e elevar-se-á, nas asas do anelo, no
céu de “percorre os caminhos trilhados de teu Senhor”, e colherá os frutos
da comunhão nos jardins de “Alimentai-vos, pois, de toda espécie de
fruto.” Por Minha vida, ó amigo!fosses tu provar desses
frutos do jardim verdejante, dessas flores que desabrocham nas terras do
conhecimento, ao lado das luzes cintilantes da Essência nos espelhos dos
nomes e atributos – o anseio arrancaria de tuas mãos as rédeas da
paciência e do comedimento, faria tua alma vibrar com a luz cintilante e
te afastaria do lar terreno, alçando-te à morada primaz, celestial, no
Centro das Realidades, e elevar-te-ia ao plano em que flutuarias no ar
assim como ondas sobre a terra, e te moverias sobre a água assim como
corres sobre o solo. Portanto, que cause regozijo a Mim, e a ti, e a quem
se eleva ao céu do conhecimento e cujo coração se haja refrescado por
isso: o fato de haver o vento da certeza soprado sobre o jardim do seu
ser, vindo da Sabá do Todo-Misericordioso. Paz esteja
sobre aquele que segue o Caminho Certo! E mais: as etapas
que marcam a jornada do peregrino desde a morada de pó até a pátria
celestial são consideradas sete. Alguns as têm denominado Sete Vales e,
outros, Sete Cidades. E dizem que enquanto o peregrino não se livrar do
ego e não percorrer essas etapas, jamais alcançará o oceano da proximidade
e união, nem sorverá do vinho incomparável. O primeiro é o
VALE DA
BUSCA
O corcel desse Vale é a paciência; sem
a paciência o peregrino dessa jornada não chegará a parte alguma e não
atingirá nenhum alvo. Jamais deveria ele desanimar; ainda que se esforce
por cem milhares de anos e, contudo, não logre contemplar a beleza do
Amigo, nem assim deveria vacilar. Pois os que buscam a Caaba de por Nós,
regozijam-se nas boas novas de: Em Nossos caminhos Nós os guiaremos. Eles,
em sua busca, se têm empenhado fortemente em servir, procurando a todo
momento viajar do plano da negligência para o reino do ser. Laço algum
os há de impedir, nem conselho os deterá.
Incumbe a esses servos purificar o coração – manancial que é de
tesouros divinos – de toda a mácula, e afastar-se da imitação, a qual
consiste em seguir nas pegadas dos pais e antepassados, assim como
precisam fechar a porta da amizade e da inimizade para com todos os povos
da terra. Nessa jornada, o peregrino alcança uma condição
em que vê todas as coisas criadas vagando aturdidas em busca do Amigo.
Quantos Jacós verá ele em busca de seu próprio José! Contemplará muitos
apaixonados a se apressarem em busca do Bem-Amado; testemunhará um mundo
de seres ardorosos buscando o Desejado. A todo momento encontra ele um
assunto poderoso, a toda hora torna-se consciente de um mistério; pois já
se afastou de ambos os mundos e partiu em direção à Caaba do Bem-Amado. A
cada passo o apoio do Reino Invisível assisti-lo-á, e mais ardente se
tornará sua busca. Deve-se julgar a busca pelo padrão do
Majnún do Amor. Conta-se que, um dia, encontraram-no ocupado em peneirar o
pó, enquanto lhe corriam as lágrimas. Perguntaram-lhe: Que fazes?, ao que
respondeu: Busco Laylí! Ai de ti!, exclamaram-lhe, Laylí é de puro
espírito e tu a buscas no pó! Disse-lhes: Eu a busco em toda parte; quiçá
em algum lugar eu a posso encontrar. Sim, embora para os
sábios seja vergonhoso procurar no pó o Senhor dos Senhores, isso, no
entanto, indica intenso ardor na busca. Quem com zelo algo procura, haverá
de encontrá-lo. O verdadeiro buscador nada procura senão o
objeto de sua busca, e o apaixonado nenhum desejo nutre salvo a união com
o objeto de seu amor. E jamais o buscador atingirá seu objetivo a menos
que sacrifique todas as coisas. Ou seja, tudo o que tiver visto e ouvido e
entendido deverá ser posto de lado, a fim de que ele possa entrar no reino
do espírito, o qual é a Cidade de Deus. Esforço é mister se quisermos
procurá-Lo; imprescindível é o ardor para podermos sorver o mel da reunião
com Ele; e se desse cálice provarmos, rejeitaremos o mundo.
Nessa jornada o viajante habita em todas as terras, reside em
todas as regiões. Em todo semblante procura ele a beleza do Amigo; em cada
país busca o Bem-Amado. Associa-se a todos os grupos e procura a companhia
de cada alma, a fim de talvez poder descobrir em alguma mente o segredo do
Amigo, ou em alguma face contemplar a beleza do Amado. E,
se pela ajuda de Deus, encontrar nessa jornada um sinal visível do Amigo
invisível, e inalar do mensageiro celestial a fragrância do José há muito
perdido, entrará de imediato no
VALE DO
AMOR
e será consumido no fogo do amor. Nessa cidade ergue-se o céu
do êxtase, e brilha o sol do anelo que ilumina o mundo, e arde o fogo
do amor; e quando o fogo do amor flameja, converte em cinzas a colheita
da razão.
O viajante torna-se agora inconsciente de si
próprio e de tudo além de si. Não vê a ignorância nem o conhecimento, nem
a dúvida nem a certeza; não distingue entre a manhã da orientação e a
noite do erro. Foge tanto da crença como da descrença, e o veneno mortal é
para ele um bálsamo. Assim, pois, diz ‘Attár:
Para o infiel, o erro – para o fiel, a fé; Para o
coração de ‘Attár, um átomo de Tua dor.
O corcel desse Vale é a dor; e se não houver dor, jamais
terminará essa jornada. Nessa condição, o apaixonado não pensa senão no
Bem-Amado, nem busca refúgio algum salvo o Amigo. A todo momento, oferece
ele cem vidas na senda do Amado; a cada passo, joga mil cabeças aos pés do
Bem-Amado. Ó meu irmão! Enquanto não entrares no Egito do
amor, jamais haverás de encontrar o José da Beleza do Amigo; e a menos que
abandones teus olhos exteriores, assim como Jacó, jamais haverás de abrir
os olhos de teu ser interior; e até que ardas com o fogo do amor, jamais
haverás de comungar com o Amigo do Anelo. Quem ama nada
teme, nem lhe pode atingir dano algum: tu o vês frio no fogo e seco no
mar.
Amante é aquele que no fogo infernal se esfria;
Sábio é aquele que no mar permanece seco.
O amor não aceita nenhuma existência nem deseja vida alguma: vê
vida na morte e na vergonha procura glória. A fim de merecer a loucura do
amor, o homem deve possuir sanidade abundante; para merecer os laços do
Amigo, deve estar cheio de espírito. Bem-aventurado o pescoço preso por
seu laço; feliz a cabeça que cai ao pó no caminho de Seu amor. Portanto, ó
amigo, abandona a ti mesmo a fim de poderes encontrar o Incomparável;
abandona essa terra mortal para que possas buscar uma morada no ninho do
céu. Sê como nada, se desejas acender o fogo da existência e te tornares
apto para a senda do amor.
O amor não aceita uma alma com vida, O falcão não
captura um animal já morto.
O amor inflama um mundo a cada rotação, e devasta toda terra por
onde leva sua bandeira. O ser não tem existência em seu reino; o sábio
nenhum mando exerce dentro de seu domínio. O leviatã do amor engole o
mestre do raciocínio e destrói o senhor do conhecimento. Ele bebe os sete
mares, mas não fica saciada a sede de seu coração, e diz: Há ainda mais?
Ele rejeita a si próprio e afasta-se de todos na terra.
O amor é um estranho para a terra e para o céu;
Setenta e duas loucuras ocultam-se sob o seu véu!
Miríades de vítimas tem ele amarrado em suas correntes e miríades
de sábios, ferido com sua flecha. Sabe tu que todo rubor no mundo é de sua
ira, e toda a palidez nas faces dos homens é de seu veneno. Nenhum remédio
concede ele, senão a morte; não anda senão no vale da sombra; nos lábios
do apaixonado, porém, mais doce que mel é seu veneno, e aos olhos de quem
busca, o próprio aniquilamento é mais belo do que cem mil vidas. Assim,
pois, devem os véus do ego satânico ser queimados pelo fogo do amor, para
que o espírito possa ser purificado e limpado, e possa assim conhecer a
posição do Senhor dos Mundos.
Ateia a chama do amor e consome no fogo todas as coisas,
Põe o pé, então, na terra dos que amam.
E se, confirmado pelo Criador, o apaixonado escapar
das garras da águia do amor, haverá de entrar no
VALE DO
CONHECIMENTO
e sairá da dúvida para a certeza, e volver-se-á da treva da ilusão
para a luz do temor a Deus. Seus olhos interiores abrir-se-ão e ele conversará
secretamente com seu Bem-Amado; deixará abertos os portais da verdade
e da piedade, e fechará as portas das vãs fantasias. Ele, nessa condição,
está satisfeito com o decreto de Deus, e vê a guerra como paz, e acha
na morte os segredos da vida eterna. Com os olhos interiores e exteriores
testemunha os mistérios da ressurreição nos reinos da criação e das almas
dos homens, e com coração puro apreende a sabedoria divina nas infindáveis
Manifestações de Deus. No oceano encontra ele uma gota; numa gota, contempla
os segredos do mar.
Rachai o coração do átomo, e eis! Em seu imo um
sol encontrareis.
O viajante, nesse Vale, nada vê nos desígnios do Verdadeiro senão
clara providência, e a todo momento diz: Defeito algum podes ver na
criação do Deus de Misericórdia! Torna a fitar: vês tu alguma falha? Na
injustiça vê ele justiça, e na justiça, graça. Na ignorância encontra
muito conhecimento oculto, e no conhecimento, miríades de sabedorias
manifestas. Ele rompe a gaiola do corpo e das paixões e se associa aos que
residem no reino imortal. Ele ascende as escadas da verdade interior e se
apressa ao céu da significação interior. Ele é levado na arca de
Mostrar-lhes-emos nossos sinais nas regiões da terra e em si próprios, e
viaja no mar de até que se lhes torne manifesto ser [o Livro]a verdade. E
se encontrar injustiça, terá paciência; e se notar ira, manifestará
amor. Existiu certa vez um apaixonado que há longos anos
suspirava devido à separação da bem-amada, e que languescia no fogo do
afastamento. Sob o domínio do amor, seu coração carecia de paciência, e
seu corpo entediava-se do seu espírito; a seu ver a vida sem ela era uma
zombaria, e o tempo o consumia. Quantos os dias em que ele não achava
sossego, tão grande seu anseio por ela; quantas noites em que a dor por
ela impedia-lhe o sono. De seu corpo só restava um suspiro; a ferida em
seu coração transformara-o num grito de angústia. Teria ele dado mil vidas
para provar, uma só vez, do cálice da sua presença, mas isso de nada lhe
valeu. Os médicos não conheciam cura para seu mal, e os companheiros
evitavam-lhe a companhia. Sim, os médicos não possuem o remédio para quem
padece de amor, a menos que o favor da bem-amada o alivie.
Finalmente, a árvore do seu anseio produziu o fruto do
desespero, e o fogo da sua esperança transformou-se em cinzas. Então, uma
noite, não mais podendo viver, partiu de sua casa em direção à praça. De
súbito, um vigia começou a persegui-lo. Pôs-se a correr, com o vigia em
seu encalço; vieram depois outros vigias, e ao fugitivo fatigado fecharam
todos os caminhos. Coração em prantos, o desventurado corria de lá para
cá, gemendo consigo mesmo: Certamente esse vigia é ‘Izrá’íl, meu anjo da
morte, pois que com tanta rapidez me persegue, ou é um tirano que me
procura fazer mal. Os pés conduziam esse ser a sangrar com a flecha do
amor, e seu coração lamentava. Alcançou então o muro de um jardim e com
dor indizível escalou-o, porquanto era muito alto; então, esquecendo sua
vida, precipitou-se no jardim. E eis que aí viu sua
bem-amada, com uma candeia na mão, a procurar um anel que perdera. Ao
contemplar a amada encantadora, esse apaixonado que havia rendido o
coração respirou profundamente e ergueu as mãos em prece, exclamando: Ó
Deus! Concede Tu glória ao vigia, e riqueza e longa vida. Pois o vigia era
Gabriel a guiar este pobre; ou era Isráfíl trazendo vida a este
angustiado! De fato, eram verdadeiras suas palavras, pois
descobrira muita justiça secreta nessa aparente tirania do vigia, e vira
quanta misericórdia se ocultava atrás do véu. Em sua ira, o vigia havia
conduzido aquele sedento do deserto do amor para o mar da amada, e
iluminara a noite escura da ausência com a luz da reunião. Ele fizera
entrar no jardim da proximidade aquele que estava longe, e guiara uma alma
enferma ao médico do coração. Ora, tivesse o apaixonado podido prever
isso, desde o início teria abençoado o vigia e por ele orado, e teria
visto aquela tirania como justiça; mas já que o fim lhe estava velado, ele
no começo gemia e se queixava. Os que viajam pela terra ajardinada do
conhecimento, entretanto, porque vêem o fim no começo, percebem paz na
guerra, e amizade na ira. Tal é o estado dos que viajam
neste Vale; mas os seres dos Vales acima deste vêem o fim e o começo como
uma coisa só; não! eles não vêem nem começo nem fim; não testemunharam nem
“primeiro” nem “último”. Antes, os habitantes da cidade imorredoura, que
residem na terra verdejante, ajardinada, nem mesmo vêem “nem primeiro nem
último”; fogem de tudo o que é primeiro e repelem tudo o que é último.
Pois estes transpuseram os mundos dos nomes e fugiram para além dos mundos
dos atributos com a celeridade do relâmpago. Por isso é dito: A Unidade
absoluta exclui todos os atributos. E eles fizeram sua morada à sombra da
Essência. Assim, com referência a isso, Khájih ‘Abdu’lláh
– que Deus, o Altíssimo, santifique seu espírito amado – fez uma sutil
observação e disse uma palavra eloqüente sobre o que significa Guia-nos no
caminho certo, ou seja: Mostra-nos o caminho certo, isto é, honra-nos com
o amor à Tua Essência, a fim de sermos libertados do volver-nos para nós
mesmos e para tudo que não seja Tu, e nos tornemos inteiramente Teus, e
conheçamos a Ti somente, e apenas a Ti vejamos, e em ninguém pensemos
salvo em Ti. Ainda mais, esses seres elevam-se acima dessa
condição, razão pela qual é dito: O amor é um véu entre o
amante e a amada: Mais do que isso não me é permitido
dizer.
Nesta hora, a manhã do conhecimento surge, e as lâmpadas da
peregrinação e da busca são apagadas.
Mesmo Moisés foi disso velado, apesar de toda luz e poder;
Tu, que nem asas tens, não tentes, portanto, ao céu te
erguer.
Se fores homem de comunhão e oração, eleva-te nas
asas da ajuda das Almas Santas, a fim de que possas testemunhar os
mistérios do Amigo e atingir as luzes do Amado. Verdadeiramente, viemos de
Deus e a Ele haveremos de retornar. Depois de passar pelo Vale do
Conhecimento, que é o último plano da limitação, o peregrino alcança
O VALE DA
UNIDADE
e sorve do cálice do Absoluto e contempla os Manifestantes da
Unicidade. Nesse grau ele rompe os véus da pluralidade, foge dos mundos
da carne e ascende ao céu da unicidade. Com o ouvido de Deus ele ouve;
com os olhos de Deus, testemunha os mistérios da criação divina. Ele ingressa
no santuário do Amigo e compartilha, como um amigo íntimo, do pavilhão
do Amado. A mão da verdade ele estende de dentro da manga do Absoluto;
ele revela os segredos do poder. Não vê em si próprio nem nome, nem fama,
nem posição, mas encontra seu próprio louvor no louvor a Deus. Em seu
próprio nome vê ele o Nome de Deus; para ele, Todas as canções provêm
do Rei, e dEle vem cada melodia. Ele assenta-se no trono de Dize, tudo
vem de Deus, e repousa no tapete de Nenhum poder ou grandeza há, salvo
em Deus. Ele contempla todas as coisas com a vista da unicidade, e vê
os brilhantes raios do sol divino, que emanam do ponto do alvorecer da
Essência, atingirem igualmente todas as coisas criadas, e as luzes da
singularidade refletirem-se sobre toda a criação.
É claro para ti, ó
Eminência, que, durante as etapas de sua viagem, todas as variações que o
peregrino percebe nos reinos da existência procedem da sua própria visão.
Daremos um exemplo disso, para que seu significado se torne inteiramente
claro: considera o sol visível – embora brilhe com o mesmo esplendor sobre
todas as coisas e, a mando do Rei da Manifestação, conceda luz a toda a
criação, ele, no entanto, em cada lugar se manifesta e dispensa suas
graças segundo as potencialidades daquele lugar. Num espelho, por exemplo,
reflete seu próprio disco e formato, devido à sensibilidade do espelho;
num cristal faz aparecer fogo e, em outras coisas, mostra apenas o efeito
da sua irradiação, mas não seu disco inteiro. E, no entanto, através desse
efeito, segundo a ordem do Criador, ele treina cada coisa de acordo com a
qualidade desta, como bem podes observar. Outrossim, as
cores tornam-se visíveis em cada objeto segundo a natureza desse objeto.
Num globo amarelo, por exemplo, os raios reluzem amarelos; num branco, são
brancos os raios, e, num vermelho, raios vermelhos se manifestam.
Portanto, essas variações são do objeto e não da luz irradiante. E se um
lugar for fechado à luz, por paredes ou um teto, ficará inteiramente
privado do esplendor da luz; nem poderá o sol ali brilhar. Assim é que
certas almas inválidas confinaram as terras do conhecimento dentro dos
muros do ego e da paixão, e as têm nublado com ignorância e cegueira,
ficando privadas da luz do sol místico e dos mistérios do Eterno
Bem-Amado; e têm vagueado longe da preciosa sabedoria da Fé lúcida do
Senhor dos Mensageiros, sendo excluídas do santuário do Todo-Formoso e
sendo banidas da Caaba do esplendor. É o quanto vale o povo desta
era! E se um rouxinol alçar vôo do barro do ego e,
aninhando-se no roseiral do coração, relatar em melodias das quais uma só
palavra traz vida nova e fresca aos corpos dos mortos, e concede o
Espírito Santo aos ossos deteriorados desta existência – verás mil garras
de inveja, miríades de bicos rancorosos que O perseguem e que, com todas
as forças, intentam Sua morte. Deveras, para o besouro uma doce fragrância
parece fétida, e para um homem com reuma um perfume agradável é como nada.
Foi dito, pois, para a orientação do ignorante:
Limpa de tua cabeça a reuma, mal febril E aspira
então o Sopro Divino, primaveril.
Em suma, as diferenças entre os objetos já se tornam agora
claras. Assim, quando o viajante contempla apenas o lugar da manifestação
– isto é, quando olha apenas os globos multicolores – vê amarelo e
vermelho e branco. É por essa razão que o conflito tem predominado entre
as criaturas, e uma tenebrosa poeira provinda de almas limitadas tem
encoberto o mundo. Alguns há que miram o fulgor da luz; e alguns há que
sorveram o vinho da unicidade: esses nada vêem senão o próprio sol.
Assim, por moverem-se nesses três planos diferentes a
compreensão e as palavras dos viajantes têm variado, e por isso o sinal do
conflito manifesta-se continuamente na terra. Pois há alguns que habitam
no plano da unicidade e desse mundo falam, e alguns que residem nos
domínios da limitação, e alguns nos graus do ego, enquanto outros se acham
completamente velados. Assim, pois, as pessoas ignorantes da época,
privadas de um quinhão do esplendor da Beleza Divina, fazem certas
alegações e, em cada era e cada ciclo, infligem ao povo do mar da
unicidade aquilo que elas próprias merecem. Fosse Deus punir os homens
pelos seus feitos perversos, não deixaria Ele sobre a terra uma só coisa
vivente! Mas até o fim de um prazo determinado, Ele lhes concede
trégua... Ó Meu irmão! Um coração puro é como um espelho;
limpa-o com o polimento do amor e do desprendimento de tudo exceto de
Deus, para que nele possa brilhar o sol verdadeiro e a manhã eterna
alvoreça. Tu verás então, com clareza, o que significa: Nem Minha terra
nem Meu céu Me contêm, mas o coração de Meu servo fiel Me contém. E
tomarás tua vida em tua mão e a lançarás com infinito anelo diante do novo
Bem-Amado. Sempre que a luz da Manifestação do Rei da
Unicidade se estabelece no trono do coração e da alma, o brilho dEle
torna-se visível em cada membro e elemento do corpo. Então, o mistério da
famosa tradição reluz em meio às trevas: Um servo é atraído a Mim em prece
até que Eu lhe responda: e quando Eu lhe tiver respondido, torno-Me o
ouvido com o qual ele ouve...Pois assim o Senhor da casa apareceu dentro
de Seu lar, e todos os pilares da morada cintilam com Sua luz. E a ação e
o efeito são dAquele que concede a luz: assim é que todos se movem através
dEle e se levantam pela Sua vontade. E é essa a fonte da qual bebem os que
estão próximos, assim como é dito: Uma fonte da qual haverão de beber
aqueles próximos de Deus... Que ninguém, entretanto,
interprete essas palavras como expressão de antropomorfismo, nem nelas
veja a descida dos mundos de Deus para os níveis das criaturas; nem devem
elas levar-te, ó Eminência, a tais suposições. Pois Deus, em Sua Essência,
é santificado acima de ascensão e descida, entrada e saída. Ele, desde
toda a eternidade, mantém-Se livre dos atributos das criaturas humanas, e
assim será para sempre. Homem algum jamais O conheceu; nunca uma alma
descobriu o caminho que conduz a Seu Ser. Todo sábio místico tem vagueado
longe, sem rumo no vale do conhecimento dEle; todo santo tem perdido o
caminho na tentativa de compreender Sua Essência. Santificado é Ele acima
da compreensão dos sábios; exaltado é Ele além do conhecimento dos que
conhecem. O caminho está fechado, e procurá-lo é impiedade. Sua prova está
em Seus sinais. Seu ser é Sua evidência. Por isso, os que
amam a face do Bem-Amado disseram: Ó Tu, Aquele Cuja Essência,
tão-somente, mostra o caminho que conduz à Sua Essência, e que estás
santificado além de qualquer semelhança com Suas criaturas. Como pode o
simples nada galopar seu corcel no campo da preexistência, ou uma sombra
fugaz alcançar o sol imperecível? Disse o Amigo: Não fosses Tu, nós não Te
teríamos conhecido, e disse o Amado: nem atingido Tua Presença.
Sim, o que se tem mencionado em relação aos graus do
conhecimento refere-se ao conhecimento dos Manifestantes daquele Sol da
Realidade que projeta Sua luz sobre os Espelhos. E o esplendor dessa luz
está nos corações, embora se ache oculta sob os véus dos sentidos e das
condições desta terra, do mesmo modo que uma vela dentro de uma lanterna
de ferro. Somente ao ser removida a lanterna é que a luz da vela
irradia. Do mesmo modo, quando despires teu coração do
invólucro da ilusão, as luzes da unicidade tornar-se-ão manifestas.
Está claro, pois, que até para os raios não há entrada nem saída
– quanto menos para aquela Essência do Ser e aquele Mistério tão almejado.
Ó Meu irmão, viaja nesses planos com espírito de busca, e não em cega
imitação. Um verdadeiro peregrino não será impedido pela clava das
palavras, nem barrado pela advertência de alusões.
Como pode uma cortina afastar o amante da amada?
Nem o muro de Alexandre os pode separar!
Segredos são muitos, mas há miríades de estranhos. Volumes não
bastarão para conter o mistérios do Bem-Amado, nem essas páginas o poderão
esgotar, embora nada mais seja que uma palavra, nada além de um sinal. O
conhecimento é um só ponto, mas os ignorantes o têm multiplicado.
Com base nisso, pondera também sobre as diferenças entre os
mundos. Se bem que os mundos divinos sejam intermináveis, algumas
pessoas, no entanto, referem-se a eles como sendo quatro: o mundo do tempo
(zamán), que é o que tem tanto um princípio como um fim; o mundo da
duração (dahr) o qual tem um começo, mas cujo fim não é revelado; o mundo
da perpetuidade (sarmad), cujo princípio não é visível, mas sabe-se ter
fim; e o mundo da eternidade (azal), que não tem começo nem fim visíveis.
Embora existam muitas alegações divergentes relativas a esses pontos,
causaria tédio se delas tratássemos em detalhe. Assim, alguns têm dito que
o mundo da perpetuidade não tem começo nem fim, e denominam o mundo da
eternidade de o Empíreo invisível, inexpugnável. Outros têm denominado
esses mundos de a Corte Celestial (Láhút), o Céu Empíreo (Jabarút), o
Reino dos Anjos (Malakút) e o mundo mortal (Násút). As jornadas na senda do amor são reconhecidas
como sendo quatro: das criaturas ao Verdadeiro; do Verdadeiro às
criaturas; das criaturas às criaturas; do Verdadeiro ao Verdadeiro.
Há muitas afirmações de videntes místicos e doutores de tempos
passados que deixei de mencionar aqui, por desagradar-Me o citar
demasiadamente dos dizeres do passado; pois a citação das palavras de
outrem indica erudição adquirida e não a dádiva divina. Até mesmo o pouco
que temos citado aqui é por deferência ao costume dos homens e segundo o
modo dos amigos. Além disso, tais assuntos estão além do escopo dessa
epístola. Não é por orgulho que não desejamos relatar os dizeres; antes,
trata-se de uma manifestação de sabedoria e é uma demonstração de
graça.
Se Khidr fez naufragar o navio no oceano, Ainda
há mil acertos nesse aparente engano.
Doutro modo, este Servo considera a Si Próprio como totalmente
perdido, como nada, mesmo ao lado de um dos amados de Deus, quanto mais na
presença de Seus santos. Louvado seja Meu Senhor, o Supremo! Além disso,
nosso objetivo é relatar as etapas da jornada do peregrino, e não expor os
dizeres contraditórios dos místicos. Embora já tenha sido
dado um breve exemplo acerca do princípio e do fim do mundo relativo, do
mundo dos atributos, acrescentamos agora mais um, para que o pleno sentido
se possa manifestar. Por exemplo: que tu, ó Eminência, consideres a ti
próprio – és o primeiro em relação a teu filho, e o último em relação a
teu pai. Em tua aparência exterior, és uma evidência da manifestação do
poder nos reinos da criação divina; em teu interior, revelas os mistérios
ocultos – que são fideicomisso divino depositado dentro de ti. E, assim,
os atributos de ser primeiro e último, de exterioridade e interioridade,
no sentido referido, manifestam-se em ti, para que nesses quatro estados a
ti conferidos possas compreender os quatro estados divinos, e o rouxinol
de teu coração, sobre todos os ramos da roseira da existência, quer
visíveis ou ocultos, possa exclamar: Ele é o Primeiro e o Último, o
Visível e o Oculto. Essas afirmações são feitas na esfera
daquilo que é relativo, devido às limitações dos homens. Doutro modo,
aqueles seres que num só passo transpuseram o mundo do relativo e do
limitado, indo habitar no belo plano do Absoluto, com sua tenda erguida
nos mundos da autoridade e do comando – estes queimaram tais
relatividades com uma só centelha, e apagaram tais palavras com uma gota
de orvalho. Eles nadam no mar do espírito, e elevam-se no santo ar da luz.
Que vida, pois, é possuída por palavras em tal plano, que se pudesse ver
ou mencionar “primeiro” e “último” ou outra qualquer? Neste reino, o
primeiro é, em si mesmo, o último; e o último é apenas o primeiro.
Acende na tua alma o fogo do amor: Queima
totalmente pensamentos e palavras no seu calor.
Ó meu amigo, mira-te a ti mesmo: caso não tivesses te tornado pai
e gerado um filho, não terias ouvido esses dizeres. Agora esquece-te de
todos eles, para que possas ser educado pelo Mestre do Amor, na escola da
unicidade, e regressar para Deus, e trocar a terra interior da irrealidade
por tua verdadeira condição, e morar à sombra da árvore do
conhecimento. Ó tu amado! Empobrece-te a fim de que possas
entrar na alta corte das riquezas; e humilha teu corpo, para que possas
beber do rio da glória e atingir o pleno significado dos poemas sobre os
quais perguntaste. Dessa forma, fica claro que essas
etapas dependem da visão do peregrino. Em toda cidade verá ele um mundo,
em todo vale alcançará uma fonte, em todo prado ouvirá uma canção. Mas o
falcão do céu místico tem muita maravilhosa música do espírito em Seu
peito, e a ave persa guarda em Sua alma muitas doces melodias árabes;
porém, estão ocultas, e ocultas hão de permanecer.
Se eu as expressar, mentes inúmeras serão partidas,
E se as escrever, penas sem conta serão rompidas.
Paz esteja sobre aquele que conclui essa jornada
excelsa e segue o Ser Verdadeiro pelas luzes que guiam. E
o viajante, depois de haver atravessado os planos elevados dessa jornada
superna, adentra o
VALE DO
CONTENTAMENTO
Nesse Vale, ele sente as brisas do contentamento divino a soprar
do plano do espírito. Ele queima os véus da penúria, e com os olhos interiores
e exteriores vê dentro e fora de todas as coisas o dia de: Deus a cada
um compensará com Sua abundância. Da tristeza, ele se volve ao êxtase;
da angústia, ao júbilo. Seu pesar e seus lamentos cedem lugar ao deleite
e ao enlevo.
Embora aparentemente os peregrinos
desse Vale habitam no pó, interiormente, no entanto, acham-se entronizados
nas alturas da significação mística; alimentando-se das infindáveis graças
dos significados interiores e sorvem os delicados vinhos do
espírito. A língua falha ao tentar descrever esses três
Vales, e as palavras são inadequadas. A pena não escreve nessa região; a
tinta deixa apenas um borrifo. Nesses planos, o rouxinol do coração tem
outras canções e outros segredos que comovem o coração e fazem a alma
clamar; mas esse mistério de sentido interior só pode ser sussurrado de
coração a coração, confiado apenas de peito a peito.
Somente os corações, do êxtase dos sábios místicos podem
falar; Pois não há mensageiro ou missiva que o consiga
relatar.
Por incapacidade devo silenciar, Muita cousa a
ser dita; Palavras minhas não as podem relatar
Nem há voz que as reflita.
Ó amigo, enquanto não entrares no jardim desses
mistérios, jamais teus lábios haverão de tocar o vinho imperecível desse
Vale. E se tu o provares, protegerás teus olhos de tudo o mais, e sorverás
o vinho do contentamento; livrar-te-ás de todas as outras coisas,
unir-te-ás a Ele, e sacrificarás tua vida em Sua vereda, e abandonarás tua
alma. Todavia, não há outro nessa região a quem tenhas de esquecer: Havia
Deus e nada havia além dEle. Pois quem viaja nesse plano testemunha em
tudo a beleza do Amigo. Até no fogo vê a face do Bem-Amado. Percebe na
ilusão o segredo da realidade, e lê nos atributos o enigma da Essência.
Pois ele já queimou os véus com seus suspiros, e penetrou os invólucros
com um só olhar; com visão penetrante contempla a nova criação; com
coração lúcido abarca verdades sutis. Isso é atestado adequadamente por: E
fizemos aguda tua visão nesse dia. Após viajar através dos
planos do puro contentamento, o peregrino alcança o
VALE DA
ADMIRAÇÃO
e é sacudido nos oceanos da grandeza, e a todo instante sua admiração
cresce. Aqui a aparência de riqueza se lhe afigura como a própria pobreza,
e a essência da liberdade, como pura dependência. Ora se acha atônito
ante a formosura do Todo-Glorioso; ora sua própria vida o deprime. Quantas
foram as árvores místicas desarraigadas por este ciclone da admiração;
quantas as almas por ele levadas à exaustão. Pois nesse Vale o peregrino
é lançado em confusão, mas, aos olhos de quem as atingiu, tais maravilhas
são estimadas e benquistas. A todo momento se lhe apresenta um mundo admirável,
uma nova criação, e ele passa de espanto a espanto, estupefato ante as
obras do Senhor da Unicidade.
Em
verdade, ó irmão, se ponderarmos sobre cada uma das coisas criadas,
haveremos de testemunhar miríades de sabedorias perfeitas, e aprenderemos
miríades de verdades novas e maravilhosas. Um dos fenômenos criados é o
sonho. Vê quantos segredos nele se acham depositados, quantas sabedorias
entesouradas e quantos mundos ocultos. Observa: estás adormecido numa
morada cujas portas estão trancadas, mas, de súbito, te encontras numa
cidade longínqua, onde entras sem mover os pés ou fatigar o corpo; vês sem
fazer uso de teus olhos, e, sem esforço dos ouvidos, ouves; sem língua,
falas. E talvez presencies no mundo exterior, dez anos depois, as
mesmíssimas coisas que sonhaste essa noite. Ora, há muitas
sabedorias que ponderar no sonho, as quais ninguém pode compreender em
seus elementos verdadeiros, a não ser os habitantes deste Vale. Primeiro:
que mundo é esse onde sem olhos, ouvidos, mãos ou língua, o homem usa
todos eles? Segundo: como é que vês hoje, no mundo exterior, a realização
de um sonho que previste no mundo do sono há uns dez anos passados? Deves
considerar a diferença entre esses dois mundos e os mistérios por eles
encerrados, a fim de que possas atingir as confirmações divinas e as
descobertas celestiais, e entrar nas regiões da santidade.
Deus, o Excelso, depositou nos homens esses sinais para que os
filósofos não negassem os mistérios da vida do além, nem tivessem em pouco
conta aquilo que lhes foi prometido. Pois alguns se apóiam no raciocínio e
negam tudo o que a razão não compreende; entretanto, mentes fracas jamais
compreenderão os temas que acabamos de relatar, pois tão-somente a
Inteligência Suprema, Divina, é que os pode compreender:
Como pode o frágil raciocínio abarcar o Alcorão,
Ou a aranha prender uma fênix em sua teia?
Todos esses estados hão de ser presenciados no Vale da Admiração,
e quem nele viaja busca sempre mais, a todo momento, e não se fatiga.
Assim, o Senhor do Primeiro e do Último, ao expor os graus da contemplação
e ao expressar Sua admiração, disse: Ó Senhor, aumenta meu assombro diante
de Ti! Outrossim, medita sobre a perfeição da criação do homem, e como
todos esses planos e estados nele se encerram e ocultam.
Consideras a ti próprio apenas um ser insignificante
Quando o universo em ti se encerra?
Devemos, pois, nos esforçar por destruir a condição animal, até
que o significado da condição humana se torne claro. Assim
também Luqmán, que bebeu do manancial da sabedoria e provou as águas da
mercê, ao demonstrar ao filho, Nathan, os planos da ressurreição e da
morte, apresentou o sonho como evidência e exemplo. Relatamos isso aqui
para que, através deste Servo efêmero, permaneça uma recordação daquele
jovem da escola da Unicidade Divina, daquele ancião na arte da instrução e
do Absoluto. Disse ele: Ó filho, se podes deixar de dormir, poderás então
deixar de morrer. E, se consegues não acordar após o sono, conseguirás
também não ressurgir após a morte. Ó amigo, o coração é a
morada de mistérios eternos; não o faças lar de fantasias fugazes. Não
dissipes o tesouro da tua vida preciosa com as ocupações deste mundo
efêmero. Vens do mundo da santidade, não prendas à terra teu coração. És
habitante da corte da proximidade, não escolhas o pó para tua
pátria. Em suma, é interminável a descrição dessas etapas,
mas, por causa das injúrias que os povos da terra lhe infligiram, este
Servo não se acha disposto a continuar:
Resta ainda, inacabado, o relato na mão; Mas
falta-me ânimo; imploro, pois, perdão.
A pena geme, a tinta derrama lágrimas, e o rio do
coração move-se em ondas de sangue. Coisa alguma nos pode suceder senão
aquilo que Deus nos destinou. Haja paz sobre aquele que segue no Caminho
Certo! Após haver ascendido aos altos píncaros da admiração, o viajante
alcança o
VALE DA
VERDADEIRA POBREZA E INEXISTÊNCIA ABSOLUTA
Este estado é o da morte do ego, e da vida em Deus; o de ser pobre
no ego, e rico no Desejado. A pobreza à qual aqui nos referimos significa
ser pobre nas coisas do mundo criado, mas rico nas coisas do mundo de
Deus. Pois quando o amante verdadeiro, o amigo devoto, atinge a presença
do Bem-Amado, a radiante formosura dEste, e o ardor do coração do apaixonado,
farão surgir uma chama que consumirá todo véu e todo invólucro. Sim, tudo
o que ele possui, do coração à pele, inflamar-se-á, nada restando senão
o Amigo.
Quando as qualidades do Ancião dos Dias foram reveladas,
As qualidades das coisas terrenas foram por Moisés
queimadas.
Quem tiver atingido essa condição, achar-se-á purificado de tudo
o que pertence ao mundo. Se, pois, for percebido que aqueles que
alcançaram o mar da Sua Presença não possuem nenhuma das coisas limitadas
desse mundo perecível, quer seja riqueza exterior ou opiniões pessoais,
não importa. Pois tudo o que as criaturas possuem é limitado por suas
próprias limitações, e tudo o que o Verdadeiro possui está disso
santificado. Deve-se ponderar profundamente sobre essa asserção, a fim de
que seu intuito se torne claro. Verdadeiramente, o justo beberá do vinho
temperado na fonte de cânfora. Se for conhecida a interpretação de
“cânfora”, a verdadeira intenção tornar-se-á evidente. Esse estado é o da
pobreza da qual se diz: A pobreza é Minha glória. E na pobreza, seja
interior ou exterior, há muitas etapas e muitos sentidos que não julguei
pertinentes aqui; reservei-os, pois, para outra ocasião, dependendo
daquilo que Deus possa desejar ou o destino impor. Esse é
o plano onde são destruídos, no viajante, os vestígios de todas as coisas,
e, no horizonte da eternidade, surge da treva o Semblante Divino, e
torna-se manifesto o sentido de: Tudo na terra há de passar, menos a Face
de teu Senhor. Ó Meu amigo, ouve de coração e alma as
canções do espírito, e valoriza-as como valorizas teus próprios olhos.
Pois as sabedorias celestiais, à semelhança das nuvens primaveris, não
regarão para sempre o solo dos corações humanos; e, embora a graça do
Todo-Poderoso jamais se aquiete e jamais cesse, no entanto, para cada
tempo e cada era é designado um quinhão, e uma dádiva lhe é conferida – e
isso numa determinada medida. E coisa alguma há que não seja suprida de
Nossos depósitos; e não a dispensamos, a não ser numa medida determinada.
A nuvem da mercê do Bem-Amado rega somente o jardim do espírito, e só na
estação primaveril é que concede esse favor. As outras estações não
participam dessa, a maior das graças, nem é concedida às terras estéreis
porção alguma desse favor. Ó irmão! Nem todo mar tem
pérolas; nem todos os ramos florescerão, tampouco sobre todos cantará o
rouxinol. Antes, pois, que o rouxinol do paraíso místico se recolha para o
jardim de Deus, e os raios da manhã celestial voltem ao Sol da Verdade,
faze um esforço para que, nesse monte de pó que é o mundo mortal, possas
aspirar, quiçá, uma fragrância do jardim eterno, e viver para sempre à
sombra dos habitantes dessa cidade. E quando tiveres atingido esse grau
supremo, e entrado nesse plano mais grandioso, então contemplarás o
Bem-Amado, e tudo mais esquecerás.
O Bem-Amado brilha agora por toda parte, Ó homens
de visão, sem véu algum que O aparte.
Abandonaste agora a gota da vida e atingiste o mar dAquele que
concede a vida. É esse o alvo que pediste; se for a vontade de Deus
haverás de alcançá-lo. Nessa cidade, até os véus de luz se
rompem e se esvaecem. Sua beleza véu algum tem a não ser a iluminação; Seu
semblante, disfarce algum salvo a revelação. Que estranho! Embora o
Bem-Amado esteja tão visível como o sol, no entanto, os desatentos buscam
ainda as lantejoulas e o vil metal. Sim, a intensidade de Sua revelação O
encobriu, e a plenitude de Sua irradiação O ocultou.
Tal qual o sol radiante a Verdade brilhou, Mas
que lástima! À cidade dos cegos chegou.
Nesse Vale, o viajante deixa para trás as etapas da “unicidade da
Existência e da Manifestação”, atinge uma unicidade santificada acima
desses dois graus. O êxtase, tão-somente, pode abranger este tema, e não
palavras ou argumento. Quem tiver permanecido nessa etapa da viagem, ou
recebido um sopro dessa terra ajardinada, conhece isso de que
falamos. Em todas essas viagens, o peregrino não se deve
desviar da Lei nem pela grossura de um fio de cabelo, pois isso, de fato,
é o segredo do Caminho e o fruto da Árvore da Verdade. Em todas essas
etapas deve ele aderir às vestes da obediência aos mandamentos, e
segurar-se à corda do afastamento de todas as coisas proibidas, para que
seja nutrido do cálice da Lei e informado sobre os mistérios da
Verdade. Se alguma das exposições deste Servo não for
compreendida, ou levar à perturbação, ela deverá ser indagada novamente, a
fim de que não reste nenhuma dúvida, e o sentido se torne tão claro como o
Semblante do Bem-Amado a brilhar da Posição Gloriosa. Para
essas viagens não há término visível no mundo do tempo, mas o peregrino
desprendido – se a confirmação invisível descer sobre ele e o Guardião da
Causa o ajudar em sete sopros; antes, até em um só sopro, se Deus assim
quiser e desejar. E isso é de Sua graça àqueles de Seus servos que Lhe
aprouver concedê-la. Os que voam no céu da singularidade e
alcançam o mar do Absoluto, consideram essa cidade – que é o grau da vida
em Deus – como o mais alto estado dos sábios místicos, e a mais remota
pátria dos que amam. Mas, para este Ser efêmero do oceano místico, esse
estado é o primeiro portal da cidade do coração; e o coração é dotado de
quatro etapas, as quais seriam descritas, se fosse encontrada uma alma
irmã.
Quando a pena se pôs a delinear esse grau
Despedaçou-se, e a página se rompeu.
Salám!
Ó Meu amigo! Inúmeros cães perseguem esta gazela do deserto da
unicidade; inúmeras garras procuram dilacerar este rouxinol do jardim
eterno. Corvos impiedosos espreitam este pássaro dos céus de Deus, e o
caçador da inveja espia este cervo no prado do amor. Ó
Shaykh! Faze de teu esforço um vidro para que talvez possa proteger esta
chama dos ventos da oposição; apesar de que esta luz anela por ser acesa
na lâmpada do Senhor e por brilhar no porto do espírito. Pois a cabeça que
foi erguida no amor de Deus, seguramente cairá pela espada, e a vida que
se torna ardente devido ao anelo, certamente será sacrificada, e o coração
que recorda o Bem-Amado seguramente haverá de transbordar sangue. Quão bem
foi dito:
Vive livre de amor, sua paz é angústia; Seu
começo é dor, e seu fim é morte.
Paz esteja sobre aquele que segue o caminho reto!
Os pensamentos que expressaste quanto à significação da espécie
comum de pássaro conhecida em persa como Gunjishk (pardal) foram
considerados. Tu pareces ser bem fundado na verdade mística. Entretanto,
em cada plano, cada letra recebe um significado que se relaciona àquele
estado. Na verdade, o peregrino descobre um segredo em cada nome, um
mistério em cada letra. Em um sentido, essas letras referem-se à
santidade. Káf ou Gáf (K ou G) referem-se a Kuffi
(livra-te), ou seja: Livra-te daquilo que tua paixão deseja, então avança
para teu Senhor. Nún (N) refere-se a Nazzih (purifica-te)
ou seja: Purifica-te de tudo salvo dEle, para que possas entregar tua vida
em Seu amor. Jím (J) é Jánib (retira-te), ou seja:
Retira-te do limiar do Verdadeiro, caso ainda possuas atributos
terrenos. Shín (Sh) significa Ushkur (agradece): Agradece
a teu Senhor em Sua terra para que Ele, em Seu céu, te possa abençoar;
embora, no mundo da unicidade, esse céu é o mesmo que Sua terra.
Káf (K) refere-se a Kaffir (retira), ou seja: Retira de ti os
invólucros das limitações, para que possas vir a conhecer aquilo que não
conheceste a respeito dos estados da Santidade. Fosses tu
atender às melodias deste Pássaro mortal, partirias em busca do cálice
imortal e deixarias de lado toda taça perecível. Que a paz
esteja sobre os que trilham o Caminho Certo!
Bahá’u’lláh |